Como bolsista de desenvolvimento tecnológico e científico do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, tive o privilégio de viver uma experiência acadêmica de três meses na Université Sorbonne Nouvelle, em Paris, na França.
Quem sou: Sou a professora Marlete Sandra Diedrich, coordenadora do Projeto de pesquisa Movimentos discursivos da criança na produção de narrativas: as complexas relações espaço-temporais, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), docente do Curso de Letras da Universidade de Passo Fundo há 30 anos e pesquisadora da área da Aquisição da Linguagem, com interesse particular na narrativa da criança e na sua constituição como sujeito falante.

Do que trata o projeto de pesquisa: O Projeto de pesquisa Movimentos discursivos da criança na produção de narrativas: as complexas relações espaço-temporais investiga narrativas espontâneas produzidas por crianças brasileiras de 3 a 6 anos de idade durante o período de pandemia de Covid-19. Essa pesquisa faz parte dos estudos de pós-doutoramento que realizo, com bolsa de pesquisa do CNPq, na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho – UNESP – Araraquara – SP, desde 2024, sob supervisão da professora Dra. Alessandra Del Ré, uma das grandes referências da área da Aquisição da Linguagem no Brasil. E foi com este projeto que participei de um Edital de Internacionalização do CNPq, promovido apenas para pós-doutorandos, a fim de que pudéssemos vivenciar experiências de internacionalização de nossas pesquisas. Como meu projeto foi contemplado neste edital, pude usufruir do privilégio de passar três meses na Université Sorbonne Nouvelle como professora convidada.
Um pouco do que vivenciei na Université Sorbonne Nouvelle: Minhas atividades foram supervisionadas pela professora Dra. Christelle Dodane, pesquisadora experiente na área da Aquisição da Linguagem e que me recebeu de forma acolhedora e extremamente generosa. Minhas atividades na universidade francesa envolveram principalmente: a) apresentação do meu projeto de pesquisa em disciplinas ministradas pela professoras da área de pesquisa em foco, em cursos de Mestrado e Doutorado; b) participação em grupos de estudo da área e em disciplinas ofertadas em nível de Mestrado e Doutorado, com presença também de pós-doutorandos; c) acompanhamento de orientações de doutorandos; e) encontros regulares de trabalho com as pesquisadoras da universidade para discussão do meu projeto de pesquisa e de possibilidades de diálogos entre teorias e ações propostas; f) produção de artigos em coautoria para publicação em periódicos brasileiros e franceses.
Por que a experiência foi desafiadora: Apesar de eu estudar a língua francesa há vários anos, foi a primeira vez que vivenciei uma imersão completa na língua, vivendo num país francófano. Trata-se da “língua viva” em situações reais de interação, como tanto discutimos nos estudos linguísticos. Essa experiência me levou a aperfeiçoar meu conhecimento linguístico e superar limitações não só linguísticas, mas também de caráter emocional, derivadas do fato de eu estar longe da minha família, num país com outra cultura e estilo de vida distinto daquele com o qual eu estava habituada. Também a responsabilidade acadêmica foi desafiadora, pois eu sabia da importância de estar nesse espaço privilegiado de construção do conhecimento, representando não só o projeto sob minha coordenação, mas também os Programas de Pós-Graduação e universidades envolvidas, tanto a UPF como a UNESP. Mas acredito que venci esses desafios, sempre com o apoio daqueles que, mesmo a distância, se faziam presentes cotidianamente, como familiares, colegas e amigos; e da equipe francesa, professores e estudantes, que me receberam e me acompanharam com cuidado e respeito.
Por que a experiência foi transformadora: Aprendi muito no tempo em que lá fiquei. Aprofundei meu conhecimento sobre as possibilidades de se trabalharem os dados de linguagem das crianças, principalmente, com o uso de softwares apropriados para coleta, registro, transcrição e análise de dados. Também estudei, sob orientação das pesquisadoras francesas, aspectos da multimodalidade e da gestualidade da linguagem da criança, os quais passam a fazer parte do meu escopo de interesse. Esse aprendizado me permite hoje qualificar minha investigação nesses quesitos e melhor orientar os estudantes que trabalham comigo. Além disso, a vivência no espaço acadêmico da Sorbonne me permitiu estabelecer novas parcerias de trabalho, com pesquisadores que lá conheci, além de certamente ampliar minha visão de mundo, uma vez que a Sorbonne é uma universidade internacional, por onde transitam estudantes de diversas partes do mundo, com destaque para os chineses, japoneses, poloneses, entre outros. Conviver com essas pessoas, conhecer suas pesquisas e poder partilhar um pouco do meu trabalho foi uma troca muito enriquecedora para mim.
O que vivi para além do espaço acadêmico: Confesso que não me deslumbrei com a cidade à primeira vista, achei os dias de inverno cinzas demais. Mas, à medida que os dias foram passando e a primavera se anunciando, eu fui desvendando os lugares, as pessoas, o modo de funcionamento da cidade. Paris é linda, viva, inspiradora… Entre tantos espaços culturais que conheci, destaco três deles: as exposições, tanto as etnográficas Musée de l’Homme); como as de obras de arte (https://www.musee-orsay.fr/ e https://www.musee-orangerie.fr/fr). Nesses espaços culturais, há propostas educativas, voltadas para as escolas de educação básica, cujos estudantes representam presença constante em meio aos inúmeros turistas. O segundo destaque são as bibliotecas públicas parisienses, abertas ao público em geral, com um acervo de obras impressionante, mas também com atividades culturais, educativas ao longo da semana e nos fins de semana, voltadas para as famílias e as crianças, com ateliês de conversação em francês para apoiar o desenvolvimento linguístico dos imigrantes que acedem ao país ou mesmo aos turistas que querem aperfeiçoar o idioma (https://bibliotheque-numerique.paris.fr/). Por fim, meu destaque vai para um dos lugares que passou a ser minha preferência em Paris: os bouquinistes às margens do Rio Sena. Trata-se de uma comunidade de livreiros especializados que, em caixas verdes instaladas ao longo das margens do rio, na rua, comercializam desde obras clássicas raras até souvenirs parisienses ou objetos de coleção. São muitos, sentados em seus banquinhos ao lado das quase 1000 caixas verdes que serpenteiam o Sena. Alguns deles são profundos conhecedores das obras que vendem. Os bouquinistes de Paris são considerados patrimônio cultural da cidade, e, juntamente com as margens do Rio Sena, são considerados, pela UNESCO, patrimônio mundial.
Por fim, sou muito grata pela oportunidade que me foi dada, pois tenho plena consciência do quanto essa experiência enriqueceu meu trabalho acadêmico e contribuiu para minha formação humana, construída na relação com o outro, na diversidade de línguas, saberes e culturas.
por Profa. Dra. Marlete Sandra Diedrich, professora do curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF

