Pertencer: o papel da Literatura nos tempos de crise

No dia 6 de novembro de 2024, às 14 horas, aconteceu a abertura do 10º Seminário Nacional e 4º Seminário Internacional de Língua e Literatura que, neste ano, teve como tema Linguagem e Humanidades: modos de pretenc(S)er. O evento acontece a cada dois anos, sendo organizado pelo  Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da  Universidade de Passo Fundo.  

A abertura do Seminário contou com a palestra de Michèle Petit (CNRS/Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne), sobre o tema – Leitura: uma experiência subjetiva e o texto escrito¹. Michèle  é reconhecida internacionalmente por suas pesquisas e contribuições no campo da leitura, especialmente na formação de jovens leitores. De origem francesa, antropóloga, versa também em suas pesquisas sobre a leitura em tempos de crise. Foi pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centre National de la Recherche Scientifique. É autora de vários artigos e diversos livros, dentre os quais destacamos o último traduzido para o português Somos animais poéticos: a arte, os livros e a beleza em tempos de crise

Inicialmente, a autora explicou que, em quase todas as partes do mundo, vivemos uma avalanche de tragédias, como terremotos, pandemias, secas, colapsos econômicos, as quais minam não só as bases da sociedade, mas também  a psique das pessoas envolvidas. Diante desse cenário caótico, caberia perguntar qual é o papel da Literatura nessas situações. 

Petit lembra que a criança tem um senso muito aguçado de pertencimento ao mundo. Mais do que fazer parte da família, do grupo de amigos, a criança pertence ao mundo. Nesse sentido, lembra que as histórias de família, narradas de geração em geração, envolvem a natureza, pois sempre têm um rio, um lago, uma montanha, uma árvore, onde se passaram os eventos que são guardados nas lembranças. Essa harmonia com a natureza e esse senso de pertencimento geram bem-estar físico e mental. 

Assim também, a autora ressalta a importância da música, do som das palavras, da entonação de cada língua e da sensibilidade da criança a essa aprendizagem. A vida agitada e a busca pela sobrevivência tiraram dos pais o tempo disponível para contar histórias, brincar, cantar e construir a visão de mundo dos pequenos, incluindo aí o ambiente, a natureza. A língua é aprendida, então, apenas para o uso utilitarista de dar nome às coisas, de comunicação e não de criar, imaginar, constituir-se enquanto seres humanos e seres do meio. Falta a palavra dita por brincadeira, provérbios, a palavra sem sentido imediato, o canto, o riso, a palavra imaginativa, para construir cenários imaginados e narrados. 

A literatura, segundo Petit, tem esse potencial de nos recordar de nossas memórias, de nossos contatos com a natureza em uma atividade imersiva. Na tradição oral, nas lendas e fábulas, a criança reconhece e valoriza o mundo. Através do canto de sua cultura, a criança se sente parte do meio ambiente e não dona dele. Essas tradições orais têm se perdido em um mudo técnico, objetivo, de relatórios, em que não há tempo para o poético, para nos sentirmos parte do mundo, do subjetivo, do fingimento, das metáforas. 

Mais além, a antropóloga explica que ao perder um local, uma terra, perdem-se as espécies, mas também perde-se a língua, as histórias e a cultura do povo. A criança tem naturalmente este amor ao mundo, ela é, por excelência,  exploradora, pesquisadora. A literatura pode nos ajudar a retomar esses laços com a natureza, de sonho com o futuro, de reconstrução. Assim, a autora ressalta a importância de levar as crianças para fora dos muros da escola, para fazer uma leitura de mundo que precede, conforme Freire, a leitura da palavra. 

Por fim, nestes tempos de leitura rápida e superficial, é preciso orientar o olhar dos jovens para uma leitura efetiva, com um olhar profundo, para o belo, o que contribuirá para a saúde mental, afinal, somos animais poéticos. É preciso retomar a poesia do dia a dia. E, você, já leu alguns versos hoje?

¹ Tendo em vista que a palestrante foi acometida por questões de saúde, seu texto foi proferido pela professora Dra. Fabiane Verardi.  A transmissão está disponível em https://youtube.com/live/v4lfkD9PEZs?feature=share


por Rafaelly Andressa Schallemberger, 
doutoranda no Programa de Pós Graduação em Letras UPF

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