O estudo da narrativa da criança durante a pandemia

Trabalhos importantes foram realizados a partir da pandemia de 2020 nos mais diversos campos de pesquisa. Nas ciências da linguagem, a pesquisa da professora Marlete Diedrich, do Curso de Letras da UPF e pesquisadora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da universidade, chamou atenção da comunidade de Passo Fundo no último semestre.

Marlete se interessou pela produção narrativa de crianças e como as vivências durante a pandemia influenciam na produção das crianças. Afinal, se uma história é contada apenas a partir das vivências de quem narra, o que acontece quando as interações desse narrador com o mundo são intermediadas por pumps de álcool em gel, cumprimentos com o cotovelo e de rostos de boca coberta que sorriem apenas com os olhos?

Nessa brevíssima entrevista, Marlete nos fala um pouco sobre seu projeto. O catálogo da exposição pode ser encontrado para download clicando AQUI.

GUILHERME (Letrilhando) – A exposição nasceu a partir de um projeto de pesquisa contemplado com auxílio da FAPERGS. Como surgiu a ideia para o desenvolvimento deste estudo?

MARLETE – A ideia surgiu de duas questões: o gosto que sempre tive por exposições, principalmente as promovidas pelo Itaú Cultural, com materiais educativos de apoio; e a constatação da necessidade de darmos mais visibilidade às nossas pesquisas acadêmicas na comunidade, com o uso de linguagens mais acessíveis e interessantes ao público em geral.

G. – Quais os principais resultados observados e como eles podem impactar na área de aquisição da linguagem?

M. – Os resultados vão em duas direções:

  1. A Exposição de fato dialogou bem com o público em geral, atraiu a atenção da comunidade para a pesquisa científica.
  2. A pesquisa realizada contribuiu para a abordagem aquisicional enunciativa, uma vez que se trata de um tema relativamente novo neste universo – a narrativa –  e envolve a produção da criança num período muito singular – a pandemia de Covid-19; logo, tem potencial para elucidar aspectos importantes na aquisição da linguagem, como a relação entre ouvir e contar histórias; realidade e imaginação; arranjos linguísticos mobilizados na contação de histórias, a relação de ressignificação de realidades pela criança,…

G. – Qual a relação do estudo com o processo de ensino e aprendizagem de língua?

M. – O tema da pesquisa não trata de ensino e aprendizagem, mas de um trabalho de caráter descritivo da aquisição da língua pela criança de 3 a 6 anos idade: o ato enunciativo de narrar. No entanto, a experiência da Exposição acabou por assumir um caráter mais voltado para a educação, uma vez que, nas diversas edições já realizadas, recebemos a visita de escolas, crianças e adolescentes, e preparamos atividades envolvendo arranjos linguísticos como forma de tornar o trabalho mais interativo.

G. – Como foi a recepção da exposição pelo público que a contemplou?

M. – Muito positiva, com ampla visitação, interação de qualidade e novos convites para outras edições.

G. – Por ter envolvido acadêmicos da graduação e da pós-graduação, como você avalia esse intercâmbio na vida acadêmica e profissional dos participantes envolvidos?

M. – A experiência de troca foi muito importante: envolveu muitos bolsistas de iniciação científica, mestrandos e doutorandos, os quais puderam vivenciar na prática a democratização do acesso à ciência e a relação com as outras áreas, como Design Gráfico, Artes, Expografia.

G. – As atividades do projeto se encerram após a exposição ou novas etapas e corpora serão considerados aos estudos do grupo?

M. – O projeto tem continuidade até julho de 2023, estamos na fase de análise dos dados e publicação dos resultados em periódicos, além de estarmos organizando a publicação de um livro.

Muito obrigado, Marlete, pelas palavras.


por Guilherme Alexandre da Silva, Mestrando em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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