Soa estranho dizer
Que o invisível deste amanhecer,
Prateado sobre o desembaçar do vidro,
É a última chamada, um desafio, uma feitiçaria.
O gosto desse dia novo,
Doce em luto amargo, minh’alma por inteiro esvazia.
Brilha e sangra em completa harmonia
O canto dos pássaros antes da partida.
Há o abraço que pede calma,
Ofuscado pelo ranger das escadas
E pelas crianças livres no jardim.
A pele nele despede, a lágrima nele salva.
O mundo se faz verde, azul, inteiro,
E fica por um momento suspenso,
Entre a boca e o beijo.
Uma corda muda no refrão.
A vida corre nos veios, nas moradas,
Onde não há ouro, mas alegria.
Velha infância em terreiro inteiro, pequena vila
Rodeada de mata, estradas, pátios e burburinho.
Um menino joga bola,
Descalço à luz dourada e pela grama alta.
Vê? Assim são os bons dias,
Sorrisos largos, mesas fartas, aulas e correria.
Há quem diga que tudo é despedida.
Cortinas que se fecham, cenas que acabam,
Boa noite, bom dia.
Mas eu ainda estou aqui e eles soltam pipas.
Há o desejo no espelho,
O mapa, o lápis, o apego.
Quem sabe se todos que partem,
São apenas reflexos de um antigo medo.
Medo da saudade, de algum deus,
Medo da árvore, da laranjeira, da ponta.
Medo do olá, medo do adeus.
Medo da própria sombra.
Ancora-se aqui um antigo pensamento,
Já fomos todos assim,
Choramos por quem já se foi, prantos por dentro,
Sempre que os dias chegavam ao fim.
E tudo isso está nessa alvorada,
Nas horas mais recentes,
Nas memórias já permanentes,
No último nome da chamada, no agora e no para sempre.
Denny Cezar, professor de língua portuguesa e língua inglesa formado pela UPF