Dia 8 de abril de 2024, uma data que ficou marcada na história do PPGL e do Curso de Letras da UPF. Essa segunda-feira iniciava uma semana tão igual quanto qualquer outra, com dias de chuva, sol e calor. O trânsito fluía com a mesma intensidade, a mesma regularidade caótica com que sempre fluiu. Mas, na sala 206, do Prédio D3, cerca de vinte estudantes se reuniam para prestigiar um visitante ilustre e internacional, o qual agraciava a todos com muito conhecimento e uma bagagem riquíssima na disciplina de Seminários Especiais.
Sempre modesto, falava mansa e calmamente, com tamanha naturalidade que encantava seus ouvintes. Parecia que não sabia da imponência de seus estudos, de quanto os que estavam presentes já tinham ouvido falar dele e se encantavam com seus postulados. Muitos nem piscavam e mal acreditavam que, sem mais estar separados por um oceano, diretamente da Universidade de Paris IV – Sorbonne, encontravam-se diante de Dominique Maingueneau. Uma referência, uma base, uma inspiração em estudos do discurso estava frente a frente com uma plateia pequena, mas sedenta por ensinamentos.
Com seu português impregnado com um sotaque francês – que nada atrapalhava ou impedia a compreensão dos que o escutavam – explanou temas riquíssimos e tão recentes dentro da linguística, como a importância da análise de todos os tipos de enunciados dentro da Análise do Discurso, a questão dos gêneros textuais, a web e sua influência na constituição dos discursos, a aforização e os enunciados aderentes. Fazia isso, vez ou outra, desculpando-se por não conhecer alguma palavra do português ou por errar a pronúncia, mas isso era mero detalhe para o grupo, que nem percebia o desvio, já que estavam mais interessados em seu conteúdo.
Era tão cuidadoso a ponto de explicar cada conceito e cada ideia com um exemplo retirado de algum jornal, site, monumento ou de outro dos mais variados corpora que o Brasil pode oferecer. Havia, sim, exemplos norte-americanos e da França, mas Maingueneau sentia-se tão em casa que sempre trazia um exemplo brasileiro para mostrar que a linguagem e os sentidos possíveis de serem criados por ela são universais e funcionam em todas as línguas.
A mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras, Rafaela Miranda, comentou a discussão que o professor desenvolveu acerca do discurso. De acordo com ela, “pudemos refletir sobre esse objeto teórico que é o discurso e sua natureza, a propósito, tão impactado pelas novas tecnologias. Nessa perspectiva, a grande mensagem que ficou para nós, estudantes da linguagem, foi o entendimento de que nenhuma teoria pode estar fechada em si mesma, afinal, nesse mundo tão dinâmico, conceitos, noções e mesmo metodologias precisam, muitas vezes, de ajustes para ‘dar conta’ dos fenômenos que nos interessam. Do contrário, corremos o risco de incorrer em teoreticismo apartado das realidades objetivas e singulares”.
Uma conversa para todos: aula aberta para a graduação da Letras/UPF
Na quarta-feira, dia 10 de abril, o professor Dominique Maingueneau conduziu uma palestra aberta ao Curso de Letras e ao PPGL da Universidade de Passo Fundo, configurando-se como a Aula Magna do semestre. Nessa ocasião, apresentou um pouco das pesquisas que tem desenvolvido, como aquelas envolvendo a teoria dos enunciados aderentes e a relação dos humanos com falantes não-humanos.
Nas palavras do graduando do 8° semestre do Curso de Letras, Marcelo dos Santos, “foi uma oportunidade única de conhecer de perto um teórico em evidência internacional, principalmente porque os trabalhos de Maingueneau, como os que abrangem os conceitos de cenografia e ethos, fundamentam disciplinas do curso”.
Além disso, o acadêmico pontua que o autor discorreu sobre a teoria dos enunciados aderentes – uma novidade nos estudos linguísticos. Isso porque ela busca demonstrar o potencial discursivo que os enunciados inscritos sobre suportes têm como objetos de estudo, e exemplo de enunciados em embalagens de produtos, ou inscritos em camisetas, cartazes de protesto ou tatuagens.
O graduando destaca que Maingueneau, além disso, trouxe uma reflexão acerca da relação da sociedade com os falantes não-humanos. “Foi interessante pensar sobre essas questões, tendo uma autoridade nos assuntos linguísticos e discursivos direcionando as reflexões. Sobre isso, aos ouvintes, restou a inspiração de buscar compreender essa nova perspectiva linguística, levando em consideração fenômenos comunicativos, como as fotografias, a arte e, principalmente, o ambiente digital, pois o surgimento da inteligência artificial tem levantado muitos questionamentos no que diz respeito à criação autônoma de enunciados”, afirma Marcelo.
O aluno salienta, por fim, a contribuição pessoal que a palestra teve para os seus estudos, afirmando que, para ele, “foi ainda mais importante essa vivência, pois sou bolsista de Iniciação Científica e o trabalho que estou desenvolvendo no grupo de pesquisa é baseado nas teorias de Maingueneau. Tive uma experiência única, tendo em vista que pude tirar foto com ele e recebi autógrafo em um livro. Ainda, o fato de ouvir diretamente do autor os conceitos que lemos nos livros proporciona uma experiência surpreendente. O contato com o teórico que, desde o início da graduação, baseia meus trabalhos acadêmicos serviu de inspiração e incentivo para prosseguir na área da pesquisa, uma vez que ver pessoalmente uma figura tão importante reforça a certeza de que é possível alcançar nossos objetivos”.
Sem dúvida, a presença de Maingueneau na UPF serviu para gerar ainda mais inquietações nos estudos linguísticos, a partir de estudos de uma referência internacional para as pesquisas na Análise do Discurso. Reforça, também, o empenho e a qualidade do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação no que diz respeito à formação de seus acadêmicos.
Por Caroline de Camargo Ribeiro e Francismar Furlanetto.