Na sociedade brasileira atual, percebe-se que as humanidades enfrentam entraves para “ampliar seus horizontes”, haja vista que a falta de estímulo na infância de muitas pessoas pode ser o início do agravamento do problema. Muitos brasileiros se contentam em desenvolver apenas a sua imagem e posição social, mas a propaganda visual e pessoal valem mais do que a própria essência? Ao ler a “Teoria do Medalhão”, do escritor Machado de Assis, conseguimos perceber que a falta de incentivo às próprias opiniões e desenvolturas afeta o desenvolvimento do pensamento crítico e o desejo de experimentar coisas novas, mas, ao mesmo tempo, não existe uma fórmula para ampliarmos o nosso conhecimento, é necessário que haja a vontade e a auto-permissão de vivenciar diferentes maneiras de conhecer o mundo em que vivemos.
No diálogo deste conto existem dois lados: um retrata a imagem de um pai que deseja ver seus ideais frustrados sendo realizados pelo filho e, no outro lado, existe um filho que aceita passivamente todas as imposições do pai (pois este é o papel social que cabe aos filhos). Neste trecho, conseguimos analisar o critério que o pai utiliza para convencer seu filho a seguir suas orientações:
Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. (Assis, 2017).
No decorrer do diálogo, a superficialidade que o pai utiliza para descrever o ser humano se expande e conseguimos relacionar este personagem com os indivíduos pessimistas que estão descrentes da natureza humana mas que não conquistam, em seu íntimo, a capacidade que o ser humano tem de “pensar além do pensado”.
Além disso, a mensagem final é desoladora, pois desaconselha a crença nas virtudes humanas, muito embora a reversão das fraquezas em força e poder real seja possível, principalmente quando o indivíduo aceita o desafio de olhar as pessoas com um olhar humano, buscando colocar-se no lugar do outro e aceitando, ainda, as suas particularidades. Acredita-se que somente dessa forma, o cenário das práticas sociais e culturais poderão ser enraizadas no tempo e no espaço, reorganizando os princípios do cidadão como um avanço significativo do desenvolvimento ético socrático, onde o cidadão se permite dialogar, acrescentar seus pensamentos e suas vivências, debater e permite-se também estar errado e reconhecer que os erros são necessários para a construção do conhecimento, não apenas intelectual mas também como figura ativa na sociedade.
Indiretamente, Martha Nussbaum, em seu livro “Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades”, adverte que se essas tendências de padronização de comportamento continuarem, teremos pátrias formadas por massas de pessoas tecnicamente treinadas, que desconhecem os sentimentos então descritos como “ideais” (como o carinho, o cuidado e a empatia). Essa ideia vai ao encontro da opinião de muitos outros seres pensantes, uma vez que estamos nos tornando entidades perfeitamente substituíveis (inclusive por máquinas programadas). Sendo assim, é necessário que a população repense as próprias atitudes, para que as futuras gerações não sofram com esta padronização. É fundamental, também, incentivar o desenvolvimento das humanidades dentro das escolas, seja através de trabalhos voluntários ou pela mudança na grade curricular, para que as ações positivas revertam o problema do pessimismo e enfatizem o poder transformador do respeito às diferenças e da responsabilidade social, valorizando assim, a solidariedade, a cooperação e o bem estar coletivo, já que as pessoas que compreendem a importância desses atos estarão melhor preparadas para trabalhar com as diferentes situações encontradas no dia-a-dia.
Referências
ASSIS, Machado de. Teoria do Medalhão: Elogio da Vaidade / Machado de Assis. São Paulo: SESI-SP editora, setembro de 2017.
NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.
por Erica Zanchin Brizola, acadêmica do 2º semestre de Letras UPF