Ensaio: A palatização do lh [λ] diante do i [i]

Com o aprofundamento no estudo da língua, mais precisamente na área de fonética e fonologia, encontram-se certos fenômenos fonológicos que refletem na escrita. A identificação destes fenômenos é fundamental na hora de ensinar uma língua, nesse caso o Português Brasileiro (PB), pois é comum deparar-se com erros gramaticais – consequência da similaridade da pronúncia de um certo fonema – do contexto em que certa palavra é pronunciada ou até mesmo por fatores sociais externos às aulas de língua. Visando focar num determinado fenômeno fonético, este ensaio busca, de forma pretensiosa, elucidar alguns motivos da palatalização do LH [λ] diante do I [l].

“Partiremos do princípio de que a variação linguística é um fenômeno normal” (ILARI; BASSO, p.151), o trecho acima vem do livro O Português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos de Rodolfo Ilari e Renato Basso, e abre portas para esclarecer o princípio mais básico para se estudar um fenômeno fonológico e ou fonético: a ausência de preconceito linguístico. Dito isto, é possível começar a discorrer sobre um dos conceitos existentes na área da fonética e fonologia: os alofones, “[…] um determinado fonema é realizado fisicamente por mais de um fone, de que decorre falar-se em alofones de um só fonema.” (BECHARA, 2019 p.60).

No capítulo Português do Brasil: a variação que vemos e a variação que esquecemos de ver, o leitor é colocado a par de toda a diversidade de dialetos e variações do PB encontradas até o momento. Nesse sentido, os alofones podem representar desafios, pois torna-se difícil diferenciá-los apenas na escuta, como, por exemplo, família, pássaro, companhia. Para trabalhar de maneira mais específica, um alofone que aqui ganha destaque é o dígrafo consonantal /lh/, e o seu som representado por [λ], isto por conta de sua palatalização que transforma sua grafia em palavras como família > famia ou familha, filho > fio ou fílio, melhor > mior/mió.

Em busca de tecer uma explicação, foram observados fatores que contribuíram para tal – “pronúncia do fonema /λ/: Áreas: na região do “dialeto caipira” e em muitas outras, a pronúncia é [j]:“filho” [‘fijo], “milho” [‘mijo]; nessas regiões, uma reação de hipercorreção leva eventualmente a pronunciar desentupidor de pia como desentupidor de pilha. Em outras regiões (parte do Nordeste), a pronúncia é (l); mulher pronunciado [mu’lε]” (IlLARI; BASSO. p.168).

Nota-se que o agente na pesquisa de Ilari e Basso é a região, o que indica que a palatalização do lh possa ser cultural, assim possui uma motivação histórica para ser. Porém, convém destacar que tal fenômeno pode ser consequência de uma característica do signo linguístico, a economia linguística ou variação diacrônica (p.152). A economia linguística é conceituada no website Clube do Português, e este recorre à Marcos Bagno, sugerindo o porquê de várias palavras em que há alofones mais difíceis de se identificar acabarem sofrendo este fenômeno “[…] poupar a memória, o processamento mental e a realização física da língua, eliminando os aspectos redundantes e as articulações mais exigentes […]” (Clube do Português, 2021).

Ao analisar os materiais de Ilari, Basso e Bagno através do website, pode-se desenhar uma explicação a ser discutida em ensaios posteriores, a palatalização do /lh/ percorre o caminho da economia linguística e da sociolinguística, afinal há uma maior complexidade na pronunciação de [λ] que indivíduos iniciantes no PB formal se deparam. Também, é importante ressaltar que há, sim, uma influência do meio social, tendo em vista que esta ocorrência é acentuada nas regiões de “dialeto caipira”. Porém, com a intervenção da internet agravada pelo fator da globalização, alguns falantes de regiões distintas acabam por adotá-la em seu vocabulário, enquanto outros a excluem.


REFERÊNCIAS:
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 39a edição. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2019.
ECONOMIA LINGUÍSTICA – O QUE É ISSO? Clube do Português. Disponível em:
https://www.clubedoportugues.com.br/tag/reducao/#google_vignette
ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. Português do Brasil: a variação que vemos e a
variação que esquecemos de ver.


por Samuel Machado Martins e Isabela Morette

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