Quem nunca evitou pronunciar uma palavra por conta daquilo que representa, que atire a primeira pedra. Sendo a língua algo que constitui quem os sujeitos são ou deixam de ser, é natural que todos tenham uma relação bastante íntima com ela, certo? Bem, não exatamente. Sabe-se que cada pessoa emprega particularidades em sua forma de expressar-se, porque as pessoas são singulares: os signos que causam sentimento de bem-estar em uma pessoa, não são os mesmos que realizam igual feito em outra; devido a isso, a língua só se faz completa com a união de todos os falantes (SAUSSURE, 2003). Pensando assim, é inconcebível que se reduza a língua a um simplório instrumento de comunicação, quando ela consiste em algo tão vasto e surpreendente.
Em primeiro lugar, faz-se interessante discorrer sobre a relação do homem com a língua. É intrigante saber que a grande maioria das pessoas não percebe que ela está ali desde sempre, desde quando se estava no ventre materno. A língua e a linguagem são inerentes à vida humana, porque fora do útero, os pais e a família utilizam a língua e, até, dirigem a palavra ao feto. O indivíduo familiariza-se com essa riqueza de que é constituído antes de inspirar os ares da atmosfera terrestre. Todavia, eventualmente as pessoas sentem-se curiosas acerca de algum fato linguístico, e engana-se quem pensa que é necessário ser um estudioso da área para fazê-lo: um “leigo” pode muito bem se deparar com determinada palavra, repeti-la dezenas de vezes e deduzir que ela não faz sentido algum; mas são poucos os que imaginam haver por trás disso muito a ser desvendado, que há uma boa explicação. Ocorre que nesse gesto reside a arbitrariedade do signo linguístico, ou seja, não há motivo para que aquele felino de peculiar personalidade (significado) seja representado pela palavra gato (significante); logo, faz total sentido essa estranheza gerada quando se repete uma palavra muitas vezes.
Em segundo lugar, mesmo que as pessoas tenham uma relação distante com a língua, mesmo que não percebam que é a partir dela que sua essência é feita, é inegável que elas se importam demasiadamente com o significado de certos signos (e é uma pena que não passe de algo superficial). Isso evidencia-se quando alguém evita pronunciar certa palavra, porque crê que esse ato tem o poder de evocar aquilo que representa; ou quando certa palavra é dita e determinado ouvinte perde-se em devaneios, recordando de excelsos momentos. Obviamente, cada qual emprega significância aos signos à sua maneira, de acordo com suas vivências. Nesse viés, muitas pessoas possuem o hábito de bater três vezes em um objeto de madeira quando alguém pronuncia alguma fala pessimista, isso porque creem fortemente no poder das palavras, da língua. Assim, esse sistema de signos, que tal como uma máquina, que sem uma de suas peças não funciona, também não funciona quando falta um signo – e vice-versa, porque um signo isolado também não possui utilidade –, se faz onipresente do início ao fim da vida dos indivíduos, mesmo que muitos não reflitam a não ser de modo raso acerca dele – do sistema.
Outrossim, é conveniente mencionar algo que contribui para que o enfoque direcionado à linguagem seja mínimo. Sabe-se que as nações, a cada dia que se passa, visam cada vez mais lucro e veem a educação como um meio. Os alunos têm tido acesso a um ensino que vem se tornando técnico, que os transforma em adultos autômatos, em peças geradoras de lucro; peças essas que são substituíveis e fazem parte de uma engrenagem incapaz de ser compreendida. Ademais, o Novo Ensino Médio, implantado recentemente no Brasil, é um exemplo de que as humanidades estão sendo substituídas por conhecimento técnico. O conhecimento da área de humanas não garante riqueza financeira à nação (embora assegure, dentre outras muitas riquezas: a criatividade, a criticidade e o pensamento livre), mas é imprescindível para que a democracia não venha a sucumbir, pois ninguém gostaria de viver em uma sociedade próspera que não fosse democrática (NUSSBAUM, 2015). Embora pareça, o assunto inicial não foi abandonado, pois os estudantes estão aprendendo o básico sobre o mundo da língua e é de se crer que isso seja responsável pelo abismo entre o indivíduo e os fenômenos linguísticos. Não é exagero falar desse modo, porque até mesmo aquela criança, que no auge de seus 4 anos, amava formar palavras com letrinhas coloridas de EVA no chão da sala junto a seu pai, e que cobria todos os papéis com palavrinhas que aprendia a escrever, ao ser apresentada a novas lentes para enxergar a língua e a linguagem, já no ensino superior, se deu por conta de que a escola interrompeu seu encanto por aquele universo das letrinhas – embora ela nunca tenha deixado de gostar muitíssimo da área de linguagens – e a tornou um tanto técnica também.
Logo, com base nos argumentos acima expostos, é conveniente concluir reiterando ser lastimável que não se ensine nas escolas a perceber como é vasto o universo da língua; que linguagem não é apenas passar para o caderno de modo automático uma sequência de palavras, ou exercer o analfabetismo funcional. Seria extraordinário se fosse ensinado que a língua é algo fascinante, que ela contribui para os indivíduos possuírem maior controle sobre sua subjetividade e, ainda, que ela é um modo de expressar essa subjetividade. Se a partir de 10 números, infinitos numerais são formados, se flagrar pensando que as 26 letras do alfabeto compõem todas as palavras e discursos proferidos em língua portuguesa é motivo para, no mínimo, ficar sem chão. Linguagem é salvação: quem dialoga e cultiva uma relação próxima com ela e consegue extrair dela uma ínfima quantidade de benefício possui um enorme diferencial: é capaz de enxergar beleza e poesia na flor campestre em meio à relva. Afinal, quem possui uma relação estreita com a língua e com a linguagem enxerga o mundo com os apurados e sublimes olhos do espírito e expressa-o com igual apuro e sublimidade.
REFERÊNCIAS
NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2015.
SAUSSURE, Ferdinand de; BALLY, Charles; SECHEHAYE, Albert; RIEDLINGER, Albert
(Colab.) Curso de linguística geral. São Paulo, Cultrix, 2003.
por Cyntia de Miranda Paludo, Letras-Português e Inglês, nível II.