Nunca fiz aula de natação aos 4 anos como muita gente por aí. Muito pelo contrário, fui ensinada a temer tudo que pudesse ser perigoso demais, e claro, senti muito medo em tudo que pudesse me deixar fora do conforto. Como nunca tive aulas, um instrutor ou algo do tipo, passei tempo demais sem aprender a nadar. Tem gente que diz que é mais fácil aprender quando se é novo, e que depois que a gente cresce tudo fica mais difícil. E faz sentido, né?Com a ausência de todas as lembranças que podemos juntar com o tempo. As 20 tentativas desgastantes que se tornaram falhas. O afogamento aos 15, aos 20 e aos 26 e meio. As inúmeras pessoas que tentaram te explicar como se nada fosse, mas que perdiam a paciência quando você respondia que não conseguia. As “nossa mas é tão fácil”, que vinham acompanhadas de uma resposta sussurrada de “nunca encontrei esse fácil que me juram que existe”. Usei boia por muito tempo, até que percebi que estava ficando grande demais pra me esconder atrás dela. Tentei usar aquelas de colocar nos braços, mas nunca achei uma que ficasse boa o suficiente nos meus, me apertavam e me angustiavam tanto a ponto de eu achar que aquele jeito era o correto de uso. Mas até hoje, tento cobrir as marcas que aqueles erros me deixaram. Já tinha desistido de aprender a nadar, se eu tentava mergulhar e me afogava, pra que correr o risco? Se eu usava todos os recursos possíveis e ainda acabava afundando, qual a lógica de pular?
Até sentir delicados toques nas minhas costas quentes, suaves carinhos no contorno do meu corpo que terminavam se enrolando em meus cabelos. Um aconchego me tomou, me fez flutuar. navegar? afogar? água. sem ar.
as digitais que me tocavam foram substituídas pelas ondas que gelavam meu corpo quente. eu não sabia nadar e lá estava eu, com o corpo completamente submerso em líquidos salgados. meus olhos derramando oceano, o embalo das ondas lacrimejando. Tateei por segurança, encontrei profundidade. já não sei mais se o oceano que é fundo ou minha intensidade que me faz ficar sem chão.
meus braços anseiam pela superfície, meu pulmão grita por falta do que falar. não havia quem chamar, não havia também necessidade. eu não sabia nadar, mas também não sabia identificar. até hoje. até agora. até encarar o perigo, revendo aquele rosto que mistura amor com quedas e dor, eu identifico. me identifico como quem caiu, mas também como quem se permitiu estar na borda, na costa, na margem. a queda se torna consequência de um ato de confiança externa, agora eu preciso desse ato de confiança interno. subo, me machucando, me desorganizando, meio desesperada mas também objetiva em não desistir.
sinto meus pés tocarem o raso, e o alívio tocar meu peito.
.
.
.
… cor poente, beijo de sentimento que você sussurra caliente. o sol se põe e vejo tudo, cor poente, por trás desse oceano que tu me mostra em ti.
desculpa, busco terra firme. e sim, eu já sei nadar
por Joice Fagundes dos Santos – IV nível de Letras