Editorial – Algoritmo X

Na era tecnológica em que vivemos, é simples fazermos uma busca no Google pelo termo “Inteligência”, encontrando seus significados. A ampla maioria dos escritos nos encaminha para a relação da inteligência com o homem em seus aspectos linguístico, emocional, social, lógico, entre outros, diferenciando-nos dos animais por isso na maioria das vezes. Todos eles ressaltam e enfatizam o aspecto humano desse conceito. No entanto, em cada texto em que se busquem maiores informações sobre esse vocábulo, encontram-se, com maior ou menor destaque, referências à Inteligência Artificial.

Uma inovação recentemente popularizada da área da Computação, as IAs estão inseridas em sites, aplicativos, programas de computador e até mesmo já disponíveis com facilidade nos smartphones. Analisando um grande volume de dados e informações adquiridas de diferentes modos, com o intuito de reproduzir ações e atitudes do comportamento humano, definidas por meio de padrões construídos a partir da análise, a IA tem o objetivo de facilitar a vida das pessoas, por meio da automação, da agilidade na realização de processos e o aumento da produtividade, com diminuição da taxa de erros.

É inegável que isso gera uma série de benefícios para o mercado de trabalho, para conforto e praticidade no cotidiano das pessoas. A aplicabilidade das IAs é variada: usam-se para recuperação de vídeos mais antigos, deixando-os com uma qualidade um pouco mais atual; editam-se fotos de uma maneira que tornam os closes mais modernos e “postáveis”, em alguns casos criando-se figurinos ou cenários para as imagens; com poucos comandos dados, podem ser produzidos textos, trabalhos escolares, artigos, entre outras tantas produções intelectuais. No entanto, o uso indiscriminado afeta justamente a essência do conceito de inteligência: o humano. 

A mesma praticidade apresentada sacrifica todo o processo de criação, de interação, de embelezamento da produção que se deseja realizar. Falando-se especificamente das IAs responsáveis pela criação de conteúdo, sem nem precisar ser um mestre da programação, mas por meio das indicações certas, nasce uma obra pronta, em segundos, sem o mínimo esforço do criador. A facilidade subverte a verdadeira inteligência, que é a humana. O caráter individual, subjetivo, expressivo e pessoal da obra se perde. A elaboração se torna rasa, sem graça, simplificada, facilitada, maquinal, embora bem feita, com o resultado idêntico ao esperado, sem surpresas ou imprevistos.

O outro é desconsiderado, ou ao menos não é considerado como um indivíduo a ser atingido, agradado, conquistado, persuadido pela arte da palavra, da glamourização, do desejo de despertar sentimentos, de levar a realizar ações. Não é o mesmo produzir um conteúdo pensando em organizar milimétrica e cuidadosamente cada conjunto de palavras e frases, de um modo que pode afastar ou prender, amarrar eternamente ou ser ignorado por um auditório exigente, perspicaz. A inteligência, artificial pela sua definição, mascara justamente o que mais nos torna humanos: a interação, com suas falhas, seus mal-entendidos, suas ambiguidades, suas regionalidades, sua humanidade. O que resta de humano, portanto, é apenas o nome que assina o resultado que os algoritmos acabaram por criar.

E se esse texto foi produzido com o uso de alguma IA? E se ela, que foi abençoada e vítima de desconfiança nas linhas que antecedem essa pergunta, questionou a si própria para, no fim, exaltar a si mesma? Nunca saberemos, pois elas conseguem imitar muito bem o real, o humano, o subjetivo. Copiam e reproduzem, mas nunca superam o contato de um escrito do homem para o homem. Ou será que sim? Enquanto essa dúvida paira no ar, dê mais alguns cliques e delicie-se com uma nova edição feita de textos escritos por humanos, para leitores que gostam de textos essencialmente humanos.


por Francismar Furlanetto, em nome da equipe Letrilhando

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