Um passeio pelo bosque de Madame Bovary

Madame Bovary, o magnum opus do escritor francês Gustave Flaubert, é um dos principais romances já escritos. Conhecido como “o romance dos romances”, temos aqui uma obra que estabelece a narrativa realista moderna, quebrando os conceitos estabelecidos no romantismo, com duras críticas à sociedade burguesa da época e com uma personagem feminina que assume o controle e o protagonismo de sua própria história. O presente trabalho busca analisar a obra de Flaubert com o apoio teórico de Umberto Eco em sua obra “Seis passeios pelos bosques da ficção”, principalmente pela questão do tempo narrativo.

A obra começa com Flaubert nos apresentando Charles Bovary, um jovem deslocado, vindo do campo, que ingressa tardiamente nos estudos. É o único momento da história em que vemos um narrador homodiegético (Nós), conforme o primeiro parágrafo, onde Flaubert escreve “Estávamos na sala de estudo, quando o Diretor entrou, seguido de um novato […]”.  A partir daí a história passa a ter um narrador heterodiegético, que relata as dificuldades de Charles em passar no exame de oficial de saúde – ele reprovou na primeira tentativa e somente cinco anos mais tarde conseguiu a aprovação após decorar as questões.

Lentamente vamos acompanhando a história de Charles, que se muda para Tostes e casa-se com Heloise Dubuc, viúva de um oficial de justiça de Dieppe, uma mulher que supostamente lhe traria benefícios financeiros. Porém, seu casamento se torna um inferno, com a Sra. Dubuc controlando sua vida, inclusive como ele deveria se vestir. Ainda enquanto casado, Charles conhece Emma, filha de Rouault, um de seus  pacientes. Ele se apaixona por Emma e suas visitas constantes para verificar o andamento da recuperação do pai Rouault faz com que a Sra. Dubuc descubra que ele se apaixonou por Emma. A viúva o faz jurar que não iria mais visitá-los, e Charles consente.  Algum tempo depois, a Sra. Dubuc acaba sofrendo um golpe e perdendo todo o seu dinheiro, o que acabou levando-a à morte.

Eventualmente, o pai Rouault procura Charles para efetuar o pagamento do seu tratamento, e pede para ele voltar a visitá-los. Ele o faz, sua paixão por Emma se reacende e após o luto de Charles os dois se casam. É somente aqui que Flaubert realmente nos apresenta a personagem principal da obra.

Todo o desenvolvimento da obra é muito lento, mas tudo também é muito bem pensado pela maneira com que Flaubert escreve, focando em detalhes extremamente minuciosos em cada cena. Como Eco (2024, p. 70) cita:

[…] não há dúvida de que as vezes uma grande quantidade de descrição, uma abundância de detalhes mínimos podem ser não tanto um artifício de representação quanto uma estratégia para diminuir a velocidade do tempo de leitura até o leitor entrar no ritmo que o autor julga necessário para a fruição do texto.

É exatamente isso que Flaubert busca: ele quer que nós, leitores, entremos no ritmo que ele julga necessário. A mudança do foco narrativo para Emma transforma completamente a obra, onde Flaubert utiliza outra estratégia apontada por Eco, um flashback, para nos apresentar a personagem e nos explicar o porquê de sua tristeza relatada após o casamento. É aqui que descobrimos que Emma tornou-se uma leitora voraz de romances, fornecidos por uma solteirona que trabalhava no convento onde ela estudara. Foi através dessas leituras que Emma passou a acreditar que na vida ela deveria buscar a felicidade, a paixão e a embriaguez, e que isso seria encontrado após o casamento, como se via nesses romances.

Passamos então a acompanhar o desânimo de Emma, que questiona diariamente o porquê de ter se casado. Um convite para um baile no castelo de Vaubyessard é um acontecimento que transforma a personagem, que vive uma grande experiência digna dos livros que ela lera através das valsas que dançou com um Visconde. Mas ao retornar para sua casa, Emma rapidamente volta a definhar devido a monotonia de sua vida, inclusive adoecendo. Sem saber o que fazer, Charles a leva para consultar com seu antigo mestre, o qual afirma que ela possui uma doença nervosa, cuja solução é uma mudança de ares. Os dois partem de Tostes, e Emma estava grávida.

Aqui começa a segunda parte da história, onde Flaubert utiliza outra estratégia apontada por Eco (2024, p. 82), a hipotipose, “[…] uma forma de demorar-se no texto, e de ‘perder’ tempo, a fim de transmitir a ideia de espaço”, quando realiza a descrição da vila de Yonville-l’Abbaye, local para onde Charles e Emma estavam se mudando. Ele narra de maneira detalhada cada rua e prédio da vila, e depois introduz novos personagens, incluindo o Sr. Léon Dupuis, que rapidamente despertou em Emma um sentimento amoroso.

A história prossegue com Emma dando à luz a menina Berthe, cujo nome foi escolhido a partir de uma lembrança que ela tinha do castelo de Vaubyessard. Mas apesar do nascimento de sua filha, ela não demonstrava muita afeição pela criança. Por outro lado, seu interesse por Léon aumentou, com os dois passando muito tempo juntos, alimentando uma paixão que não chegou a ser consumada porque ele não conseguiu aguentar um amor sem resultados. Léon parte de Yonville, e Emma mais uma vez se afunda em sua depressão. No entanto, a crise dessa vez durou pouco, pois entra na história o Sr. Rodolphe Boulanger, com quem Emma enfim cometeria seu primeiro adultério.

Rapidamente percebemos que Rodolphe é um personagem esperto, cujo único interesse é se aproveitar da fragilidade de Emma e da ignorância de Charles. Ela se apaixona por ele, e aqui Flaubert utiliza mais uma estratégia de tempo narrativo, avançando a história em seis semanas. Durante esse tempo Rodolphe esteve desaparecido, mas ao retornar visita Emma em sua casa e propõe a Charles levá-la para praticar equitação, usando como desculpa os problemas de saúde de Emma. O marido desavisado concorda, entregando sua esposa de bandeja para o galanteador. Foi nesse passeio a cavalo que Emma cedeu e se entregou a paixão que sentia por Rodolphe: “Repetia a si mesma: ‘Tenho um amante! Um amante!’ deleitando-se com essa ideia como com a de uma outra puberdade que a tivesse atingido” (Flaubert, 2007, p. 149).

Por um tempo o romance era tudo o que Emma sonhara, mas logo a realidade voltou a assombrá-la. Rodolphe não tardou a desdenhá-la:

Não tinha mais, como outrora aquelas palavras tão doces que a faziam chorar nem aquelas veementes carícias que a enlouqueciam; de forma que o grande amor de ambos, em que ela vivia mergulhada, parecia diminuir como a água de um rio que era absorvida em seu próprio leitor, e ela percebeu o logo. Não quis acreditar; duplicou a ternura e Rodolphe escondia cada vez menus sua indiferença (Flaubert, 2007, p. 155).

Emma permaneceu mais um tempo se encontrando com Rodolphe, mas logo começou a faltar aos encontros e passou a sofrer com o arrependimento, inclusive se questionando por que não conseguia amar Charles. Ela precisava que algum acontecimento extraordinário despertasse nela o amor por seu marido, e esse acontecimento veio após um pedido do Sr. Homais, o boticário de Yonville. Ele convenceu Charles a realizar uma experiência cirúrgica jamais vista na região:

De fato, Bovary poderia ter êxito; nada afirmava a Emma que ele não fosse hábil e que a satisfação para ela o fato de tê-lo levado a uma iniciativa que aumentaria sua reputação e sua fortuna! Ela bem que gostaria de apoiar-se em algo mais sólido do que o amor (Flaubert, 2007, p. 158).

Em um primeiro momento a cirurgia efetuada por Charles pareceu um sucesso, mas logo o paciente começa a sofrer com muitas dores, sua perna passa a gangrenar e um médico de outra região é chamado para amputá-la. Mais uma vez Emma foi desapontada por Charles, e busca consolo com Rodolphe, recomeçando o romance. Ela decide fugir com ele, mas como era de se esperar, ele desiste no dia em que a fuga aconteceria e abandona Emma, que se desespera e mais uma vez adoece.

Flaubert começa nesse momento a focar em outra característica do realismo, dando ênfase nos problemas financeiros vividos por Charles e Emma. Além das despesas médicas do tratamento de Emma, ela também havia gastado muito dinheiro com presentes para Rodolphe. Lentamente ela se recupera e passa por uma transformação, dedicando-se mais a sua filha e se envolvendo com a religião. Mas essa transformação é abalada quando Charles é convencido a levá-la a um teatro em Rouen, onde durante o espetáculo o casal reencontra Léon.

Rapidamente o sentimento de Emma por Léon desperta e mais uma vez Charles é o responsável por “autorizar” o romance ao permitir que ela assista o teatro mais uma vez, junto com Léon. Os dois vivem um amor intenso, com Emma usando como pretexto aulas de piano para ir uma vez por semana para Rouen para encontrar o seu amante. 

Flaubert controla com maestria o ritmo da história na parte final do livro. O romance de Emma e Léon vai bem por um tempo, mas logo os dois começam a sofrer com a rotina, e os problemas financeiros de Emma começam a assombrá-la. Aqui Flaubert aumenta muito o ritmo da narrativa, mostrando o desespero de Emma em busca de uma solução para as dívidas, mas não conseguindo apoio, nem com seus dois amantes, Rodolphe e Léon. Não querendo encarar a reação de Charles quando tudo o que eles tinham foi condenado a penhora, Emma toma uma decisão drástica:

A chave girou na fechadura e ela caminhou diretamente para a terceira prateleira, de tal forma era bem guiada pela lembrança, pegou o bocal azul, arrancou a rolha, mergulhou a mão e retirando-a cheia de um pó branco pôs-se logo a comê-lo (Flaubert, 2007, p. 271).

Ela se envenena com arsênico, volta para casa, escreve uma carta para Charles e deita-se na cama para esperar a morte. É impressionante nessa parte como Flaubert conduz o ritmo, porque até a cena do envenenamento a história estava muito acelerada, mas todo o sofrimento de Emma até o momento de sua morte é conduzido em ritmo lento, o que dá ênfase ao sofrimento de Emma e de Charles:

Depois, tendo voltado ao lado dela, deixou-se cair no chão sobre o tapete, permanecendo com a cabeça apoiada na beira da cama, soluçando.

– Não chore! Disse-lhe ela. Em breve não te atormentarei mais!

– Por quê? Quem te forçou?

Ela replicou:

– Era preciso, meu amigo.

– Não eras feliz? Foi culpa minha? Contudo, fiz tudo o que pude!

– Sim… é verdade… tu és bom!  (Flaubert, 2007, p. 274)

Emma morre, Charles sofre e após um tempo começa a receber a cobrança de todas as dívidas. Inicialmente ele se esforça para resolver a situação e cuidar de sua filha, mas um dia ele descobre onde Emma guardava todas as cartas que trocara com Rodolphe e Léon, e isso o destrói. Entregue a tristeza, Charles desiste de viver:

No dia seguinte, Charles foi sentar-se no branco do caramanchão. A luz passava pelas grades; as folhas da parreira desenhavam suas sombras na areia, o jasmim perfumava o ambiente, o céu era azul, algumas cantáridas zumbiam ao redor dos lírios em flor e Charles sufocava como um adolescente sob os vagos eflúvios amorosos que lhe inchavam o coração de pesar (Flaubert, 2007, p. 299).

É assim que Flaubert encerra o trágico passeio pelo bosque de Madame Bovary. Conforme Eco (2024, p. 60):

Vamos a um bosque para passear. Se não somos obrigados a sair correndo para fugir do lobo ou do ogro, é uma delícia nos demorarmos ali, contemplando os raios do sol que brincam por entre as árvores e salpicam as clareiras, examinando o musgo, os cogumelos, as plantas rasteiras. Demorar-se não quer dizer perder tempo: com frequência, a gente para a fim de refletir antes de tomar uma decisão.

Encerro o texto com uma citação de James Wood na obra “Como funciona a ficção”, onde ele destaca as características de uma boa prosa, que Flaubert executa com maestria:

Quando falamos de uma boa prosa, raramente comentamos que ela realça o detalhe expressivo e brilhante; que privilegia um alto grau de percepção visual; que mantém uma compostura não sentimental e que se abstém, qual bom criado, de comentários supérfluos; que é neutra ao julgar o bem e o mal; que procura a verdade, mesmo que seja sórdida; e que traz em si as marcas do autor, que embora perceptíveis, paradoxalmente não se deixam ver. Encontramos algumas dessas características em Defoe, Austen ou Balzac, mas todas juntas só em Flaubert (Wood, 2017, p. 47).

Referências
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary: costumes de província. Tradução: Fúlvia M. L. Moretto. São Paulo: Nova Alexandria, 2007.
WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: SESI-SP Editora, 2017.


Por Willian Ribeiro Kressin, 
acadêmico do 2º nível de  Letras – Português e Inglês UPF

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