Ligada a nossa ancestralidade e pela própria origem da linguagem, desde os tempos das cavernas os seres humanos já usavam a sua oralidade para transmitir histórias e também registros pictóricos encontrados em locas e cavernas pelo mundo, fatos que mostravam a vida cotidiana, a sua relação com a espiritualidade, comemorações, relações sexuais, caças e outros ensinamentos que eram registrados e perpassados, sendo transmitidos de geração para geração, isso quando não desapareciam ou se moldavam a outras culturas, aliás, quem nunca brincou de um “telefone sem fio”? É assim também que podem surgir as famigeradas fofocas.
Na antiguidade, diversas civilizações como gregas, egípcias, romanas, africanas e orientais, transmitiam mitos, lendas, legados de reis, imperadores, e criavam deuses que também se associavam ao poder político de cada era. Na idade medieval, na Europa, os trovadores viajavam entre vilas contando e cantando histórias e canções. Estas, séculos depois, serviam de inspiração para criações de contos de fadas e fábulas, como as que conhecemos no jardim da infância, na escola, com a interpretação pedagógica de nossos professores em suas rodas de leituras. Foi a era moderna que trouxe de volta uma prática que estava ficando cada vez mais restrita à publicação dos livros.
No século XX, o ser “contador de histórias” se profissionalizou na área artística e educacional. Graças a movimentos de incentivo à leitura, artistas, educadores, psicólogos, profissionais das letras e festivais de cultura popular transformam a narração oral em um espetáculo teatralizado em espaços que vão de bibliotecas e até lugares externos como praças e ruas pelas cidades do mundo todo.
Contar histórias é uma profissão que requer preparo vocal e corporal, uma conexão com o público e, principalmente, ter apropriação daquilo que está se contando. É necessário mergulhar no texto como se fosse um rio profundo de palavras e trazer, no olhar, a sensibilidade representada em cada palavra, seja autoral ou de algum autor e, até mesmo, muitas vezes fazer do momento o seu próprio laboratório de narração e escrita.
Imagem 1 – Espetáculo: Aventuras na mala da leitura com Junior Misaki

Minha própria trajetória foi profundamente atravessada por essa arte. Na adolescência, o teatro me ensinou a moldar corpo e voz como instrumentos de leitura e interpretação. Experiências com clássicos da literatura, como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, permitiram-me não apenas compreender a dureza poética da vida sertaneja, que meus antepassados viveram na pele, mas também expressar tais vivências diante de um público, incorporando-as com verdade cênica.
Durante a pandemia da Covid-19, a clausura imposta pelo isolamento social provocou em mim um período de profunda reflexão e reinvenção artística. Longe do cotidiano escolar, fui impulsionado a resgatar minhas inspirações primeiras e mergulhar no universo da literatura infantil. Daí nasceu meu primeiro livro infantojuvenil, Clarice e a Andorinha, escrito em versos poéticos. A obra narra a história de uma menina que encontra uma andorinha abandonada e aprende, com ela, que o verdadeiro significado de família é o amor e a união, independentemente da origem.
A repercussão da história me fez perceber que minha atuação não deveria se restringir ao papel de autor e ilustrador. Ao observar outros contadores de histórias darem vida às minhas palavras, compreendi que a performance oral acrescenta camadas de emoção, envolvimento e afeto que uma leitura silenciosa, por vezes, não alcança. Vi, então, o nascimento de um novo lugar de pertencimento: o de contador de histórias.
Imagem 2 – Contação de Histórias na praça pública

Ao me encorajar a encarar o público infantil como contador das minhas próprias histórias, deparei-me com um duplo desafio: revisitar as emoções vivenciadas durante o processo de escrita e ilustração e, ao mesmo tempo, transformar essas emoções em experiência compartilhada. A cada espetáculo de contação, não apenas revivo os sentimentos que atravessam minhas obras, como os afetos familiares, os apegos, os lutos e as memórias, mas percebo que tais sentimentos se renovam no encontro com o público.
O retorno sensível de quem escuta e interpreta nossa narrativa, sobretudo no olhar atento das crianças, permite que cada apresentação se torne uma nova obra em si. O diálogo com o espectador, quando acolhido com escuta ativa, enriquece a mensagem original e a transforma, fazendo da contação de histórias um processo coletivo, em constante reinvenção.
Contar histórias é, portanto, mais do que uma técnica ou ocupação. É um gesto ancestral e contemporâneo, afetivo e político, que exige escuta, entrega e sensibilidade. E, para quem educa, é também uma ponte criativa entre o mundo da infância e o universo do imaginário, onde o conhecimento ganha cor, som, movimento e sentido.
Relato de experiência escrito por José Jerônimo Vieira Júnior, conhecido artisticamente como Junior Misaki, autor de seis obras infantojuvenis como Clarice e a Andorinha (2020), O Gato Juan (2022) e A Tapioca da Vovó (2024). Nordestino, paraibano, natural da cidade de Patos (PB) é discente do Programa de Pós-Graduação no Doutorado em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF), e bolsista CAPES II.