Editorial – Alfabetização funcional: uma questão coletiva

Os dados do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgados no início de maio, escancaram um drama silencioso e persistente: 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos continuam sem compreender plenamente o que leem e escrevem. Em mais de duas décadas, o Brasil avançou lentamente: de 40% de analfabetos funcionais em 2001 (quando feito o primeiro levantamento) para os atuais 29%. Nos últimos seis anos, a estagnação revela o tamanho do desafio educacional que enfrentamos e, também, nos faz pensar que, na educação, a pandemia ainda não acabou.

Os dados são ainda mais alarmantes quando observamos que 12% das pessoas com diploma universitário também se enquadram nessa condição. Isso nos força a reconhecer que o problema não se limita à educação básica: ele atravessa toda a estrutura educacional do país, inclusive o ensino superior. É necessário, com urgência, discutir esse tema nos cursos de formação de professores. E não apenas nas licenciaturas em Letras, mas em todas: História, Matemática, Geografia, Ciências Biológicas, Pedagogia, Artes. Os futuros professores – e os professores destes – precisam compreender que o ensino da leitura e da escrita não é tarefa de uma única área. 

Os números do Inaf também demonstram os abismos regionais e geracionais que marcam o país: enquanto 16% dos jovens de 15 a 24 anos são analfabetos funcionais, entre os adultos de 50 a 64 anos esse índice salta para 51%. No Nordeste, quatro em cada dez pessoas vivem nessa condição. É preciso investir em programas específicos de educação de jovens e adultos, em diálogo com os contextos locais e com políticas que articulem estados, municípios e a sociedade civil.

Pela primeira vez na pesquisa, o analfabetismo digital também nos alerta para a necessidade crescente de todo o sistema educacional se adequar para esse universo. Preencher um formulário eletrônico, mandar um e-mail na linguagem correta, procurar a informação em local confiável: fazer o básico ainda é complexo. Não à toa, as armadilhas feitas por golpes cibernéticos, ou mesmo os “desafios” disseminados entre adolescentes seguem fazendo vítimas e, em alguns casos, ceifando vidas.

O quadro descrito pelo Inaf não deve ser naturalizado e nem ser tema de debate apenas no calor momentâneo da divulgação de levantamentos deste tipo. Para além da óbvia indignação, ações e compromissos devem ser postos em prática por todos. Se a leitura é um ato coletivo, que se constrói no convívio com o outro, cada um precisa assumir o seu protagonismo neste contexto. A responsabilidade é coletiva. Por isso, ao prosseguir com o compromisso de fomentar a produção textual criativa, Letrilhando faz a sua parte em mais esta edição.

Boa leitura.


Por Wagner Lenhardt, em nome da Equipe Letrilhando

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