Introdução
O termo “kabuverdianu” é adotado neste ensaio em substituição à expressão tradicional “crioulo cabo-verdiano”, como uma escolha política, simbólica e identitária. Essa escolha visa descolonizar a forma como a língua é nomeada e reconhecê-la como uma língua plena. Beckert (2020) argumenta que a adoção do termo kabuverdianu é uma forma de resistência à hegemonia do português, reafirmando o valor e a legitimidade da língua nacional.
O objetivo deste ensaio é refletir sobre os efeitos práticos da diglossia em Cabo Verde, observando como ela se manifesta nas interferências linguísticas no uso do português por falantes cuja primeira língua é o kabuverdianu. Para isso, parte-se de uma discussão teórica sobre a diglossia e relacionam-se essas ideias com exemplos concretos de uso linguístico que evidenciam as consequências da ausência do kabuverdianu nos espaços formais, sobretudo na educação.
A diglossia cabo-verdiana: fundamentos e funções sociais
O conceito de diglossia, tal como proposto por Ferguson (1959 apud Beckert, 2020), descreve a coexistência de duas variedades linguísticas em uma mesma comunidade: uma variedade “alta”, usada em contextos formais e prestigiados, como discursos políticos, sermões religiosos, noticiários, tribunais, ensino formal e comunicação oficial do governo; e uma variedade “baixa”, utilizada no cotidiano, em conversas familiares, entre amigos, nas feiras, nos mercados e em outras situações informais.
Em Cabo Verde, o português é a variedade “alta”: é a língua da educação formal, da imprensa escrita, da administração pública, dos processos judiciais e dos documentos oficiais. O kabuverdianu, por sua vez, é a variedade “baixa”, predominante na oralidade, nas relações afetivas e comunitárias, nas músicas populares, nas narrativas orais e na interação social cotidiana.
Dados de uma pesquisa realizada por Beckert (2020) sobre o emprego da língua nativa e/ou do português em Cabo Verde revelam que 96% dos participantes foram alfabetizados unicamente em português, mesmo que 85% deles tivessem o kabuverdianu como primeira língua. Isso evidencia a exclusão sistemática do kabuverdianu das esferas formais e seu impacto direto na experiência escolar, provocando sentimentos de insegurança linguística, dificuldades de aprendizagem e desvalorização da identidade cultural. Como diz uma das entrevistadas: “às vezes, o aluno sabe o conteúdo, mas não sabe explicar em língua portuguesa por medo de errar” (Beckert, 2020, p. 1235).
Esse estigma se manifesta no preconceito linguístico contra quem fala português com sotaque kabuverdianu, sendo comum a ridicularização ou a repreensão de alunos que tentam se expressar em português com influências de sua língua materna. As escolas, em muitos casos, perpetuam essa desvalorização, adotando conteúdos eurocêntricos e desconsiderando a realidade cultural dos estudantes.
Ainda que experiências de ensino bilíngue tenham sido implantadas de forma experimental, como nas aulas-piloto iniciadas em 2013/2014 sob orientação de A. J. Cardoso, elas ainda não configuram política pública consolidada (Rosa, 2017 apud Beckert, 2020). Ademais, como observa Velupillai (2015 apud Beckert, 2020), línguas crioulas como o kabuverdianu têm sido historicamente vistas como distorções das línguas coloniais, o que reforça seu baixo prestígio social.
Exemplos práticos de interferências linguísticas: marcas da diglossia
A interferência do kabuverdianu no uso do português é uma das manifestações mais visíveis da diglossia em Cabo Verde. Segundo Czopek (2021, p. 66) tais transferências linguísticas ocorrem em níveis diversos:
- Transferências de forma (lexical e sintática): “festa de bruxa” (para se referir à festa a fantasia), “sala de professor” (para se referir à sala dos professores), “porta-moeda” (para se referir à carteira), “motor variau” (para dizer que o motor estragou), “prender” (para referir aprender).
- Transferências de significado (semântica): “vou tomar férias” (por vou tirar férias), “tem barco” (por há barco), “tomar estágio” (por fazer estágio).
Esses exemplos demonstram uma tentativa inconsciente de traduzir estruturas do kabuverdianu para o português, criando expressões que, embora muitas vezes consideradas “erradas” pela norma culta, fazem sentido para os falantes locais. Tais manifestações devem ser vistas não como desvios, mas como expressões da convivência linguística e da resistência cultural cabo-verdiana.
Conclusão
A diglossia em Cabo Verde reflete uma assimetria histórica e funcional entre o português e o kabuverdianu. O português domina os contextos formais e de prestígio, enquanto o kabuverdianu permanece confinado à oralidade informal, ainda que seja a língua de maior alcance na sociedade cabo-verdiana. A marginalização do kabuverdianu não é apenas uma questão linguística, mas também social e política, com impactos diretos na educação, na autoestima e na identidade nacional.
Reconhecer as transferências linguísticas como expressões do bilinguismo e não como erros é essencial para avançar rumo a uma política educacional mais inclusiva. Valorizar o kabuverdianu como língua de instrução, investir na formação de professores bilíngues e consolidar o uso do Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-verdiano (ALUPEC)1 como sistema de escrita são passos urgentes para a superação da diglossia e para a afirmação da identidade linguística de Cabo Verde.
- ALUPEC é um sistema ortográfico elaborado por Manuel Veiga em conjunto com o Grupo de Padronização da Língua Cabo-verdiana, no ano de 1994. Oficializado em 2009, após aprovação experimental em 1998, tem como propósito principal a padronização da escrita da língua cabo-verdiana, respeitando suas diversas variantes linguísticas. Fundamentado na correspondência direta entre fonemas e grafemas, o ALUPEC busca facilitar a leitura e a escrita da língua materna do país, ao mesmo tempo em que contribui para a valorização e consolidação da identidade cultural cabo-verdiana. ↩︎
Referências
BECKERT, Ronny. Kabuverdianu no sistema educativo em Cabo Verde e o seu status em relação ao português. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 23, n. 4, p. 1224–1247, out./dez. 2020. Disponível em: https://revistas.ufpel.edu.br/index.php/rle/article/download/19025/12038. Acesso em: 17 maio 2025.
CZOPEK, Natalia. Influências interlinguísticas no léxico do português usado na ilha de São Vicente, Cabo Verde. Études Romanes de Brno, Brno, n. 1, p. 57–72, jan. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.5817/ERB2021-1-4. Acesso em: 17 maio 2025.
por Elber Amado Almeida Lopes, acadêmico de Letras UPF e bolsista de Iniciação Científica CNPQ