Ao nos depararmos com o Curso de Linguística Geral (CLG), de Ferdinand de Saussure, somos quase que transportados para sua sala de aula ao ler o seu material. Como Saussure nos alerta, a Linguística é uma ciência difícil, pois seu objeto de estudo não é dado previamente, por isso, podemos recorrer à Literatura como forma de facilitar a compreensão do que lemos no CLG. Utilizando o tópico “Compreensão Humana”, no qual a literatura se apresenta como “manual de sobrevivência” e substituto de experiência (MORIM,1999), buscamos neste ensaio compreender como funciona o mecanismo da língua e onde a articulação da língua e as relações sintagmáticas e associativas se mesclam ao castelo de Hogwarts, um mundo de magia formado através de algo complicado que se pretende simples, a língua.
Como prólogo do nosso ensaio, destacaremos este trecho de Harry Potter e a Pedra Filosofal, no qual J.K. Rowling (2020, p. 99) descreve o castelo “Havia cento e quarenta e duas escadas em Hogwarts: largas e imponentes, estreitas e precárias; umas que levavam a um lugar diferente às sextas-feiras; outras com um degrau no meio que desaparecia e a pessoa tinha que se lembrar de saltar por cima.”
Iniciaremos nossa analogia, então, ao construir a escada degrau por degrau. Os degraus desta escada são compostos pelas estruturas mínimas do sistema, os fonemas, cada degrau possui dois ou mais, sendo assim, nossos degraus são os morfemas. O morfema é a união de fonemas que tomam sentido (Lopes, 1999), assim o primeiro lance de escadas é uma palavra. Nosso sistema da língua começa a tomar forma, pois não é uma escada qualquer, que é colocada sobre um piso para acessar o segundo nível; nossa escada é como as escadas de Hogwarts, ou seja, elas mudam. Como sabemos que o sistema linguístico é formado por um número limitado de fonemas combinados de forma também limitada, ao invés de criarmos infinitas escadas, criaremos algumas e usando a “magia” do sistema, que nada mais é do que a articulação, construiremos infinitas combinações.
Nosso primeiro lance de degraus está construído, nossa escada será a frase “a menina”. Há um fenômeno que dá sentido às palavras e às frases, sem este fenômeno não conseguiríamos compreender o que está sendo dito; a relação sintagmática nada mais é do que o movimento das escadas. Nossa escada recém-saída de outra qualquer se juntará ao segundo nível, ou a outra escada, a qual é construída por degraus diferentes, o nome dessa escada é “pobre”. Subindo estes dois lances de escada temos uma sentença com sentido “a menina pobre”. Poderia subir mais um lance de degraus, se assim o movimento das escadas permitisse, para formar “a menina pobre padecia”, porém não faremos isso, basta para nós conhecermos a possibilidade de fazê-lo.
O fato é que a relação sintagmática, ou seja, o movimento de nossa escada, permitiu que montássemos uma frase, “a menina pobre”, para, no topo destas escadas, notarmos algo peculiar, fruto da relação sintagmática. Descendo as escadas, há uma mudança drástica na ordem de elementos e a forma como percorremos a escada acaba mudando o sentido. Descendo ao invés de “a menina pobre”, temos “pobre menina”, isto, porque descemos primeiramente pela escada “pobre” passando em sequência pela escada “menina” o que torna a frase diferente, pois uma menina pobre e uma pobre menina são distintas em sentido.
Agora mais uma vez nosso lance de degraus muda numa direção diferente. Subindo por essa escada e ultrapassando pelo segundo lance, obtivemos uma nova sentença, utilizando o mesmo primeiro lance de escadas: “a menina rica”. Porém, com um olhar atento, acabamos notando que esse lance de degraus “rica” se opõe aos degraus “pobre”, assim como Rowling cita as escadas “largas e imponentes”, cita também as escadas “estreitas e precárias”. Ao compararmos as escadas que outrora subimos, com as escadas em que estamos agora, conseguimos fazer uma comparação, uma oposição, algo que tanto falamos nas aulas de Linguística, “um signo é o que o outro não é” (Saussure, 2012). A oposição é tão grande que conseguimos ver as diferenças desta escada que estamos com outras que estão ao nosso redor, vemos escadas com os primeiros degraus exatamente iguais à nossa, é o caso da escada “Ricardo”, quase os mesmos degraus fonêmicos Essas comparações que fazemos, ao observarmos as escadas, são nada mais nada menos que as Relações Associativas que nos permitem guardar nossos degraus e construir escadas novas apenas modificando o seu início ou final.
Munidos de todo esse conhecimento que, na realidade, nenhum falante, ou quem quer que usufrua das escadas, realmente possui, somos capazes de ir a qualquer lugar, e expressar qualquer coisa. Mas calma, meu jovem gafanhoto, assim como o sistema de escadas de Hogwarts possui limitações, nosso sistema também é limitado, afinal, para que um sistema de escadas que apenas uma pessoa usufrui? Assim como construímos nossas escadas para o livre trânsito de pessoas, o sistema linguístico é construído na coletividade, o que, por muitas vezes, acaba por limitá-lo, seja na ordem em que os degraus foram postos, seja no movimento da escada. A influência da coletividade é tanta que além de sermos limitados na consolidação de novas escadas, também há fenômenos que modificam a escada, sem perder o sentido, isto é, Rowling cita que “[há outras escadas] com um degrau no meio que desaparecia e a pessoa tinha que se lembrar de saltar por cima.”. Esse degrau que desaparece sem modificar a escada como um todo, é um fenômeno fonético onde ocultamos um fonema durante a fala, é o caso de “beijo” que facilmente é dito como “bejo”.
O sistema da língua é complexo e para entender seu mecanismo é necessário desempenhar muito esforço nos estudos de Linguística, em ensaios futuros se vê a necessidade de discutir a intrínseco papel do falante neste mecanismo, por hora, apenas apresentaremos esta analogia para que possamos compreender de forma facilitada e lúdica esse mecanismo complexo.
REFERÊNCIAS
LOPES, Edward. Fundamentos da Linguística Contemporânea. 19ª Edição. São Paulo: Editora Cultrix, 1999.
MORIM, Edgar. Os Sete Saberes Necessários À Educação Do Futuro. 1999.
ROWLING, J.K. Harry Potter: e a Pedra Filosofal. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda, 2020.SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 28ª Edição. São Paulo: Editora Cultrix, 2012.
por Samuel Machado Martins