A educação, aos olhos de quem trabalha incessantemente por ela e pelo seu avanço, parece estar cada dia recebendo menos prestígio e valorização perante toda a sociedade. Contudo, um pequeno lampejo de esperança parece surgir no horizonte à medida que um novo programa é criado em nível de estado e parece permitir que novos ares sejam respirados por um sistema educacional já fragilizado e em visível colapso: o programa Professor do Amanhã.
O projeto é operacionalizado e executado pela Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (SICT-RS) e nasce a partir de uma proposta do governo gaúcho, neste ano de 2024, com adesão via edital pela Universidade de Passo Fundo e outras Instituições Comunitárias de Ensino Superior (ICES) do Rio Grande do Sul, com a oferta de até mil bolsas de estudo em todo o estado para acadêmicos de licenciaturas. Na UPF, foram oferecidas cem vagas, neste ano, em diferentes cursos, e o impacto é perceptível pelo corpo acadêmico: sala de aula cheia e pluralidade étnica estão em voga.
Em 2023, o Observatório Sesi da Educação divulgou os resultados de sua pesquisa intitulada “Apagão de professores? Uma análise dos impactos da oferta de professores no RS.” com o objetivo de estimar a demanda futura de professores para a educação básica no estado do Rio Grande do Sul e identificar os fatores que podem impactar a oferta de docentes. O estudo aponta que, em 2040, haverá um déficit de aproximadamente 10 mil professores na educação básica.
Segundo o SESI, o apagão de professores infelizmente é uma realidade e existem possíveis causas para tal movimento: falta de interesse na carreira docente, com redução da oferta de cursos de licenciatura; a chamada “escassez oculta”, quando professores ministram disciplinas que não fazem parte de sua formação; diminuição de jovens entre os novos profissionais das escolas; evasão nos cursos de licenciatura; remuneração salarial baixa.
Diante desse cenário de colapso, o governo gaúcho criou o Professor do Amanhã, que, se tiver prosseguimento em anos vindouros, poderá amenizar esses índices alarmantes. A proposta do Programa é que os acadêmicos admitidos recebam isenção nas taxas do curso e auxílio financeiro de R$ 800,00 durante 48 meses e, em contrapartida, se comprometam a realizar 300 horas de prática de ensino durante o curso e 1920 horas após a conclusão do curso, as quais deverão ser cumpridas em escola pública estadual. A desistência do aluno ao longo do curso ou o não cumprimento das horas acordadas ao final dele implicará ressarcimento de todos os valores pagos ao governo no investimento da licenciatura do acadêmico. Tais normas permitem, então, que pensemos na perspectiva dos alunos que aderiram ao programa: um compromisso firmado para os próximos anos que, em caso de descumprimento, acarretará sérias consequências financeiras.
O alto volume de inscrições para o programa e a alta taxa de matrículas obtidas mostram que há, sim, muitas pessoas que desejam realizar tal formação, mas que carecem de incentivos advindos de políticas públicas para poderem ingressar no universo acadêmico. Há, aqui, uma nova possibilidade de vida, de carreira e realizações profissionais. Ainda, existe a pluralidade étnica construída pelo programa, onde cada ingressante tem uma história única e diferente das demais: há pessoas estrangeiras, de gêneros diversos, algumas já têm formação em outras áreas e percebe-se, ainda, diferentes faixas etárias entre os participantes.
A turma ingressante do curso de Letras, que está com mais de 40 alunos matriculados – sendo aproximadamente 30 oriundos do Professor do Amanhã – é um prelúdio da equidade que o programa é capaz de fomentar. Dos calouros, há alguns que já têm formação superior fora da área docente, vindos de diversas áreas como publicidade e propaganda, psicologia ou administração. Outros já haviam iniciado graduação, mas acabaram não concluindo sua formação. Há pessoas vindas de outros países e um número notável de alunos com idade superior a 30 anos.
Num grupo tão heterogêneo, a nivelação é, sem dúvida, um dos desafios. Porém, há um intercâmbio muito rico de informações e uma união entre colegas e professores dispostos a auxiliar quem está com dificuldade. Para muitos, estar na faculdade se configura como a possibilidade de projetar uma carreira profissional, a grande chance que pode modificar suas vidas. Tal sentimento transforma o ambiente: é inspirador ver um projeto, ainda em fase inicial, vislumbrar este lampejo de esperança na educação.
O Programa, portanto, não apenas agrega novos profissionais ao ensino estadual, mas também proporciona nova proposta de perfil docente. Uma oferta um pouco mais democrática de licenciaturas é o início das ações necessárias para suprir a falta de professores e diminuir a sobrecarga dos que já estão atuando na educação básica. Garantir um ensino de qualidade e equidade é desempenhar um papel substancial no sistema educacional, atendendo a direitos básicos da criança e do adolescente.
O Programa Professor do Amanhã é, então, esse pequeno respiro tão aguardado pelos profissionais da área. A construção de uma comunidade mais justa, saudável e solidária inicia pela educação e o papel do professor não é o de simplesmente redigir e transferir matérias, mas de ser agente de transformação, de ajudar a desenvolver sujeitos responsáveis pelo amanhã. É uma profissão-chave capaz de potencializar rumos positivos para as novas gerações.
O curso de Letras da UPF já faz parte dessa nova iniciativa e, por meio de seu já consolidado currículo, que integra diferentes propostas de atividades de ensino, pesquisa e extensão, lança mais um esforço para formar novos profissionais competentes e preparados para fazer a diferença e uma educação de qualidade. A incessante busca por um ensino diferenciado, pautado em metodologias e teorias que estão integradas à prática estará cada vez mais presente nas salas de aula de nosso estado, agora com mais um apoio para a área da educação no que tange à formação docente.
SESI. Observatório Sesi da Educação. Apagão de professores? Uma análise dos impactos da oferta de professores no RS. 10 de outubro de 2023. Disponível em: https://instituto.sesirs.org.br/wp-content/uploads/2023/10/Estudo-Apagao-de-Professores.pdf Acesso em: 20 abr. 2024.

Por Evelyn Bichoff Nascimento, graduanda em Letras UPF, e Francismar Furlanetto, doutorando em Letras UPF