No início deste mês de maio, as redes sociais fervilharam após o anúncio da nova integrante da Academia Brasileira de Letras: Miriam Leitão. Conhecida jornalista da Globo News, passou a integrar a cadeira de número 7, no lugar do finado cineasta Cacá Diegues. Diante das controvérsias levantadas nas redes sociais em relação à eleição da ABL, é válido entender os critérios que guiam a escolha dos ocupantes dessas cadeiras tão prestigiadas.
Fundada em 1897, inspirada numa instituição semelhante que já existia na França, a Academia Brasileira de Letras (ABL) surge a partir da reunião de influentes escritores da época com o intuito de preservar a língua portuguesa e a literatura brasileira. A história da Academia foi iniciada por nomes como Machado de Assis — eleito o primeiro presidente e considerado presidente perpétuo —, Lúcio de Mendonça, Olavo Bilac e Graça Aranha. Inicialmente, era composta por trinta membros, número que foi aumentado para quarenta e segue até hoje. Somente brasileiros natos podem fazer parte como membros da ABL. Cidadãos estrangeiros podem ocupar cargos de sócios correspondentes, cuja função é apenas a de assistir às reuniões e auxiliar nas atividades culturais realizadas pela Academia (palestras, comunicações, remissão de trabalhos), sem direito a voto ou mesmo a registro de presença.
Como o próprio regimento da ABL cita, uma vez eleito, o membro ocupa a cadeira de forma vitalícia e irrenunciável. Cada uma das quarenta cadeiras da Academia tem um patrono, que é um dos grandes nomes da literatura brasileira, como José de Alencar, Fagundes Varella, Basílio da Gama, Gonçalves Dias, entre outros tantos. A eleição de novos membros segue as normas ditadas pelo regimento da Academia. Primeiramente, abrem-se as inscrições para qualquer candidato brasileiro nato que comprove obras literárias publicadas e esteja apto a passar pelo processo de votação dos membros. Será eleito aquele inscrito que conquistar a maioria simples dos votos.
Durante sua constituição secular, a Academia foi responsável por participar de importantes reformas ortográficas, como as de 1945 e 1990, agraciando escritores com premiações como Prêmio Machado de Assis de Literatura e, no mínimo, mais oito prêmios em áreas como literatura infantil, cinema, tradução e História. A ABL foi preenchida exclusivamente por homens até 1977, quando Rachel de Queiroz passou a integrá-la. Mesmo assim, as mulheres, atualmente, ocupam apenas cinco cadeiras na instituição, dentre elas, Miriam Leitão.
Comentarista do “Bom dia Brasil”, da Rede Globo, e âncora de um programa próprio na GloboNews, Miriam é uma jornalista capixaba, que já trabalhou em diversos jornais conhecidos do país. Tem onze livros publicados, que versam sobre temas variados, englobando desde questões políticas até biografias e histórias infantis. Coleciona dois Prêmios Jabuti, além de vários prêmios da área do jornalismo, sendo considerada uma das três jornalistas brasileiras mais premiadas de todos os tempos. Ou seja, Miriam Leitão traz um legado de conquistas e de profissionalismo na área da literatura e do jornalismo, conquistando o posto de décima segunda mulher a fazer parte da ABL em mais de cem anos. Foi eleita com ampla maioria dos votos, numa concorrência contra mais dezesseis candidatos, dos quais apenas dois receberam votos: ela e o ex-senador e ex-ministro da educação Cristovam Buarque.
É preciso lembrar que grandes nomes da literatura do país, como Monteiro Lobato, Érico Veríssimo e Mário Quintana, mesmo candidatando-se, não foram escolhidos para serem imortais da Academia Brasileira de Letras, que tem sentados em suas cadeiras atualmente nomes como o da atriz Fernanda Montenegro, dos ex-presidentes da república José Sarney e Fernando Henrique Cardoso e do cantor Gilberto Gil. Tais escolhas, por outro lado, evidenciam uma amplitude da Academia ao acolher diferentes segmentos da sociedade que fazem da linguagem sua ferramenta de expressão. Essa abertura se manifesta na presença de personalidades que, além de se destacarem em suas áreas — seja na política, nas artes ou na música —, também deixaram sua marca na literatura por meio de publicações significativas.
Se você tem interesse em conhecer mais sobre a ABL, é possível verificar maiores informações sobre a sua constituição, os discursos de posse de presidentes e de novos membros, publicações, premiações e até o regimento interno da academia acessando o link: https://www.academia.org.br/
Por Francismar Furlanetto, doutorando no PPGL UPF