“A leitura torna o homem completo,
a conversação torna o homem alerta
e a escrita torna o homem preciso.”
(Bacon, 1625).
Segundo definições do Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa (2005, p. 94), a palavra “bosque” significa: “Conjunto numeroso de árvores nativas ou cultivadas.” A palavra “bosquejo”, no entanto, assume um sentido diferente, apesar da semelhança quanto à grafia: “Plano inicial ou geral de uma obra; esboço, rascunho.”
Umberto Eco, em seu livro intitulado: Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção, a fim de explicar a escolha do título da obra, revela que “bosque” seria uma alusão ao texto narrativo, não restringindo-se somente a um tipo específico de narrativa, mas englobando suas mais diversas facetas no âmbito literário.
Nesse sentido, dissertar-se-á a respeito do encontro literário entre Franz Kafka e Umberto Eco promovido por suas obras: A Metamorfose e Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção, respectivamente, num paralelo de análise quanto às características destacadas por Eco em comparação à narrativa de Kafka.
Ao abordar a temática da literatura, e especificamente do texto narrativo, é vital considerar, primeiramente, sua natureza dual. É como se fosse uma bifurcação na estrada; ao abrir o livro, num exercício de vulnerabilidade, o leitor depara-se com duas possibilidades: a primeira, identificar-se de pronto com o conteúdo, com os trejeitos da escrita daquele autor, com sua estilística própria, causando no interlocutor uma espécie de abdução, um abandono da individualidade e das coisas as quais chamam-se reais. A segunda, distanciar-se do livro por falta de identificação com os elementos citados e por outras razões mais que a racionalidade desconhece ao tratar-se de arte.
“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama metamorfoseado num gigantesco inseto.” (Kafka, 2016, p. 02). Assim, inicia-se uma das obras mais geniais e conhecida de todos os tempos. Conforme apontamentos de Eco (2017, p. 12) o autor, ao iniciar a história de forma impactante e inesperada, rompe com a capacidade de previsão do leitor, ou ainda, com a aposta inconsciente que este faz sobre as escolhas do escritor, dada a excentricidade de seu conteúdo. Acontece, nesse caso, o que se pode descrever segundo o mesmo autor, como o ato voluntário de perder-se no bosque, isto é, perdemo-nos no território a ser desbravado e cometemos equívocos na ânsia de descobrir os mistérios da terra desconhecida.
Sob essa ótica, Eco (2017, p. 14) discute acerca das escolhas razoáveis que o leitor tem de fazer: “[…] os leitores se dispõem a fazer suas escolhas no bosque da narrativa acreditando que algumas delas serão mais razoáveis que outras […] seria um erro pensar que se lê um livro de ficção em conformidade com o bom senso”. Além disso, o autor apresenta dois conceitos de suma importância para aprimorar a compreensão da temática. São estes: o Leitor-modelo e o Autor-modelo.
O primeiro conceito faz a diferenciação entre o leitor-modelo e o leitor-empírico, sendo este representado pelas pessoas “comuns” que utilizam o texto, de certa forma, de maneira a devanear, não conseguindo fazer, portanto, uma leitura imparcial e sem paixões. Já o leitor-modelo caracteriza-se por ser um ponto de referência ao escritor. Configura-se como um leitor ideal imaginado pelo autor, capaz de compreender e preencher as lacunas deixadas no texto. É alguém disposto a observar as “regras do jogo”, alguém disposto a interagir e moldar-se conforme as necessidades do texto. Em resumo, é o tipo idealizado do público específico ao qual a obra é dirigida.
Em paralelo à obra de Franz Kafka, de que maneira poder-se-ia definir o leitor-modelo? É necessário, primeiramente, levar em consideração o contexto histórico e social de produção do livro: século XX, Europa Central… Logo, pode-se concluir que o leitor- modelo seria alguém inserido e familiarizado com esse ambiente, bem como, personificado na figura de um homem letrado, por exemplo. Ademais, ao tratar-se do assunto abordado, o leitor-modelo vai contra o próprio conceito e constituir-se-ia de tendências psicanalíticas de interpretação, ou seja, seria um indivíduo que sofre, tal como Kafka ou Samsa, de questões psicológicas e existenciais e, por isso, seria alguém paciente e dedicado para lidar com o tom alegórico e ambíguo que acompanha a escrita do autor. Seria, enfim, alguém disposto a escrutinar a obra de modo anatômico, de tal forma que suscitaria ainda mais apreço pela narrativa, uma vez que foi vencida a máquina preguiçosa que constitui-se o texto.
O segundo conceito, do Autor-modelo, é definido por Umberto Eco (2017, p. 23) nas seguintes palavras: “Por outro lado, o autor-modelo é uma voz que nos fala afetuosamente (ou imperiosamente, ou dissimuladamente) que nos quer a seu lado.”
A partir desse viés, pode-se elucidar a concepção do autor-modelo personificando-o como alguém que usa uma máscara e não se revela por inteiro na obra, pode ser também a identidade criada para sustentar a narrativa, é o que norteia as escolhas do autor em relação aos aspectos técnicos como linguagem, estilo, conteúdo, etc. Não obstante, o autor-modelo é a voz que fala do início ao fim, antes mesmo de iniciar-se o processo de escrita. É preciso, porém, que não se deixe confundir essa “voz” com o próprio escritor, pois há um distanciamento entre autor e leitor se levarmos em conta que, no livro, é a voz do autor-modelo falando para o leitor-modelo, em outros termos, duas personagens criadas. É, enfim, quem organiza as estratégias narrativas do texto.
Em relação à obra de Kafka, de que maneira poder-se-ia identificar e definir como se comporta o autor-modelo no texto? Dada a complexidade do livro e, mais ainda, do autor que o compôs, é imperioso constituir o autor-modelo de Kafka como alguém que não se deixa mostrar facilmente, bem como, alguém que se esconde por detrás dos fatos e até o prefere, haja vista a frieza com que retrata os acontecimentos. Nesse ínterim, há de se destacar os aspectos existenciais que percorrem toda a narrativa: o sentimento de solidão, não-pertencimento, abnegação e exclusão. A estratégia narrativa do autor-modelo visa à reflexão em relação a Gregor Samsa, mostra como este quer, desesperadamente, encontrar seu lugar no mundo, um mundo burocrático, metálico e avassalador; configura se ainda, como uma denúncia àquela sociedade capitalista e hipócrita.
— Ah, meu Deus! — pensou. — Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia — viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e, além disso, me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso! (Kafka, 2016, p. 02)
A citação acima mostra perfeitamente a crítica do autor em relação aos mecanismos e elementos de uma sociedade a qual buscava, acima de tudo, o lucro.
Isto posto, evidencia-se que o encontro de Eco e Kafka ocorre, de fato, graças à literatura. A teorização literária do primeiro faz-se presente na produção do segundo, de tal modo que é possível traçar um paralelo entre eles, os quais apesar das diferenças são unidos pela arte e pelo amor à escrita. Em suma, é comprovada a função da arte literária nessas duas obras: explicitar como a leitura é vital para os seres humanos, como somos dependentes dela assim como dependemos de água e comida; mostra que um livro esconde mistérios por vezes insondáveis, e que vale a pena estudar a narrativa de um livro de forma a tornar-se um amigo íntimo do texto. Pois é isso o que vem a ser a literatura, uma amiga a qual sempre oferece socorro e mostra uma direção em momentos de necessidade.
“A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” (Candido, 2004).
REFERÊNCIAS
BACON, Francis. The Essays or Counsels, Civill and Morall. Londres: Hanna Barret, 1625. Disponível em: https://archive.org/details/essaysbacon/The_Essayes_Or_Counsels_Ciuill_and_Moral/p age/n3/mode/2up. Acesso em: 19 maio 2025.
CANDIDO, Antonio. O Direito à Literatura. São Paulo: Duas Cidades, 1995. Disponível em: file:///C:/Users/Usu%C3%A1rio/Desktop/O%20Direito%20%C3%A0%20Literatura%2 0ANTONIO%20CANDIDO.pdf. Acesso em: 19 maio 2025.
ECO, Umberto. Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Disponível em: file:///C:/Users/Usu%C3%A1rio/Downloads/Umberto%20Eco.pdf. Acesso em: 19 maio 2025.
KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: TT Editora, 2016.
SACCONI, Luiz Antonio. Minidicionário Sacconi de Língua Portuguesa. São Paulo: 1 ed. Escala Educacional, 2005.
por Dandara Polidoro, acadêmica do curso de Letras UPF