O presente ensaio trata sobre migrações, especialmente as vivenciadas por jovens protagonistas. A temática foi objeto de abordagem em sala de aula por meio da obra “Migrar”, de autoria do mexicano José Manuel Mateo (2013). A narrativa relata a migração de uma família através da voz de um menino, primeiro o pai migrou, e depois ele, a irmã e a mãe deles. O cenário da desolação e constante migração, faz com que o menino perceba a partida dos conhecidos e, também, do pai, o qual enviou dinheiro por um tempo e parou. A mãe tentou mantê-los com o trabalho pouco remunerado até decidir que chegara a hora de migrarem também. O percurso até o destino, em busca de trabalho e do pai, não foi divertido como as brincadeiras de correr, se esconder e ser delatado pelo animal de estimação.
Observando que a migração na América do Sul tem aumentado nos últimos anos e com o intuito de proporcionar roda de conversa entre os colegas da escola, nativos e migrantes, desenvolveu-se a leitura e atividades observando a obra. Migrações independem de distâncias, trazem mudanças grandiosas na vida dos alunos e, nesse contexto, a literatura juvenil oferece sentido ao compartilhar as vivências juvenis. Para esse trabalho se fez necessário diálogo entre a obra “Migrar”, do autor mexicano José Manuel Mateo (2013), e a Literatura Juvenil em língua portuguesa sob a óptica das autoras Ana Margarida Ramos e Diana Navas (2019). Observaremos, também, o amparo teórico de Jorge Larrosa (2017) para elucidar a experiência docente.
Essa questão faz parte da vida de muitos educandos, assim apontamos a necessidade de atividade empírica sobre o ato de migrar. O estudo dá conta da ambiência realista e contemporânea, atende e amplia as vozes dos leitores juvenis inseridos nos meios conflitantes. O tema fraturante expõem questões das quais durante muitos anos os jovens foram poupados, e, embora não tenha o propósito de influenciar negativamente, tais narrativas incitam os leitores juvenis a pensar e a reagir, estimulando a cidadania ativa e participativa.
O MIGRAR COMO NARRATIVA NA CONTEMPORANEIDADE
A obra de Mateo (2013) apresenta a narrativa de um menino que se recorda da infância onde vivia, com quem e o ambiente social que o cercava. A voz jovem narra passagens saudosas do tempo bom de antes de migrar, relatado na obra em: “Eu brincava entre galos e porcos. Os animais andavam soltos, porque na roça não havia currais ou cercas entre as casas” (Mateo, 2013 p. 01). O fator político começa aos poucos a desmanchar o lar, “primeiro o seu Augusto se foi. […] Por fim meu pai também se foi, e na cidade sobraram apenas mulheres e algumas crianças” (Mateo, 2013, p. 02).
O realismo crítico da obra intenta repassar ao leitor juvenil a realidade social e humana de forma direta, sem idealizações. Conforme Ramos e Navas (2019), algumas características são visíveis na literatura juvenil, há as que abordam problemáticas típicas da sociedade contemporânea, com atenção à discriminação racial, étnica ou de gênero, e outras que voltam sua preocupação ao meio ambiente, à situação econômica ou temas decorrentes da maturação vivenciada pelos jovens. Esses temas, na maioria das vezes, implicam na descrição do universo interior das personagens e dos seus enfrentamentos, visa superar os medos e as carências, revelando-os como inerentes à condição humana.
Em meio ao que vai restando do lar, o ato narrativo assume a dor humana no tema fraturante ao dizer “minha mãe quis plantar no terreno, mas o dono não deixou. Procurou emprego, mas pagavam sempre muito pouquinho. No início meu pai mandava dinheiro, mas depois parou” (Mateo, 2013, p. 03). A decisão de deixar o local natal estreia vozes para além da inocência do narrador, é percebida no fragmento “assim, um dia, minha mãe juntou suas coisas numa bolsa, nos pegou pela mão e deixamos nossa casa” (Mateo, 2013, p. 03).
Em meio a corridas, sustos e medos eles chegam a um novo lugar. Segundo Ramos e Nava (2019, p. 25), essa narrativa está “aliada à aparente indefinição temporal e o fato de a narrativa ser protagonizada por crianças e jovens em situação de risco num cenário desrealizante, sublinha a importância de que se revestem o amor e os afetos na vida humana”. Isso se confirma ao lermos “minha mãe nos enfiou em um buraco e se deitou por cima de nós. Era de noite. Consegui ver que perseguiam as pessoas e as colocavam em uns caminhões amarelos. Ficamos no buraco até amanhecer” (Mateo, 2013, p. 05). A estética da migração é centrada numa grandiosa e realística fluidez, essa “consegue facilmente cativar e envolver os leitores” (Ramos; Nava, 2019, p. 27), marcando as problemáticas da existência do público juvenil. A obra pode ser percebida como um macrotexto em que se refletem inúmeros problemas sociais, mas se distingue pela ausência de moralismos ou tomadas de posição perante eles.
A família lidando com as crises e vicissitudes que passara, e inserida no meio conflitante de adaptação ao novo cenário geográfico faz o protagonista ponderar sobre “o bom de ter vindo é que nos deram trabalho: vamos começar limpando casas” (Mateo, 2013, p. 08). Nessa passagem do texto, percebe-se que o autor mexicano nos envolve como leitores, leva-nos à reflexão sobre a realidade social e também sobre a importância da escrita de obras que relatam as percepções juvenis acerca, especialmente, desse tema.
Ramos e Navas (2019) notam que constructos teóricos, acerca de temas como o desenvolvido neste trabalho, permitem estudos de grande importância para a investigação, a sistematização e amparo na Literatura Juvenil. Os temas explorados e existentes nos territórios geográficos ou políticos têm permitido qualitativo e quantitativo aumento dos estudos destinados ao público leitor juvenil, isso confirma a
estreita ligação com fenômenos contextuais, como, por exemplo, a temática da crise econômica e/ou social, ou a questão dos conflitos bélicos que tiveram a Europa como principal palco, além das migrações; e, em território brasileiro, de obras que abordam, em especial, os problemas sociais vivenciados pelos jovens, com destaque para a violência e as questões econômico-culturais (Ramos; Nava, 2019, p. 23).
A família protagonista decide procurar pelo pai e vivencia dilemas árduos, pois desconhecendo o paradeiro dele concluem “pode ser que esteja perto, mas em outro bairro” (Mateo, 2013, p. 09). Essa passagem nos recorda os noticiários sobre os milhares que migram todos os anos, nem todos fazem o percurso com seus familiares, alguns estão sozinhos lançados à própria sorte, fogem da pobreza e da violência, encontram adversidades no caminho, mas têm esperança de encontrar trabalho e viver em paz.
O sentimento de saudade do protagonista é revelado no final da obra, “o que estará fazendo Gazul? Pobrezinho do meu cão, ele não gosta de ficar sozinho…” (Mateo, 2013, p. 09). Essa passagem rememora no leitor juvenil um transbordamento de sentimentos, dada a importância que o animal de estimação tem na vida do migrante.
A obra mescla a curta narrativa em linguagem verbal e o cuidadoso trabalho de ilustração, esse desempenha um papel decisivo na compreensão efetiva do texto, visto que ultrapassa a mera função de adornar. O corpus deste estudo é um relato em papel dobrado, com palavras e desenhos que contam a história de um jovem que conseguiu chegar, para que não sejam esquecidos os milhares de outros que não conseguiram, desapareceram ou foram mortos. Há muitos clamando, ao migrar, por aceitação, por documentos, por comprovar sua identidade e por permanecer com sua cultura. Contar, ouvir, ler, e sem julgamento construir campo pedagógico de aprendizado é o principal intuito dessa obra que pertence à literatura juvenil.
TEMA FRATURANTE: A EXPERIÊNCIA NA SALA DE AULA
O olhar à narrativa, às possibilidades de sentido, e tendo os alunos de Ensino Fundamental como protagonistas na construção do saber, foram os diálogos estabelecidos neste trabalho de natureza empírica, a partir da leitura e interpretação da obra Mateo (2013).
Como defende Larossa (2017, p. 04), “as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação”. A alma das palavras determina nossos pensamentos e esse dá sentido ao que somos e ao que nos acontece. Os alunos relataram suas migrações durante as atividades desenvolvidas e uma particularidade foi notada: todos que se mudaram ou migraram deixaram algo para trás. Os manifestos emocionados de obrigatoriedade do afastamento dos animais de estimação foram os mais dolorosos. Enquanto para o afastamento da família a resolução pode ser temporariamente, nas afirmações deles, resolvida por chamadas de vídeo, o dos animais não têm resolução.
Ao relatar as experiências, em sua maioria traumáticas, o ato de ser ouvido pelo outro transforma as narrativas de testemunho, e se ampara em “quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata e de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como vemos ou sentimos o que nomeamos” (Larossa, 2017, p. 17). Vivenciar mudanças de lugar durante a adolescência toca os jovens estudantes. Quanto ao professor mediador cabe a intercambialidade sem emitir opinião, pois essa “anula nossas possibilidades de experiência” (Larossa, 2017, p. 20).
A experiência em sala de aula com temas fraturantes é mais rara por falta de tempo, dadas as exigências de cumprimento das diretrizes e bases educacionais que contemplam majoritariamente o estudo direcionado a outras competências. Tudo passa cada vez mais depressa, “e com isso se reduz o estímulo fugaz e instantâneo” (Larossa, 2017, p. 22), e assim a velocidade do fazer torna-se inimiga da experiência: “na escola o currículo se organiza em pacote cada vez mais numerosos e mais curtos […] estamos sempre acelerados” (Larossa, 2017, 23).
No âmbito da literatura juvenil, cabe ao professor mediar o grupo de leitores juvenis e encontrar meios para que todos deixem-se parar para acontecer,
um gesto é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço” (Larossa, 2017, 25)
Ao se expor como protagonista da experiência de mudar-se ou de migrar, percorrer caminhos, atravessando espaços indeterminados e perigosos, buscando oportunidades, a dimensão é a da busca por viver com dignidade de pessoa não estranha ou exilada, como a apresentada na obra escolhida como corpus deste estudo.
Os leitores juvenis, ao compartilhar suas experiências de mudar-se ou de migrar, sentiram-se derrubados, muitas vezes não alcançaram o que se propunham. Larossa (2017) os descreve como sujeitos que não se definem por seus sucessos e poderes, são sofredores com capacidades de formação e transformação, embora tenham força e qualidade existencial que permite apropriação da própria vida. Assim sendo, se faz necessário explorar, reivindicar e legitimar a dignidade da experiência, pois esse é o início do verdadeiro conhecimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Notamos a presença marcante e realista na narrativa de questões de afirmação identitária e típica da adolescência no conflito que permeia a leitura e, também, dos problemas sociais e culturais que marcam o contexto onde estão inseridos os protagonistas e, por que não, leitores a quem a obra em estudo se destina.
A situação da desestruturação familiar devido à migração e a consequente procura por afirmação da identidade é um tema fraturante que se sublinha associado com as problemáticas existenciais. Os elementos culturais que ilustram a narrativa fazem parte do hibridismo na construção de sentido e aproximam o leitor e a literatura juvenil sem descuidar do primoroso e atento trabalho com a linguagem.
A obra centrada no tema fraturante levou os jovens leitores a conhecerem o outro, ainda que a globalização seja um traço de marca contemporânea, sempre existiu, embora em proporções diferentes mas não menos doloridas. Desta forma, acreditamos que a literatura juvenil, em seu processo de consolidação, se revela portadora de informações que constroem caráter, muito além de ser entretenimento, bem como, proporciona aprendizado ao narrar a vida de um jovem que sente muita saudade do seu lar e do seu animal de estimação, que ficaram forçadamente em seu passado carregado de nostalgia.
REFERÊNCIAS
LAROSSA, Jorge. Tremores: escritos sobre experiência. Tradução de Cristina Antunes, João Wanderleu Geraldi. 1ª ed.; 3ª reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
MATEO, José Manuel. Migrar. Ilustrações de Javier Martinez Pedro. Tradução de Rafaella Lemos. Rio de Janeiro: Pallas, 2013.
RAMOS, Ana Margarida. NAVAS, Diana. Literatura juvenil dos dois lados do atlântico. São Paulo: Educ, 2019.
por Marilei Golfe Milan,
Doutoranda no PPG Letras – UPF