Tanto na língua portuguesa brasileira quanto na língua inglesa, ocorrem fenômenos fonéticos atinentes à posição da glote na realização de fonemas, o que redunda no vozeamento ou não-vozeamento de determinados segmentos. Nesse sentido, ambas as línguas apresentam regras próprias de vozeamento – cada uma com suas particularidades específicas. Assim, não apenas convém aclarar as prescrições relativas a elas, mas também considerar como esse processo se dá de maneira prática, na interação interpessoal, a fim de que se possa avaliar se há permutação dessa norma no discurso de falantes de língua secundária (L2) e, se houver, quais seriam as aparentes causas de sua ocorrência. Ademais, com respaldo na tese da doutora Carina Silva Fragozo, explicitar os casos em que há incorporação dessas regras por falantes de L2 é imprescindível para destacar o nível de influência da língua materna (L1) na elaboração do falar.
É fundamental apontar, em primeiro lugar, em que consiste a assimilação de vozeamento e como ela ocorre especificamente em ambas as línguas. Dessa forma, pode-se defini-la um processo que se dá na extensão de uma propriedade – como nasalidade e vozeamento – de um segmento para outro adjacente, considerando ainda que pode acontecer de maneira progressiva ou regressiva (Fragozo, 2017, p. 51).
Por um lado, na língua portuguesa do Brasil, quando em posição de coda, a fricativa alveolar / dental desvozeada /s/ é alvo de um processo de assimilação de vozeamento se seguida de consoante vozeada ou vogal, já que a natureza desta é essencialmente sonora. Prova disso, por exemplo, são as palavras te[s]to, a[s] construções, me[z]mo e de[z]denho. Fica evidente, portanto, que, no português brasileiro, há assimilação regressiva, uma vez que ocorre um espraiamento do traço de um segmento para outro antecessor. De acordo com Lombardi (1999), esse tipo de assimilação é avaliado como um processo banal nas línguas do mundo, o qual é decorrente do contexto seguinte e acontece de modo sistemático.
Cabe salientar, assim sendo, que, nos primeiros dois vocábulos destacados, o fonema /s/ aparece seguido das oclusivas não-vozeadas [t] e [k], o que configura a assimilação regressiva e, por conseguinte, a produção desvozeada dessa fonema nesse caso. De maneira análoga, nas palavras remanescentes, pelo fato de virem seguidas das consoantes vozeadas [m] e [d], o /s/ “se realiza de forma vozeada”. Entende-se, então, que: “quando a fricativa antecede uma consoante não vozeada, é produzida como [s] (ou seu alofone [ ʃ ], em dialetos como o carioca), quando antecede uma consoante vozeada ocorre como [z] (ou seu alofone [ʒ]),e quando antecede uma vogal ocorre sistematicamente como [z]”. (Fragozo, 2017, p. 53)
Por outro lado, na lígua inglesa, antiteticamente à portuguesa, cabe primeiramente a análise dos casos de ocorrência das fricativas [s] e [z] em final de palavra, tendo em vista que, nesses casos, manifesta-se uma astúcia fonológica específica: a distinção semântica. Nesse contexto, seguem exemplos extraídos de Fragozo (2017, p.54):
a. bus [bʌs] ônibus
buzz [bʌz] zumbido
b. fence [fɛns] cerca
fens [fɛnz] brejo
Ao considerar essa especificidade, é preciso deixar claro que, na lígua inglesa, a depender do contexto, pode haver tanto uma assimilação regressiva – como na LPB – quanto uma progressiva, esta foco de análise aqui. Assim, ocorre a permutação da consoante fricativa alveolar desvozeada [s] pela vozeada [z] quando antecedida de segmento vozeado, o que configura a assimilação progressiva. Nesse sentido, apresentar-se-ão exemplos extraídos de Yavas (2006, p. 63) para explicitar os casos em que se manifesta esse tipo de assimilação: morfema de plural, caso genitivo e 3a pessoa do Simple Present.
Plural Caso Genitivo Simple Present
a. [s] cats [kæts] [s] Jack’s [s] s/he jumps
b. [z] dogs [dɔgz] [z] John’s [z] s/he runs
Infere-se, dessa forma, que, produz-se a fricativa [s] quando precedida de segmentos não-vozeados e [z] quando precedida de segmentos vozeados. Ademais, é imprescindível considerar, por fim, que a assimilação progressiva é restrita – única e exclusivamente – aos três contextos morfológicos citados.
Em último lugar, convém avaliar se, de fato, falantes brasileiros de L2 incorporam essa regra de assimilação progressiva própria do Inglês, ou se há influência da L1 a ponto de ela passar completamente despercebida. Para tanto, considerar-se-ão os seguintes exemplos:
a. Los Angeles is a beautiful city. Los Angeles é uma cidade linda.
b. Las Vegas is a amazing place. Las Vegas é um lugar incrível.
Assim, tanto em (a) quanto em (b), a tendência de um falante brasileiro seria utilizar a assimilação regressiva em detrimento da progressiva, resultando numa dissonância quanto à prosódia nativa dos EUA. No caso, pronunciar-se-ia a fricativa alveolar vozeada [z] no lugar da desvozeada [s], porquanto o [s] é sucedido de um segmento vozeado, [a] e [v] respectivamente.
Infere-se, portanto, que falantes do português brasileiro, ao exprimirem-se em inglês, estão suscetíveis a aplicar inconscientemente uma regra própria de sua língua materna em detrimento da da L2, o que não culmina em um “erro” ou “desvio”, mas apenas em uma diferença – que reafirma a asserção de que a língua é um organismo vivo e heteróclito.
Referências
FRAGOZO, Carina Silva. Aquisição de Regras Fonológicas do Inglês por Falantes de Português Brasileiro. São Paulo, 2017. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-21122017-124449/pt-br.php. Acesso em: 14 set. 2022.
LOMBARDI, L. Positional faithfulness and voicing assimilation in Optimality Theory, in Natural Language and Linguistic Theory 17, 1999, 267 – 302.
YAVAS, Mehmet. Applied English Phonology. Malden: Blackwell Publishers, 2006. 245p.
Lucca Marchiori Paiz, acadêmico de Letras