Chove em New York, é inverno e o barulho da chuva não me incomoda. É bom para escrever, ler, pensar, rever e deixar “a cabeça” na história que podia ter acontecido, talvez. É dia 8 de dezembro deste ano de 2030, um domingo qualquer para a maioria das pessoas. Não para mim. Faz hoje 50 anos que cometi o maior crime de muitas vidas. Foram 4 tiros em frente ao Dakota. Os olhares dela e do menino estão ainda a me espreitar por dentro, mais para mim e menos para eles, são mais fortes e edificados.
Vou deixar aqui neste diário algo que tenho e que terão, talvez.
Antes daquele momento, aproximei-me de John. Pedi-lhe um autógrafo. Não tinha comigo papel, somente uma caneta que lhe emprestei. Ele pegou do bolso traseiro de sua calça jeans um que estava dobrado. Estava com pressa, mais do que eu, talvez. Escreveu meu nome com letra tremida e soletrando: “M a r k”. Entregou-me a caneta e o papel.
E aconteceu. Faz 50 anos. O meio século traz lembranças e necessidades.
Vão encontrar junto aqui o que vou dizer aqui e vai ficar aqui, talvez.
O papel estava dobrado. Guardei depressa no bolso de minha camisa. Como era papel, só, fiquei com ele e depois vi o que tinha: “o último autógrafo de John”, dizem. “Vale uma fortuna”, afirmam. Mas atrás tem mais. Era uma carta de fã brasileiro, escrita em Português e datada de 1971. Quem escreveu disse ter 8 anos e que era de uma cidade no interior do Rio Grande do Sul. Imaginem, a carta estava com ele. Como, por quê, que importância tinha. Tinha, tem, terá, talvez.
Entre muitas letras em caligrafia feia, escrita à caneta de ponta grossa, desejos para um mundo bom. Queria que John lesse porque achava que entenderia. “Sabe John, converse com meus pensamentos. Imagine que não há países, não tem fronteiras no mundo, imagine não ter paraíso, isso não é difícil de fazer, é fácil se você tentar, John, um sonho que pode ser realidade. Sim, nenhum inferno abaixo de nós e acima apenas o céu. É John, imagine todas as pessoas nele vivendo o presente, sem passado nem futuro, nada para matar ou morrer, talvez nenhuma religião também. Então, John, imagine todas as pessoas, e todas vivendo em paz, sim, imagine não existir países, vamos, não é difícil. Yes, e nenhuma religião também. Como se diz aqui, ‘tamu junto!’. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Tá, você pode dizer que sou um sonhador, mas te digo que não sou o único, você está comigo John, e tenho esperança de que um dia você se unirá a nós, e o mundo será um só. Nossa! Imagine John não existir propriedades. É, me pergunto se você consegue. Espero que um dia você se junte a nós. John, eu me pergunto se você pode, isso porque não há necessidade de ganância ou fome, seremos uma fraternidade do homem, imagine, John, todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro. Isso! Hoje é dia 11 de fevereiro e tenho 8 anos; neste ano de 1971, em 9 de outubro, vai completar 31 anos. Vai entender, John. O mundo que queremos é nosso desejo, tão igual quanto o som de nossos primeiros nomes: /J/ e /G/. Tá, parecidos, então. Abraço John”.
Não sei o que John leu, se leu, se entendeu, se traduziu, se respondeu. Em algumas frases tem escrito em cima com lápis e letra de John: Imagina não existir paraíso (Imagine there’s no heaven).
Bom, 10 de maio completei 75 anos. Faz 50 que estou aqui e 50 que fiz aquilo. Nunca falei para ninguém da carta com o autógrafo na frente, mas seria interessante para quem escreveu, para a humanidade, com mudanças pelos fatos, talvez.
John e um outro: imaginem.
Vou reler amanhã o Apanhador no campo de centeio e parar de escrever por hoje. E parar também de olhar esta carta e recolocar entre as últimas páginas deste diário. E deixar que termine mais este domingo, com chuva, frio lá fora, aqui dentro e dentro de mim.

por Gilmar