No artigo de José Luiz Fiorin “A Linguagem Humana: do Mito à Ciência”, o autor define “linguagem” como capacidade específica da espécie humana de se comunicar (FIORIN, 2018). Tal capacidade só é possível graças, entre outros fatores, à memória e à capacidade de imaginação. Dessa maneira, podemos criar conceitos que organizam nosso mundo de uma forma que possamos compreendê-lo. Nesse meio de imaginação e criação surgem as histórias, os fatos, os discursos culminando em uma cultura. Utilizando-se do conceito de “identidade humana” apresentado no artigo de Edgar Morin “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” (1999), podemos construir um pensamento a respeito de como as histórias moldam o ser humano, a sociedade e as relações entre os indivíduos, tanto no âmbito individual quanto coletivo.
Ao analisarmos nossa vida regressa encontraremos inúmeras histórias, histórias ao nosso ver superficial óbvias e não merecedoras de menção. Colocar o dedo na tomada pode te dar um choque, por exemplo. O que vemos como uma informação óbvia fora antes, quem sabe, a razão da morte de várias pessoas que colocavam o dedo na tomada e eram eletrocutadas. Também as histórias são fundamentais para a compreensão da realidade, não apenas porque uma vez Joãozinho pôs o dedo na tomada e morreu, mas para explicar, por exemplo, os fatos do clima. Voltando à Grécia, quando as estações do ano não tinham um motivo comprovado cientificamente para acontecerem, os gregos colocavam Perséfone no inferno! Perséfone é a deusa grega da agricultura e da vegetação, no conhecido “mito de Perséfone” a deusa foi submetida a passar uma temporada no submundo para ficar junto do marido. Dessa forma, quando a deusa estava com sua mãe, Deméter, deusa da fertilidade, os campos ficavam férteis e as temperaturas subiam. Quando ficava junto do marido no submundo, a mãe entristecia e as temperaturas caíam, a terra ficava infértil. A explicação grega para as estações do ano é nada mais nada menos que uma história em perspectiva. Agora sabemos que a terra gira em torno do sol e que há uma inclinação expondo-a mais ao calor do sol durante uma temporada e outra menos. Assim como as histórias são capazes de explicar o mundo e de certa forma fixar os fatos em nossa mente construindo um conhecimento coletivo, elas são capazes de moldar a identidade humana. Quando lemos um livro é quase impossível não agregar o conhecimento contido nele. No livro de Michele Petit “Leituras” ela relata que após a publicação de suas palestras alguns leitores lhe enviavam cartas agradecendo e contando o quanto ler o que ela dizia impactou e mudou a sua forma de pensar (PETIT, 2013.). Não há ser humano sem histórias, elas constituem o ser, as experiências relatadas criam uma imagem para si e para os outros.
Porém nem sempre isso é positivo. O vídeo “Chimamanda Adichie – Os perigos de uma história única” deixa claro que as histórias podem, sim, prejudicar um indivíduo. Adichie relata que quando era criança ela lia apenas livros estrangeiros e que só conseguia escrever histórias sobre estrangeiros a partir dos contextos que havia lido. Da mesma forma, acabamos construindo em nós visões totalmente desproporcionais, tendemos a permitir que aquela história única dite nosso lugar no mundo. Aí temos a importância da pluralidade de histórias. (ADICHIE, 2012)
Se uma história cria uma identidade humana, nada mais justo que, assim como existem inúmeros indivíduos, haja inúmeras histórias. Porém o que seria uma realidade maravilhosa acabou se tornando um ambiente tóxico. Por causa das inúmeras histórias de apenas um ponto de vista, visões distorcidas de mundo a respeito de certos grupos acabam se sobressaindo. Grande parte desses discursos decorrem da grande influência que os países mais desenvolvidos, sobretudo os EUA, têm sobre os países menos desenvolvidos. Acabamos comprando as narrativas deles e demonizando o outro lado da história. Este é um ponto comentado por Adichie, toda a história tem um ponto de vista.
A consolidação de um ponto de vista como “verdadeiro” – e como a única verdade – tende a ser nocivo à sociedade no geral. Seja ela quando generalizamos a Al-Qeada, responsável por atentados terroristas à toda uma população islâmica que não se resume só a isso ou quando marginalizamos os bairros carentes de nossa cidade resumindo todas as pessoas a uma história de luta. Além de nocivo, a história única pode limitar a visão de mundo, pois, citando novamente Adichie (2012), jamais conheceremos o diferente se não buscarmos mais de um ponto de vista.
O fato é que não basta apenas termos histórias apenas por diversão, temos que ter histórias para nos identificarmos, afinal como afirma Edgar Morin (1999), a identidade humana se constrói também a partir da poesia e da literatura. A poesia ensina sobre os sentimentos e sobre a beleza da vida, enquanto a literatura é uma forma de passarmos nossas experiências – e nossas histórias – de forma lúdica para as demais gerações e para os nossos conterrâneos, assim como é uma ferramenta de disseminação de cultura. O que melhor espalharia um conhecimento às massas: um tratado filosófico ou um conto bem elaborado? Pascal disse já no século XVIII “Não se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes”, assim, não podemos de forma alguma focar em uma versão única da história, devemos ser insidiosos e ir atrás dos diversos pontos de vista, conhecer os assuntos para evitar os preconceitos e a generalização de um fato, afinal cada indivíduo é uma parte de uma sociedade. No fim, conhecendo os pontos de vista, estudando mais a fundo, acabamos não mandando Perséfone para o inferno.
REFERÊNCIAS
DRINKS!!!, Dicas e. Chimamanda Adichie – Os perigos de uma história única. LEGENDADO. Youtube, 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZUtLR1ZWtEY. Acesso em: 05 dez. 2022.
FIORIN, José Luiz. Linguística? Que é isso? São Paulo: Contexto, 2018.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. UNESCO, 1999.
PERSÉFONE. História do Mundo. Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/grega/persefone.htm. Acesso em 05 dez. 2022.
PETIT, Michéle. Leituras: Do Espaço íntimo ao Espaço Público. São Paulo: Editora 34, 2013.
por Samuel Martins, Letras – Português e Inglês, Nível II.