Literatura e humanidades: atuação efetiva no panorama educacional do Brasil

1. Considerações iniciais

Quando o panorama educacional nacional é colocado em pauta, faz-se possível enxergar uma de suas maiores defasagens: o pouco incentivo às relações humanas construídas à base da empatia e responsabilidade social. Assim, é papel do docente compreender a situação e englobar este estímulo associado aos conteúdos pragmáticos de uma sala de aula. Tal prática pode ser realizada através de leituras guiadas que corroborem para a empatia florescer nos alunos, trabalhando obras que tratam de fatores sociais e que colocam o discente na perspectiva do narrador, como é o caso das crônicas presentes no livro “A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum (2006).

2. Práticas literárias atreladas à formação humanística 

De nada adianta a escola se ela não buscar educar para muito além do ambiente escolar: além dos conteúdos, ela é responsável pela constituição do ser como um todo e também visa ensinar valores como a empatia, o diálogo e o respeito às diferenças, como está descrito na competência 9 da Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018). O desenvolvimento desses valores, além de colaborar para um futuro que anseia melhorias, tem relação direta com a melhora significativa de desenvolvimento escolar dos discentes.

 No capítulo “Educar os cidadãos: os sentimentos morais (e antimorais)” do livro “Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades”, Martha Nussbaum (2015) aborda a importância da formação de pessoas com criticidade, que não se deixam levar pelas opiniões do grupo social em que estão inseridas. Além disso, Nussbaum (2015) também aborda a importância de visualizar o mundo através do ponto de vista do outro — principalmente daqueles que são vistos como a escória da sociedade. Neste sentido, as práticas literárias são grandes aliadas na formação humanística dos alunos. O livro “A vida que ninguém vê”,  de Eliane Brum (2006), por exemplo, relata sobre a vida de pessoas que não são celebridades, são apenas pessoas comuns, vivendo suas vidas não extraordinárias, e que, por conta disso, ficam sob o véu da invisibilidade. 

Com relatos chocantes e arrebatadores, a leitura nos obriga a desenvolver o pensamento crítico e refletir sobre o cenário em que os “protagonistas” estão inseridos, sendo provável que os alunos se questionem sobre as mazelas do mundo que vivem. Além disso, a literatura, com seu imenso poder de ampliar a compreensão do mundo, faz os alunos imaginarem como a vida seria se eles vivessem as situações (por vezes avassaladoras) descritas no livro. A crônica “O homem que come vidro”, se utilizada em sala de aula, pode promover questionamentos como: eu gostaria de precisar comer vidro para (tentar) ser visto como parte atuante da sociedade? Como eu me sentira se minha integridade física possuísse a mesma dimensão que um lagarto exposto em uma caixa por um vendedor de pomadas naturais? Isso pode desenvolver nos estudantes a empatia pelos “protagonistas”, a qual será estendida para muito além da literatura ou do ambiente escolar: serão formados cidadãos conscientes sobre a realidade do mundo, habilidade que Nussbaum (2015) defende como essencial.

3. Considerações finais 

Através da literatura é possível ampliar os horizontes dos alunos, tornando-os pessoas que desenvolvam  (além da criticidade, autonomia e do reconhecimento de sua própria identidade) senso de fraternidade não somente com seus semelhantes, mas também para com aqueles com que não compartilham vivências e semelhanças, afinal é isso que constitui uma sociedade: pessoas diversas, com vivências e opiniões diversas. 

Neste contexto, o uso da literatura como principal agente para a transformação educacional no país faz-se muito válido, uma vez que a mesma auxilia os discentes a desenvolver habilidades que, como defende Nussbaum (2015), embora importantíssimas para a formação de um ser humano são ordinariamente reprimidas, causando lacunas educacionais que afetam negativamente os alunos e suas experiências fora do mundo escolar, tornando-os, muitas vezes, pessoas que não possuem traços de empatia e se mostram limitados nas relações interpessoais.

4. Referências 
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Competências gerais da educação básica. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 21 de abril de 2024. 
BRUM, Eliane. A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2006. 
NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades. Tradução Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015. 


por Jaqueline Minosso, acadêmica no 2º nível de Letras UPF.

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