Um olhar sobre o ensino noturno

O movimento mais natural quando nos deparamos com um problema é a busca de sua solução. Certamente a magnitude de tal situação implicará nos métodos e considerações na procura de sua elucidação. Há considerável tempo existe uma atenção sobre aqueles que (pelos mais variados motivos) não puderam acompanhar e/ou estarem presentes no modo “tradicional” de ensino, basicamente, na escola diurna. Esses indivíduos carregam consigo uma vasta possibilidade de impedimentos para desfrutar de tal direito que é a educação no período entendido como adequado, mas é injusto decretar ou aceitar que não se pudera haver outra chance ou forma de acesso ao ensino e aprendizagem.

Uma solução para tal dilema foi encontrada na estruturação de uma escola noturna, afinal, agora os interessados teriam acesso e oportunidade de continuar sua caminhada educacional em um período entendido como “livre”. Essa noção se estabelece há longa data, baseando-se em registros de meados dos anos de 1869 – 1886, em que o ensino noturno era tido como uma forma de combate ao analfabetismo, principalmente para pessoas em idade adulta (PRIMITIVO, 1936).

Porém, garantir o acesso não basta como solução. A ideia simplória de alunos buscando uma sala de aula em outro período do dia não é o suficiente para garantir a qualidade de ensino que se dá nos períodos diurnos. Nesse ponto, se inicia uma das problemáticas que a suposta solução ajudou a edificar. A visão social de que o período da noite para a aprendizagem seria apenas para oferecer uma noção básica de escolaridade, para uma melhora na interação comunitária dos necessitados desse recurso, é apenas o primeiro ponto do montante que se estabeleceu como tabu.

Com o desenrolar e a atualização do funcionamento social, o leque de indivíduos se abriu para novas camadas, abrangendo e popularizando a opção do ensino noturno também para jovens que necessitavam das horas do dia para utilizar como período de trabalho. Dessa forma, a busca por essa modalidade de educação cresceu consideravelmente, embora sua qualidade não tenha acompanhado esse crescimento. Até esse ponto, já é possível considerar e apontar muitos aspectos que tornam o ensino noturno como um aspecto inferior ou pouco assistido em comparação com a modalidade diurna, porém, para um melhor entendimento sobre tal situação alguns enfoques são de extrema importância.

Ao começar a observação no âmbito dos alunos, é de suma relevância levar em consideração quem são esses estudantes que vêem no ensino noturno uma possibilidade de continuidade em sua educação e, por que não, uma chance de melhora em suas condições – sociais, financeiras e culturais. O entendimento de haver dentro da sala de aula um jovem-trabalhador é primordial para então atentar para quais são suas reais intenções com essa modalidade de ensino. Não se pode desconsiderar que tal aluno já adentra a escola com uma bagagem diferenciada daqueles que detêm a possibilidade de dedicar-se com exclusividade aos estudos, inclusive, tais experiências já vivenciadas por esse estudante lhe atribuem uma diferente visão de necessidades e desejos, por estarem em contato com outras formas de socialização, além de outras obrigações.  Esse jovem ou adulto espera encontrar na sala de aula um prazer enquanto aprende, é de seu desejo entender que a busca pelo conhecimento através do ensino irá lhe proporcionar evoluções que serão atribuídas na sua rotina e em seu futuro.

Para que não se dissipe no estudante essa concepção de oportunidade para evolução, é preciso que haja a compreensão de que sentado na sala de aula se encontra alguém que muito provavelmente vem de uma jornada de trabalho de oito horas ou mais, ou seja, trata-se de um aluno cansado. Tal fadiga será intensificada se os conteúdos tratados em sala não forem apresentados de uma forma que prenda a atenção desse indivíduo, afinal, grande parte de sua energia foi demandada durante seu turno de trabalho, fazendo com que outra atividade que possa ser vista como maçante acabe por afugentar esse sujeito da sala de aula e da escola. Afinal, não se pode desconsiderar que esses alunos já assimilam outras formas de aprender e de saber como suficientes para uma sobrevivência, por isso, a busca desses indivíduos se baseia para além dos conteúdos, apurando as competências que as disciplinas são capazes de despertar.

Em contrapartida, também devemos considerar que o professor que está incumbido da tarefa de ministrar esse compartilhamento de saberes, muitas vezes está em seu terceiro turno de atividades. Além do cansaço que também abate o educador, existe o desafio de compartilhar com as turmas conteúdos que, normalmente, não se fazem presentes no cotidiano do educando. Em pesquisas voltadas para essa modalidade de ensino, foi notado que a maioria dos alunos apresentam dificuldade e desinteresse acima do normal para matérias como matemática, física, química e afins, justamente por acreditarem que esses tipos de conteúdo não estarão presentes em suas rotinas, ou ainda que não irão atribuir benefícios no desenvolvimento de suas obrigações diárias e rotineiras. 

Sendo assim, o papel do professor nesses casos ou nesse parâmetro de ensino noturno é de peso ainda maior no âmbito social, afinal, os estudantes podem vir a considerar e assimilar a forma como o educador trata sua turma e seus conteúdos como padrão para também suas ações, numa tentativa de alívio ou realocação de suas responsabilidades. O desafio para o mestre que assumirá esse grupo de jovens e adultos que buscam pelo saber se torna ainda maior ao relembrarmos da pluralidade que esses estudantes já constituem, principalmente ao sabermos que a educação no turno da noite não possui uma identidade própria, se resumindo em uma cópia do ensino diurno. Tal ponto conta como negativo para ambos os lados (aluno – professor), pois deixa de explorar as potencialidades que estão presentes naquele recinto.

Complementando os desafios para essa forma de ensino, as estruturas também se fazem precárias em sua grande maioria. Seja no quesito estrutural do âmbito escolar, desde a forma como as classes são dispostas, até a falta de recurso para utilização de outras ferramentas possíveis no método de ensino e aprendizagem, passando pela falta de materiais diversificados de que o educador dispõe para engajar a turma, até as dificuldades que os próprios alunos possuem, ao se levar em consideração que a grande maioria provém de classes sociais menos favorecidas. Esse quesito é um fator saliente no que difere o ensino entre diurno e noturno, acarretando ao ensino no período da noite o espaço mais precário no seu todo.

Vistos tais apontamentos, é compreensível que mais de um contexto precisa de uma atenção especial para que seja desmistificado o preconceito sobre o ensino noturno, uma vez que, quem se predispõe a frequentar essa modalidade se submete a um número maior de desatenções e desafios, na busca de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e posterior social, além de reivindicação de um direito – o acesso à educação. Nessa luta, alguns pontos podem ser trabalhados, buscando dividir o peso de forma a não sobrecarregar, ainda mais, uma das esferas envolvidas. 

Os estágios de licenciatura que são de teor obrigatório nas faculdades podem estudar e voltar o seu olhar também para esse período, uma vez que possuir um estagiário dentro da sala de aula em tal momento pode servir de exemplo para aqueles alunos que ainda não vislumbram um próximo passo no quesito da educação. Enxergar outro estudante, também batalhando pelo seu propósito, agora em nível universitário, poderá fortalecer o intuito daquele que está do outro lado da classe, acendendo um sonho na cabeça desse estudante que ainda frequenta as modalidades básicas. A presença de alguém que até pouco tempo esteve no mesmo período educacional que esses estudantes poderá servir como inspiração. Pesquisas desses acadêmicos universitários também são importantes para que se possa compreender melhor quais pontos são mais urgentes de atenção, para que o trabalho de melhora sobre esse nível de educação possa ser iniciado. Ao mesmo tempo, um trabalho em conjunto dos professores pode auxiliar na melhora do interesse dos alunos nos conteúdos, uma vez que haja uma interdisciplinaridade com a intenção de revelar a presença dos conteúdos nas mais variadas formas de exposição e presença no decorrer do dia a dia de qualquer pessoa. Buscar conhecer um pouco de cada ocupante das carteiras poderá ser um facilitador dos meios de exemplificação dos conteúdos, uma vez que os assuntos pertinentes à realidade daqueles que compõem a sala de aula em questão podem estar em pauta e inseridos nos tópicos estudados.

Se hoje temos a concepção de que muitos cursos superiores são ministrados no período da noite e não duvidamos de sua excelência, por que não poderia também ser levada tal concepção para o ensino dos anos fundamentais e médio nesse mesmo período? Foram sim expostas particularidades que dificultam a otimização desse momento do dia dedicado ao estudo, mas ao mesmo tempo iniciativas que buscam um avanço na qualidade desse turno estiveram presentes como respostas para as adversidades que são tão atuais. É preciso primeiro questionar para logo interromper (e até erradicar) a negligência que ocorre hoje com a necessidade, o desejo e o direito desses estudantes que encontram no período da noite a sua única alternativa de evolução. 


João Paulo Sauzen, Letras – UPF

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