A música é a língua materna de Deus

Em seu livro “Sombras da água”, Mia Couto escreveu: “A música é a língua materna de Deus”. Na turnê “Caetano & Bethânia”, os artistas, em uma alegoria de resistência, de caminho e de lugar, abraçam o discurso do autor, mostrando que é mesmo um milagre o ao vivo da voz. Caetano e Bethânia apontam a arte, a considerar a música e a literatura, como um genuíno lugar de pronúncia, de visibilidade do que pode uma linguagem devotada e de poder vocacionado e espiritual.

No palco, Caetano e Bethânia nos dão a compreensão crua do que é estar no mundo; nos fazem descobrir que é possível reconhecer a angústia e o desconcerto como linguagens que nos atravessam com a força daquilo que é um irremediável esplendor; nos mostram que a beleza é uma emoção. Com o ar cristal cortante da voz, Caetano e Bethânia entoam o canto de uma agonia limpa e lavada naquela beleza rara que é a de se saber inevitavelmente vivo e morto.

Para além da estética, o repertório do espetáculo remonta à memória: a cultura, enquanto ferramenta de permanência e de pertencimento, é a memória de que todo ofício é lida de vida, é a lembrança daquilo que é essencial a um povo e que não deve ser esquecido. A longevidade de Caetano e de Bethânia, em seus respectivos 82 e 78 anos, e as diferentes gerações presentes no show dizem respeito à longevidade da arte – e como ela resiste ao longo do tempo.

Ao abrir a apresentação com a canção “Alegria, alegria”, Caetano e Bethânia reforçam que o papel da arte se faz presente em se tratando da preservação da memória de um país, a crer na luta perante a ditadura e na inteligência perante a censura. Demais músicas presentes no repertório, como “Reconvexo”, “Vaca profana” e “Tropicália”, denotam que a música é, efetivamente, uma forma de expressão universal, superando barreiras que, no período em que foram compostas, pareciam ser intransponíveis. Em função disso – da potência musical e humana frente ao cerceamento – que Mia Couto escreveu: “A música é a língua materna de Deus. Foi isso que nem católicos nem protestantes entenderam: Que em África, os deuses dançam. E todos cometeram o mesmo erro: Proibiram os tambores”.


por Gabriela Breunig Salvador, acadêmica do Nível I da Letras UPF

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