Deixe o brilho retornar.

Ao mesmo tempo em que amo as rotineiras viagens de ônibus, também as odeio. Digo que o tempo parece parar dentro de um mero ônibus. Quando há alguma exigência própria ou o sono toma conta do meu ser, essas idas e voltas são favoráveis. No entanto, na maioria das vezes, quando a madrugada aos poucos se aproxima e o que há ao redor são apenas os cansados silenciosos e os ruídos do ônibus, as músicas específicas formam uma playlist dolorosa e estratégica e eu me encontro naquele caminho outra vez. Aquele que não me deixa descansar.

Eu sempre amei o céu, e quando uma melodia mais lenta invade meus ouvidos, olho para ele na esperança de encontrá-lo estrelado ou apenas um pouco convidativo. Por vezes, com propósitos de conforto, o imagino baseado na linda noite expressada por Van Gogh. O céu tão lindo, mas tão turbulento, como sempre. Músicas e o céu sempre me fazem mergulhar em mim mesma e pensar dolorosa e calmamente sobre tudo e todos. Especialmente aqueles que deixaram marcas irreversíveis. O céu escuro reflete a profundidade que, durante a claridade do dia, não o faz. Em uma velocidade difícil de acompanhar, a paisagem repleta de verde também se faz presente em meu cenário melancólico. As árvores. A terra por si só, quem sabe? Ah, esse sentimento que teima em reprisar angústias e memórias inquietantes. Nunca cessará? 

A profundidade do escuro desse céu me faz, inevitavelmente, lembrar da cor dos seus olhos. Daquele castanho tão forte que se aproxima do preto. Na profundidade desse olhar, encontrei a segurança da qual precisava. Por fim conheci a reciprocidade, senti a certeza, pela primeira vez na vida. No castanho de seus olhos, atrativos como os grãos que formam minha bebida favorita, encontrei a mais convincente representação daquele intenso sentimento do qual tanto se fala, mas pouco se sente de verdade. Era a primeira vez que um olhar não era apenas de relance em minha direção. Era a primeira vez que alguém verdadeiramente me via. No início, pareceu errado, o conflito interno era arrebatador demais e a respiração fica ofegante apenas de lembrar das noites sem dormir direito. O que os outros diriam? Depois de um tempo, isso passa a importar cada vez menos. Era apenas o brilho dos nossos olhares que importava, o restante que procurassem seus próprios. Mas, assim como o café esfria, esse intenso sentimento também. Você largou minha mão enquanto dançávamos, eu era a única que ainda ouvia a música, mas você já não queria mais ouvi-la. Não estávamos em sintonia há um tempo, mas você não quis me contar, com medo de machucar ainda mais. Nossa música já não te cativava mais. O brilho dos seus olhos desapareceu, me deixando a pensar que estava fadada a tentar reproduzir a música em loop, quando você já havia a retirado da playlist de sua vida. O chão abaixo de meus pés foi dividido ao meio e o abismo estava à minha espera, como pode o solo se assemelhar a um coração?

Nessa sensação de entrega ao vazio, nessa queda imaginária, foi preciso tentar manter o fraco brilho no castanho dos meus olhos. Precisava reconstruir o chão abaixo de meus pés outra vez. Fácil? Claro que não. O choque de realidade veio na primavera, quando as flores mostram suas belas cores e o verde das folhas parecem vibrar de tanta intensidade, mas meus pensamentos outonais, como fazem frequentemente desde então, me impediam de apreciar tais detalhes como mereciam. Não havia cor alguma e as folhas secas preenchiam o chão, que seguia em seu processo de reconstrução. Os olhos castanhos me mostraram cores que eu estava convencida de que não conseguiria ver com mais ninguém. 

Mesmo assim, bastou olhar para uma direção distinta para que o meu castanho se deparasse com o azul daqueles olhos. Tão semelhantes ao céu. O castanho dos meus olhos sempre teve um fraco pela imensidão azul, mas aqueles olhos possuíam uma coloração diferente, instigante. Pela primeira vez em um certo tempo, a estação causava as sensações esperadas. O verão era apenas verão. Aquele olhar prometia mil coisas ao mesmo tempo em que prometia coisa nenhuma. O azul desses olhos fazia parecer que tudo era possível, tudo era aventura. Ia tomando cada vez mais espaço e os meus olhos, encantados pelo novo, apenas seguiam o ditar daquele mar perigoso, mas excitante na mesma medida. O azul desse olhar fazia com que o estrago causado pelo castanho fosse reprimido, escondido, quase ao ponto de não doer mais. No fundo, eu sabia que não podia depender do céu de verão para esquecer do café de outono, mas era inevitável. O brilho do azul trazia tantas possibilidades, que pareciam prestes a formar uma realidade desejada e confortável. Estaria, ali, a segurança que havia perdido meses antes? Estaria confiante e firme outra vez? Errada, novamente. O claro azul do céu muitas vezes não dá nenhum aviso prévio de que se tornará um turbulento e escuro azul, aquele que prenuncia uma intensa tormenta. A clara e tranquila coloração dos seus olhos tornou-se escura, confusa. Grossos pingos de chuva acompanhados de uma forte e destrutiva ventania, uma tempestade daquelas que acaba com tudo o que vê pela frente. Não estava segura, nunca estive. O solo ameaçava ruir outra vez e, como se ouvisse meu tolo pedido de socorro, o olhar castanho retornou com força e pareceu tão convidativo. Poderíamos ter tido tudo, o brilho em nossos olhares poderia continuar com aquela linguagem secreta para sempre. A nossa música poderia ficar marcada na história… Não! As lembranças da primavera gritavam. Aqueles olhos nunca iriam desistir? A música já havia sido esquecida por mim, não havia e nem deveria haver volta. E mesmo que o castanho daqueles olhos quisesse clamar os meus como sua propriedade, aproveitando-se um pouco mais da dependência emocional que causou, o devastador azul do céu já havia conquistado um lugar irreversível. 

Mesmo que o castanho de meus olhos tenha aguentado a incerteza trazida por essa tempestade e continuasse a desejar mais do que nunca admirar aquela imensidão azul, o dano já estava feito. Aquele olhar possuía outro foco. Ora claro e tranquilo como o céu, ora tumultuoso e agitado como o mar. A segurança da qual precisava não estava ali. Não esteve na firmeza da profundidade castanha, nem na bebida quente que fez questão de esfriar. E também não estava nem estaria ali no olhar azul. Foram inseguranças demais para o castanho dos meus olhos, já cansados das lágrimas causadas por aqueles que nunca as mereceram. Nem a terra, nem o mar. Nem o café amargo, nem o céu impetuoso. Nem a música que nunca mais voltará a tocar. O castanho desses olhos já não busca incansavelmente pe la coloração de outros olhos. A segurança e a tranquilidade estão aqui. Basta que o brilho do castanho desses meus curiosos e turbulentos olhos (re)encontre o seu caminho.


por Ritchely Ávila da Rosa, acadêmica do VI nível de Letras

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