A experiência de uma criança imigrante ao chegar em um novo país apresenta desafios profundos, tanto emocionais quanto culturais. A criança, de repente, se vê inserida em um contexto desconhecido, no qual a língua, os costumes e as dinâmicas de interação social diferem amplamente do que lhe era familiar. Esta transição envolve não apenas a necessidade de adaptação à nova realidade cultural, mas também a preservação de sua herança cultural, constituindo um dilema central: como integrar-se plenamente à nova sociedade sem comprometer ou perder suas raízes culturais? Homi K. Bhabha, em sua obra O Local da Cultura, destaca que a cultura não é algo fixo, mas um espaço de negociação onde as identidades culturais se encontram, se interpenetram e se reconfiguram, levando ao surgimento de um novo espaço híbrido. A criança imigrante, nesse espaço de negociação, vive constantemente nesse “entrelugar”, no qual as fronteiras culturais são contestadas e reconstruídas continuamente.
Um dos maiores desafios enfrentados pela criança imigrante nesse processo de adaptação é a barreira linguística. A comunicação, que antes ocorria de forma natural e espontânea, passa a exigir um esforço constante de aprendizado. O novo idioma é não apenas um meio de compreender o ambiente escolar e social, mas também uma chave para construir relações interpessoais e assimilar as normas e valores implícitos daquela sociedade. No entanto, o aprendizado de uma nova língua frequentemente vem acompanhado de um receio de que a língua materna, e por extensão, a própria identidade cultural, seja gradualmente esquecida ou desvalorizada. Essa tensão entre o desejo de pertencer ao novo ambiente e o medo de assimilar-se completamente revela o caráter delicado do processo de bilinguismo. Bhabha explica que essa tensão entre o desejo de pertencimento e a preservação da identidade cultural reflete o conceito de hibridismo, no qual as culturas não se absorvem, mas se misturam, criando um novo espaço cultural, o “local da cultura”. Esse processo pode ser desafiador, pois envolve a constante negociação entre o novo e o antigo, o integrado e o preservado (Bhabha, 1994).
Além da questão linguística, a criança imigrante encontra-se em um conflito constante entre as normas e expectativas sociais da nova cultura e aquelas que regem o ambiente familiar. No contexto doméstico, seus pais e parentes podem manter costumes tradicionais, valores e modos de vida que contrastam significativamente com aqueles observados no ambiente escolar ou em suas novas interações sociais. Essa dualidade de normas culturais pode gerar um estado de conflito identitário, no qual a criança se vê confrontada pela pergunta: “Qual é o meu lugar neste novo contexto cultural?” Bhabha afirma que essa situação cria um espaço de “hibridação”, no qual a criança se posiciona “entre mundos”. O processo de adaptação envolve negociar essas diferentes expectativas culturais e comportamentais, muitas vezes de maneira tensa e conflituosa, resultando na construção de uma identidade que transita entre essas duas esferas culturais.
Outro aspecto central nessa dinâmica é o sentimento de pertencimento, que, para a criança imigrante, se torna uma luta diária. Muitas vezes, o processo de inserção em uma nova sociedade é marcado pela exposição a preconceitos ou pela sensação de ser diferente em razão de características como aparência, nome ou hábitos. Esses fatores podem gerar insegurança, resultando em uma tentativa de “invisibilidade” ou em uma busca acelerada pela adaptação a fim de evitar a exclusão. No entanto, ao tentar se integrar, a criança pode experienciar uma tensão interna ao sentir que está, de alguma maneira, traindo ou abandonando sua cultura de origem. Esse dilema da inclusão transcende a esfera social externa e adentra o campo das emoções internas, estabelecendo um conflito entre o desejo de pertencimento e a preservação das suas raízes culturais. Bhabha (1994) sugere que o local da cultura é justamente o espaço de hibridização cultural, onde as diferenças são mantidas, mas ao mesmo tempo negociadas, oferecendo à criança imigrante a possibilidade de atuar como uma mediadora cultural. Nesse processo, ela se torna parte de uma “nova história” cultural, uma história que é, ao mesmo tempo, de resistência e adaptação.
O papel da escola, dos colegas e da comunidade é fundamental no processo de adaptação da criança imigrante. O ambiente escolar pode atuar tanto como um espaço de acolhimento e promoção da diversidade quanto como um local de exclusão e discriminação, dependendo de como a instituição lida com a pluralidade cultural. Escolas que adotam políticas pedagógicas voltadas à inclusão e ao multiculturalismo, valorizando as diferentes culturas representadas em seu corpo discente, possibilitam que a criança imigrante enxergue sua própria diferença não como uma desvantagem, mas como um valor acrescentado ao ambiente escolar. O respeito e a valorização da multiculturalidade não apenas facilitam a adaptação, mas também promovem um senso de pertencimento, fundamental para o bem-estar psicológico. Em contraste, quando essas questões são ignoradas ou minimizadas, a escola pode se tornar um lugar de marginalização, onde a criança se sente isolada e pressionada a viver “entre dois mundos”, sem um ponto de ancoragem cultural.
O processo de adaptação cultural muitas vezes leva a criança imigrante a uma profunda reflexão sobre sua identidade. Ao transitar entre a cultura de origem e a nova cultura, ela desenvolve competências interculturais que lhe permitem não apenas se integrar ao novo ambiente, mas também atuar como uma mediadora entre culturas distintas. Bhabha sugere que o “local da cultura” é justamente o espaço onde as culturas se encontram, se mesclam e geram uma nova perspectiva cultural. Nesse espaço de hibridização, a criança imigrante pode ser vista como uma mediadora entre culturas, desempenhando um papel ativo na criação de uma nova identidade que transcende a dicotomia entre as culturas de origem e a nova cultura.
Assim, a criança imigrante em um território estrangeiro é permeada por desafios, mas também oferece oportunidades significativas de desenvolvimento pessoal e social. O dilema entre adaptação e preservação cultural é complexo, e o apoio adequado das instituições, da família e da comunidade pode ser decisivo para que a criança não apenas encontre seu lugar, mas também se torne uma “ponte viva” entre culturas. Sua capacidade de transitar entre diferentes contextos culturais não apenas enriquece sua experiência pessoal, mas também contribui para a criação de sociedades mais inclusivas, que valorizam a diversidade como uma força transformadora.
Referência:
BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliane Livia Reis, Gláuce Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
por Felix Elias Cardoso Quintus, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação-PPGEdu/IHCEC/UPF