Sempre centrada, falante e se esforçando para ser uma melhor versão sua em tudo, ela era isso e não podia ver gente boa malcuidada, tinha um problema com querer cuidar de gente que nunca foi bem tratada. A questão é que ela não tinha percebido que estava vulnerável e que qualquer ventinho poderia balançar suas estruturas tão bem concretadas e mantidas com cuidado durante muito tempo.
Eis que um vento suave começou a soprar, manso e expansivo, um vento que não queria invadir e que nunca pediu para passar nem perto daquela construção, mas que lhe chamou a atenção, lhe atraiu e criou uma dependência, mexeu com um lado selvagem e intenso dela que era muito, muito difícil de controlar. Estava ciente que esse vento a havia abalado, mas por mais perigoso que isso representasse ser, era bom, era maravilhoso, o coração tinha duplicado as batidas e o frio na barriga estava lhe consumindo de uma forma jamais vista antes.
Ela sabia que não havia nada, nunca poderia haver, aquele vento não tinha interesse em ficar e ela se sentia até inconveniente se chegando dia a dia, uma mulher que sempre se deu valor e sabia o que queria e o que deveria ser feito simplesmente se deixou levar pelos ímpetos primitivos dos quais ninguém pode fugir. Ela destravou a boca os pensamentos se permitiu sonhar com o impossível e viver na cabeça uma aventura que era sabido que não poderia acontecer no mundo real. Sofria em silêncio, atormentada pelo medo de tudo sair do controle, mas ao mesmo tempo tecendo mil possibilidades na sua imaginação, era sabido que deveria se afastar, talvez não fosse preciso se afastar mas recuperar as rédeas do seu próprio pensamento, mas era um vento cativante, diferente, especial. Era aquele o melhor momento do dia, aquele em que ela se permitia voar, falar o que lhe vinha à cabeça e deixar o botãozinho do foda-se ligado, mesmo sabendo que tudo isso só piorava sua confusão intelectual.
Era um labirinto o seu coração agora, sua mente permeava a loucura e ela se via presa nisso enquanto o vento, tendo noção das carências dela, ficava inerte ou se movia o mínimo necessário para não a deixar triste. Ele sabia que nada havia ali e na primeira vez que soprou um pouco mais forte já se deu conta da bagunça que fez nos sentimentos dela.
Sua convicção da loucura existia e isso a consumia ao mesmo tempo ela não conseguia parar de querer sentir aquele sopro, aquele fôlego, aquele respiro, o que tinha que fazer ela sabia, mas estava sem forças e a mínima vontade de sair daquela bolha que existia somente na sua cabeça no seu coração e nas suas entranhas. Tudo tão redundante, tão fantasioso, mas tão intenso, uma intensidade que só ela sentia e da qual cada dia era mais difícil fugir.
por HURICANE.