Não é de hoje que acompanhamos a falta de professores nas escolas e a decadência do magistério em geral. No entanto, nos últimos anos, o cenário parece ter se tornado ainda mais complexo. No final do ano passado, com base em dados do IBGE e do INEP, o Serviço Social da Indústria (Sesi-RS) divulgou um estudo intitulado “Apagão de professores: uma análise dos impactos da oferta de docentes no RS”, prevendo um déficit de 10 mil professores na Educação Básica, em 2040. Entretanto, os problemas já são atuais, pois o estudo reporta aspectos preocupantes: escolas que, reiteradamente, iniciam o ano letivo sem professores; docentes com formação inadequada, ministrando aulas para as quais não tiveram formação superior; idade avançada da maior parte dos professores que hoje estão na ativa; o problema das formações EAD e a falta de experiência profissional, dentre inúmeras outras situações.
Diante desse cenário, à primeira vista, parece bastante promissora a proposta do governo estadual com o programa Professor do Amanhã. Em breves palavras, o programa oferece formação gratuita a alunos que desejem cursar licenciaturas em que haja carência de profissionais (como Matemática, Letras, Biologia), responsabilizando-se pelo pagamento das mensalidades e matrícula durante o período do curso. Além disso, os alunos recebem uma bolsa mensal no valor de R$ 800,00 reais para ajuda de custo. Em contrapartida, os acadêmicos devem desenvolver, no mínimo, 300 horas de prática de ensino na rede pública estadual durante o curso e, após formados, um mínimo de 1920 horas em atividades docentes em escolas estaduais. Quanto às Instituições de Ensino Superior, devem cumprir alguns itens do edital, dentre os quais se destacam o requisito de serem instituições comunitárias – como é o caso da UPF – e o fato de que os cursos precisam ser, necessariamente, presenciais.
Não obstante, convidamos o leitor à reflexão, pois algumas questões precisam ser levantadas: a falta de professores, o programa criado, a formação de professores e a carreira docente.
De fato, a carência de professores já assola o país há algum tempo. Nesse sentido, o programa tem, sim, um caráter promissor ao incentivar as pessoas a seguirem a carreira de professor tendo seus estudos pagos, além de auxílio. Também parece correto que esses profissionais possam devolver isso ao governo através da permanência na rede estadual de ensino. No entanto, alguns aspectos preocupam. E se os concluintes simplesmente perceberem que não estão na área certa, que não têm vocação/desejo/jeito para serem professores? É preciso restituir tudo ao governo. Esse é um aspecto a ser muito bem ponderado, posto que, nesse caso, os alunos ficarão no compromisso de devolução dos benefícios recebidos, cujos valores vão se avolumando com o passar dos meses/semestres. Além disso, não há necessariamente uma garantia de que, depois de formado, os professores desejem seguir exercendo a profissão no magistério estadual.
Por parte do Governo Federal também se percebe uma preocupação com a formação de professores. Várias instituições de ensino superior federais, tais quais os Institutos Federais, já oferecem há alguns anos cursos superiores de licenciatura, especialmente de Biologia e Matemática, totalmente gratuitos. No entanto, o que se percebe é dificuldade para fechar turmas, alta evasão e poucos formandos, dos quais nem todos seguem atuando na área.
Ademais, outro dado preocupante é que mais da metade dos professores formados nos últimos anos provém de cursos EAD. Sabemos que as tecnologias revolucionaram nossas formas de aprender, mas sabemos, também, que nem todos os cursos EAD prezam pela qualidade no ensino, de modo a ofertar uma formação sólida, elaborada/ministrada por profissionais qualificados e com atividades que permitam vivenciar experiências de ensino. O que se vê, em muitos casos, é uma disputa entre um sem fim de faculdades EAD pela oferta de mensalidades mais baixas, sem levar em conta a formação efetiva do profissional que entregarão ao mercado.
Por fim, o cenário que se percebe é que os programas são louváveis, posto que buscam alternativas à falta de professores e reforçam o ensino presencial, mas é preciso mais do que isso. É preciso olhar para a carreira docente. É maravilhoso quando um professor é professor por amor. E, de fato, muitos têm um dom. O dom de ensinar. Mas esse dom não paga contas!
O estado e o Brasil todo têm um histórico de desvalorização da educação e da carreira de professor, que vai desde escolas em condições precárias, sem o mínimo de material didático e de expediente, até salários pagos com atraso, abaixo do piso nacional e muito abaixo de outras carreiras de mesma formação acadêmica. O resumo da obra é muito simples: enquanto não houver valorização da educação e da carreira docente, talvez não tenhamos professores em quantidade suficiente.
Sou mãe. Meu desejo é entregar minha filha na porta da escola para uma profissional bem formada, bem paga e feliz na profissão. E o seu?
Por Rafaelly Andressa Schallemberger, em nome da equipe Letrilhando