A genialidade condiz com o moralmente correto?
Escrever sobre a morte é entrar em um caminho difícil. A morte, a princípio, só pode ser sentida por quem é diretamente afetado por ela. Assim, todos os dias, milhares de pessoas morrem e suas mortes não serão citadas nem lembradas por quem não os conheceu em vida. Nada além de um “ele era uma boa pessoa” ou “ela tinha tanto para viver”.
No entanto, ao escrever sobre alguém de forma a congelar sua vida e a intensidade de seu ser no papel – de modo que a cada leitor se pergunte se a morte é, de fato, justa -, bom, esse é um caminho infinitamente mais complicado.
Gosto de pensar que Truman Capote percorreu essa segunda estrada ao escrever A Sangue Frio, a fim de mostrar para o mundo que vidas de uma pequena cidade, mais “faraway” do que “midway”, também importam. Para mim, Capote envolve o leitor com o personagem, nos faz imaginar como teriam sido suas histórias, refletir sobre efemeridade da vida e como a morte é a única coisa que o homem não consegue evitar. Como o parágrafo da alegria de Nancy e Kenyon, que termina em “esta foi a última vez que vi os dois… como eu disse nada fora do comum”
Da mesma forma, outra escolha perfeita de narrativa é a atenção aos detalhes dada pelo autor. Passamos a entender as vidas, motivações e sonhos dos personagens – suas rotinas, seu amores e dificuldades. Uso como exemplo o Perry: cheguei a sentir que o conhecia melhor que a mim mesma, cheguei a tentar prever quais seriam suas próximas ações durante o livro.
Porém, as mesmas características que tornam a escrita ser revolucionária são discutidas quando entramos na esfera do adequado. Questiono-me se saber tanto- e tão profundamente – sobre um, sobretudo, assassino é a melhor narrativa, e não apenas uma forma de vender o livro como um caso policial investigativo. Ou ainda, se citar a narração da morte de uma família pelos olhos do assassino seja moralmente aceitável, até jornalisticamente correto.
Mesmo que minha resposta para os questionamentos acima seja “não”, ainda preciso reconhecer a genialidade da escrita do livro.
Capote não se preocupava com as questões discutidas no jornalismo atual, como, por exemplo, evitar dar fama e visibilidade a quem comete atrocidades contra a vida humana. Por isso, acredito que seu livro não seria bem aceito e creditado se fosse lançado nos dias de hoje. Afinal, devemos lembrar que o moralmente correto está inserido em um tempo, espaço e contexto específicos. Assim, vale ao Capote agradecer que seu livro não foi escrito na época do Twitter.
por Júlia Berghetti Xavier, acadêmica do curso de Jornalismo UPF