Romeu e Julieta ou Julieta e Romeu

Dependendo do contexto, até queijo com goiabada vira literatura: Romeu e Julieta. Acredita-se que a união particular entre queijo e goiabada veio com os imigrantes portugueses na época dos engenhos, no período colonial. O nome dado a essa receita faz referência à tragédia shakespeariana. No entanto, o nome dado a essa junção deriva de uma campanha publicitária da turma da Mônica, da década de 60. Um alimento tradicional, não subversivo.

Na América do Sul, a goiaba já florescia em tons de verde e amarelo antes mesmo dos primeiros barcos portugueses tocarem a costa. Com o método conservador colonialista, eles aplicaram o açúcar para que a goiaba pudesse ser preservada por muito mais tempo e ser transportada nas longas viagens de navio, daí surge a goiabada. A goiabeira produz frutos uma vez por ano, no entanto, se deturpam seu corpo, através da poda, ela pode produzir mais durante o ano. Nesse ciclo, ela produz frutos indesejáveis, dos quais tem de libertar-se, caso contrário, isso custa-lhe a vida. Seria irracional até para uma planta ser obrigada a sustentar frutos ou seguir o mesmo estilo de poda antiquado dos anos 40, por exemplo, porque, em certa medida, evoluímos e reconhecemos que certas técnicas conservadoras e colonialistas já não se coadunam com a contemporaneidade.

Na receita, Romeu é o queijo e a Julieta é a goiabada. Fosse eu, leitor atento deste enunciado cotidiano, pensaria na sobreposição do queijo à goiabada, pois pode até parecer que as leis culinárias são feitas para substantivos brancos, para beneficiar outros substantivos brancos. A Julieta, abaixo de Romeu, não tem direito sobre seu corpo sintático. Ela está refém da ordem imposta pela sociedade e replicada por Shakespeare em sua obra. A subversão da ordem poderia ter um impacto direto nos substantivos brancos, o que poderia diminuir o poder destes em relação àquela. Em caráter morfológico, ambos têm a mesma posição, são substantivos simples, mas não gozam dos mesmos direitos de ordem. Ora, continuemos a desonrar a goiabada representada por Julieta, ela é doce, delicada e podemos fazer o que quisermos com ela, e, aliás, esse prato se torna enjoativo por causa dela. Diferentemente da personagem de Buarque, feita para apanhar, para cuspir, Julieta é feita para morrer. A violência está contra elas, o vermelho escarlate ressoa no fruto, que se finda na boca em doce sabor enjoativo de hipocrisia culinária.

Em um universo culinário onde Romeu e Julieta transcendem sabor, queijo e goiabada são obrigados a entrelaçar suas histórias desde os tempos dos engenhos coloniais até à modernidade. Neste enlace de sabores e tradições, urge ajustar as proporções dessa receita, pois Julieta, doce e vulnerável, continua a ser mantida em subjugação. Que possamos, então, desafiar e remodelar o papel que lhe é imposto, transformando esta combinação em um símbolo de equidade e liberdade, onde cada bocado é uma narrativa de resistência e renovação.


Por Marcos de Assis, Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras UPF

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