O Professor! Eu tô com pressa!

A cena se repete. Os grupos se revezam na apresentação, os slides desfilam na tela, as vozes se atropelam em uma leitura ensaiada, e o tempo, ah, o tempo! Ele se tornou o protagonista invisível da sala de aula. Mas não aquele tempo reflexivo, que amadurece ideias e permite a digestão crítica dos conceitos, e sim o tempo impaciente, que pulsa como um cronômetro ansioso para o próximo intervalo.

Os alunos, tão acostumados ao ritmo acelerado da vida acadêmica e profissional, agora encaram a própria sala de aula como um obstáculo a ser vencido. Apresentar rapidamente, evitar perguntas, torcer para que ninguém se aventure a uma intervenção. O sinal não toca, mas os olhares falam: “podemos encerrar por aqui?”. Quando a apresentação se aproxima do fim, a salva de palmas surge como um gesto de alívio coletivo, um rito de passagem para a liberdade momentânea do intervalo.

Mas e o aprendizado? Ele se esconde nos cantos da sala, sufocado entre o slide apressado e a pressa de encerrar. Os debates se tornam inconvenientes, as perguntas, uma ousadia. Quando um colega levanta a mão para comentar algo, o grupo se entreolha, inquieto. E lá está o professor, tentando equilibrar o tempo pedagógico com a impaciência latente.

Talvez, sem perceber, a sala de aula esteja se tornando um espaço onde o conteúdo é consumido como fast food: rápido, prático, sem grandes degustações teóricas. A ironia é que muitos estão ali exatamente para aprofundar-se, para refinar o pensamento crítico. No entanto, a urgência de terminar logo atropela a possibilidade de “saborear a discussão”. O medo do tempo “perdido” com reflexões mais longas não passa de um reflexo da ansiedade contemporânea por produtividade constante.

Curiosamente, quando o professor volta a ser aluno, o jogo se inverte. Aquilo que tanto critica em sala de aula parece encontrar morada em sua própria postura. Ele bagunça, conversa, levanta a perna, balança a caneta, morde a tampa. O corpo não quer ficar preso, a cadeira se torna um suplício. A necessidade de movimento aflora, os gestos se tornam parte da comunicação. A ironia é que, ao assumir o papel de aprendiz, muitas vezes o professor se descobre na pele dos estudantes que antes repreendia. O que isso revela? Talvez, que o aprendizado real não acontece na imobilidade ou no controle absoluto, mas na fluidez, na interação, no corpo que acompanha a mente.

O que aconteceria se houvesse um freio nesse ritmo? Se, ao invés de acelerar para terminar, os alunos desacelerassem para compreender? Se o próximo intervalo pudesse esperar um pouco mais? Talvez assim, o aprendizado deixasse de ser um contratempo e voltasse a ser o centro da experiência acadêmica. Afinal, é na pausa, no detalhe, na digressão que mora o conhecimento mais profundo. Aprender não deveria ser uma corrida contra o tempo, mas um processo que exige envolvimento, escuta e o prazer de se perder no caminho do saber.


por Felix Elias Cardoso Quintus,
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGEdu/IHCEC/UPF

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