Ó Deus, por que me criaste assim — devota do pecado alheio?
Ela caminha, e eu tremo.
Ela fala, e minha fé estala como vidro
sob os pés de um anjo caído.
Ó Deus! Perdoe esta filha pecadora!
Mas, se é ela tua criação,
por que a moldaste com mãos tão lascivas?
Ela me faz transgredir —
não por fraqueza, mas por adoração.
Tuas leis tremem quando ela passa.
Tuas Escrituras se rasgam sob o rastro de seu perfume.
Ó Deus, ela me deixa louca!
Louca como as melíades no sangue do vinho,
louca como quem viu um anjo nu e não desviou o olhar.
Se tua filha é deveras pecante,
então que me condenes.
Mas se justo: entrega-me primeiro ao fogo de seus braços.
Deixa que eu queime antes do Juízo Final.
Mova-te, ó céu e terra!
Deixem a filha desconhecida de Urano passar.
Nascida da espuma, banhada em silêncio,
a deusa cujo nome ninguém ousa pronunciar,
mas que todos desejam à meia-noite.
Ela não precisa de templos,
pois meu corpo já arde por ela como altar.
Não me poupes, Senhor —
lança tua ira sobre mim,
mas deixa que ela me beije antes.
Somente ela sabe o quanto é irresistível.
Tu sabes o poder que esta mulher tem sobre a minha alma,
mas não intervéns.
És cúmplice, ó Deus, de meu martírio doce!
Não há consolo para os cínicos flechados por Eros.
Nos becos da fé, meu amor por ela apodrece em ouro.
É um amor alienado, febril, indizível —
e ainda assim, meu único credo.
Logo, deixa-me cair nas tentações daquele corpo.
Deixa que minha oração se dissolva entre suas coxas.
E apenas ore, ó Deus, pela sombra da minha sanidade.
por Keaile Vitória Bohn, acadêmica do 1° semestre do curso de Jornalismo UPF