No cenário moderno, os jequitibás podem ser comparados àquela roda de chimarrão que acontece no início da manhã ou no fim da tarde, onde o tempo parece desacelerar, e, sem que você perceba, as horas se vão em meio a histórias compartilhadas, risadas e vínculos profundos. Por outro lado, os eucaliptos podem ser vistos como o café em cápsulas: eficiente, prático, sempre igual e preparado em segundos, mas com um sabor que muitas vezes parece faltar alguma coisa.
O jequitibá reflete o ensino presencial. Imagine alguém que mora em uma cidade pequena e precisa viajar três horas diariamente para assistir a duas horas e meia de aula. Essa pessoa carrega sua marmita, enfrenta as dificuldades e repete essa rotina durante quatro anos, até que, ao final, se questiona: “Me formei, e agora?”. O eucalipto, por sua vez, simboliza o ensino a distância, ele mora ao lado da universidade, mas ainda assim chega atrasada à única aula presencial. Após repetir esse ciclo durante os mesmos quatro anos, também se pergunta: “Me formei, e agora?”, mas, desta vez, com a sensação de estar duas ou três vezes mais despreparada do que aquele outro alguém.
Os eucaliptos substituem os jequitibás da mesma forma que os aplicativos de mensagens substituíram as cartas escritas à mão: uma adaptação funcional à modernidade que, embora prática, frequentemente empobrece a experiência. Essa transição, em nome da eficiência, pode transformar o ensino, que deveria ser um espaço de conexão, criatividade e troca, em uma linha de produção.
Os jequitibás estão no currículo, e o currículo é um jardim. O currículo formal assemelha-se ao mapa oficial desse jardim, cuidadosamente planejado para indicar onde cada planta deve ser cultivada. No papel, a organização parece impecável, mas, na realidade, quem assume o trabalho árduo de ajustar e fazer o jardim prosperar é o jardineiro — o professor — que inevitavelmente precisa adaptar-se às condições do solo e às exigências do espaço.
O currículo real, por sua vez, é o jardim em sua manifestação viva, com suas adaptações e desafios inesperados. Aqui, o jardineiro descobre que há áreas do terreno mais férteis, onde as plantas crescem vigorosas, e outras mais propensas ao surgimento de ervas daninhas, exigindo atenção redobrada. É nesse cenário que as decisões práticas e o senso de observação do jardineiro se tornam fundamentais para manter a harmonia do espaço.
Já o currículo oculto pode ser entendido como os bastidores desse jardim: as dinâmicas silenciosas e as lições que surgem naturalmente e influenciam todo o conjunto. É ali que as ervas daninhas são tratadas, os jequitibás recebem o cuidado necessário para oferecer sombra e abrigo, e o jardineiro – o professor – em sua sabedoria, equilibra o ecossistema com delicadeza. Enquanto isso, o dono do jardim — alheio à complexidade do processo — está sempre considerando a possibilidade de derrubar tudo e plantar eucaliptos.
Os jequitibás enfrentam uma verdadeira crise de identidade, enquanto os eucaliptos tomam conta do jardim, impondo sua presença uniforme e apressada. E, para minha surpresa, dias atrás testemunhei uma cena que ilustra perfeitamente essa transformação — mas que fique entre nós.
A professora Maria, renomada docente de matemática, decidiu que era hora de restaurar a atenção da turma, que parecia estar mais conectada ao brilho das telas do que aos mistérios do cálculo diferencial. Com a serenidade de quem encara até integrais triplas sem titubear, ela pediu gentilmente que todos guardassem seus dispositivos móveis, como parte de um esforço para promover a imersão total na beleza dos números.
Entretanto, eis que surge um aluno audacioso, cujos dedos ágeis dançavam freneticamente sobre o teclado do computador como se estivesse resolvendo uma equação de terceiro grau. Não contente em apenas ignorar a solicitação da professora, ele decidiu contestar com uma veemência que faria um teorema mal demonstrado corar de vergonha. “Eu preciso do computador para estudar!”, exclamou, com a convicção de quem defende o uso de calculadoras em provas de tabuada.
O clima, até então acadêmico e tranquilo, foi abruptamente interrompido, como se um vetor tivesse tomado um rumo inesperado. A sala, antes preenchida pela suavidade, passou a testemunhar um impasse digno de um problema irresolvível. A professora Maria, porém, manteve sua compostura digna de alguém que já enfrentou fórmulas assustadoras, apenas arquivou o momento em sua mente como mais um exemplo de um “limite que tende à paciência infinita”.
Por um instante, observei aquele ser, teimoso e implacável – E então, um pensamento inusitado me veio à mente: se esse eucalipto tivesse um machado nas mãos, desferiria um golpe sem hesitação. Não por crueldade, evidentemente, mas porque tal atitude é inerente à sua natureza.
Ah, se Rubem Alves estivesse presente naquela cena, ele provavelmente veria na resistência do aluno a luta épica entre o jequitibá e o eucalipto em forma humana!
por Jefferson de Oliveira, acadêmico de Matemática na UPF.