Às 07h ela me acorda. Abre a janela, vê que está nublado, mas não me deixa voltar para a cama. Prepara meu café da manhã, sem esquecer da cafeína. Pega o uniforme que ainda está pendurado no varal, porque não teve tempo de recolher no dia anterior. Me veste e me lembra do protetor solar – será que ela se importa tanto assim?
Ela me leva pelo mesmo caminho de sempre, passando pelo pouco verde da praça, indo pelo lado da rua, com sombra, e com o velho costume de atravessar a rua fora da faixa. Os fones de ouvido estão tocando as mesmas músicas, tentando me fazer pensar que o dia vai ser diferente.
Ela entra comigo pela mesma porta, pega o mesmo elevador e aperta o mesmo andar. Coloca a mochila na mesma cadeira, enche a mesma garrafa de água, na mesma temperatura gelada. Liga o computador às 08h02. Quando ela pisca, são 12h. Ela me leva até a cozinha e esquenta o mesmo cardápio do outro dia. Ela me ajuda a lavar a louça e depois pega na minha mochila o mesmo livro do mês passado, afinal, ela não me deixa muito tempo para ler.
Ela me chama para voltar ao mesmo lugar, e quando ela pisca novamente, são 17h. Aí ela me faz correr – irônico para quem não me deixa tempo para fazer exercícios – pelo mesmo roteiro, troca de roupa, arruma o cabelo, e saí na esperança de pegar o mesmo ônibus, na mesma rua, para não ter que ir até a parada mais longe.
Ufa!!! deu tempo. Mas agora ela não me deixa esquecer que ainda falta a mesma uma hora de sempre para chegar ao mesmo destino. Pelo menos ela deixa colocar o fone de ouvido e ouvir aquela mesma música que dá a leve sensação de estar em um filme dos anos 2000 – aquele que eu assistia quando ela nem existia.
As luzes do ônibus acendem, eu acordo e ela está lá novamente. Ela tira da minha mochila o mesmo sanduíche do mesmo jeito de sempre. Neste final de semana, talvez ela me ajude a pensar em outro – estranho, eu pensei o mesmo na semana anterior.
A aula também é a mesma da semana passada, mas o tema é diferente. Pude escrever sobre ela, que não gosta muito de mim e eu que não gosto muito dela, mas ambas que se acostumaram com a companhia uma da outra. Um dia ela vai embora, mesmo. Mas esse dia não é hoje, porque já são 07h de novo.
Por Luiza Joana Wagner, acadêmica de Jornalismo da UPF, nível 3