A esfera orgânica está passando por um sofrimento sentido no clima.

Não sei se você já parou para pensar de onde vem essa água que devasta casas, terras, moradas, locais, identidades, personalidades. Ora, é a chuva fazendo o seu ciclo, e é tão desconcertante quando o clima perde sua identidade e destrói tudo. Pode ser um pouco louco imaginar – e eu imagino assim – que é confuso para a chuva seguir um caminho que não lhe pertence. Para nós também, sentimos o ambiente nos moldando, agora sim sentimos, e nos compadecemos.

O físico da Terra, isto é, a atmosfera e todos os fatores abióticos que constituem a complexa dinâmica climática, está passando por um processo de mudança. Isso envolve uma rede gigante e interdependente, que é o ecossistema. E eu, nós, humanos, estamos inseridos nessa teia que eu chamo de sistema ecossocial: há uma organização a ser respeitada além do grupo humano. O “Nós” vai além do humano.

Recentemente, tive a oportunidade de apresentar um seminário num curso de medicina aqui em Passo Fundo. O tema era sobre mudanças climáticas e bem-estar mental. Discutimos como o ambiente molda as várias esferas da vida humana, e como eventos climáticos extremos e outros problemas ambientais podem interferir, especificamente, na saúde mental. Talvez não seja tão aparente – assim como para muitos, muita coisa não é aparente -, mas há uma relação entre humano e meio ambiente, e essa relação só pode ser vista aos olhos daqueles que estão cientes disso.

Quer ver como a natureza está inserida na vida humana? Basta olhar para a sua vida, é singular. É, acima de tudo, vivência.

Quando a espécie humana se relacionar adequadamente com a natureza, ocorre o verbo Ser. Desenvolver humanidade é se envolver com a Natureza. Ser humano é viver a natureza! Não sei quando perdemos esse senso de identidade natural, quando paramos de chorar pela perda minha e do outro – humanos ou não -, quando deixamos de perceber o que vivemos. Aí eu vejo os dias de escuridão propostos por João em Apocalipse. O tempo presente está marcado pela cegueira, pelo apagão, pela ignorância, pelo egoísmo.

A escuridão está aqui, na mente. A escuridão está aqui, na alienação. A escuridão está aqui, nas fake news. A escuridão está aqui, no extremismo. A escuridão está aqui, no ser humano que, em busca de Humanidade, perdeu-se no caminho e perdeu uma parte de si. Dentre todas, a pior doença que poderia existir é a de não compreender o Ser Terra, porque conforme eu, Espécie, a consumo inadequadamente, a Terra, vou perdendo o sentido de relação e de pertencimento. Sem Terra, a que pertenço?

A esfera orgânica do ser humano está passando por um sofrimento sentido no clima, e isso impacta o impalpável mundo psicológico do ser, a mente, a emoção, o bem-estar, o sistema ecossocial.


por Rudimar Risso de Oliveira Junior, acadêmico do VI nível de Letras na UPF e de Ciências Biológicas no IFRS/Sertão

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