A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é o documento oficial mais recente que versa sobre a Educação Brasileira. De caráter normativo, ela define as aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas ao longo das etapas da Educação Básica. Por possuir caráter normativo, esse documento deve ser seguido em âmbito Federal, Estadual e Municipal, em rede pública e privada.
Embora a BNCC tenha sido homologada em 2018, ainda são muitos os questionamentos a respeito dela. E sobre o ensino de Língua Portuguesa, o que mudou? O que precisamos fazer diferente? Qual é a perspectiva de ensino que deve ser abordada em sala de aula?
Primeiramente, precisamos considerar que o ensino deve ser progressivo, ou seja, as aprendizagens vão ocorrendo gradativamente e não devem ser pensadas como algo engessado “este conteúdo é neste ano e, aquele, no próximo” – tanto que não encontramos uma lista de conteúdos a ser atingido em cada etapa escolar, mas Objetos de Conhecimentos seguidos pelas Habilidades, que são um indicativo sobre o que e como explorar tais Objetos de Conhecimento. Logo, as habilidades orientam o professor de modo a desenvolver as competências previstas.
Convém destacar que, mesmo que as habilidades venham apresentadas no documento de forma sequencial, elas não necessitam ser trabalhadas em sala de aula em ordem cronológica, mas sim de acordo com os avanços de aprendizagem dos alunos. Desse modo, a BNCC deixa o professor livre para trabalhar a Habilidade e o Objeto de Conhecimento que melhor se adequar à sua turma em determinada situação.
O ensino de Língua Portuguesa segue pautado nos gêneros discursivos com vistas ao desenvolvimento de habilidades e competências de uso da língua, importam as competências discursivas, ou seja, o saber-fazer uso das linguagens, – implicadas também as diferentes semioses – nas diferentes situações de comunicação/interação social. O documento faz várias menções à importância do trabalho com textos multissemióticos, inclusive ampliando o conceito de leitura de modo a contemplar as outras linguagens. Isso aponta o quão importante é trabalhar com textos que unem as linguagens verbais e não verbais, ajudando o aluno a perceber que a união de linguagens cria diferentes efeitos de sentidos, pois é através desse olhar que o aluno se tornará um leitor mais competente para as práticas sociais.
Conforme a BNCC, o ensino da gramática deve ser abordado com vistas a aprimorar a relação práticas sociais e linguagem, enfocando a utilização social da língua, sendo que “assume-se na BNCC de Língua Portuguesa, uma perspectiva de progressão de conhecimentos que vai das regularidades às irregularidades e dos usos mais frequentes e simples aos menos habituais e mais complexos” (BRASIL, 2018, p. 139).
A BNCC destaca ainda a necessidade de trabalhar com tecnologia, multiplicidade semiótica e multiplicidade cultural para que o aluno atinja as competências gerais e específicas de cada componente curricular ao longo da Educação Básica. Assim, compreende-se que a perspectiva de ensino de Língua Portuguesa inscrita no documento se volta para o uso competente da língua/linguagens nas práticas sociais.
As competências específicas de Língua Portuguesa enfocam a competência discursiva nas diferentes situações de interação. O componente curricular postula os gêneros textuais como base para o trabalho em sala de aula, sendo que as atividades devem levar em conta as práticas de linguagem e os eixos integradores: leitura, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica. Importa que o aluno saiba utilizar a língua e suas estruturas para melhor agir no/sobre o mundo.
A necessidade de mudança no modo de trabalhar com Língua Portuguesa em sala de aula está imbricada no documento, mas não há na BNCC um roteiro que ensine como abordar os Objetos de Conhecimento com vistas ao desenvolvimento das habilidades e competências propostas. Isso pode ser uma das dificuldades de implementação do documento. Por outro lado, um olhar para as competências e habilidades permite compreender o que a BNCC destaca como prioridade no ensino de língua, dando liberdade ao professor para desenvolver suas próprias propostas e conduzir sua aula de maneira a atender as necessidades do seu alunado e, ao mesmo tempo, às determinações do documento.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a base. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 27 jul. 2021.
por Josiane Boff, doutoranda em Letras (UPF)