Uma Voz Rara de Foucault em Português

Tradução inédita de manuscrito de 1950 é publicado por professores da UPF

Michel Foucault, um dos pensadores mais influentes do século XX, continua a provocar debates e descobertas mesmo décadas após sua morte. Em março de 2025, a revista Dissertatio, da Universidade Federal de Pelotas, publicou pela primeira vez em português um manuscrito raro, escrito por Foucault em 1950. A tradução, feita pelos professores Luís Francisco Fianco Dias e Francisco Carlos Santos Filho, marca um feito relevante tanto para os estudos foucaultianos quanto para os campos da tradução e da filosofia.

O texto, intitulado Um manuscrito de Michel Foucault sobre a Psicanálise [Michel Foucault e Elisabetta Basso], trata da relação entre psicanálise e psiquiatria. Segundo os tradutores, o manuscrito apresenta uma abordagem que integra elementos histórico-culturais com uma perspectiva influenciada por ideias biomédicas e evolucionistas — um viés que, embora presente de forma difusa na obra do autor, aparece aqui de forma mais concentrada.

A descoberta do manuscrito ocorreu em 2022, quando os professores estavam imersos em pesquisas sobre a relação de Foucault com a psicanálise. O texto foi compartilhado inicialmente no Grupo de Pesquisa em Psicanálise e Interfaces do Projeto, da Associação Científica de Psicanálise de Passo Fundo. Foi nesse ambiente de troca acadêmica que surgiu a proposta de traduzir o manuscrito — não apenas como um exercício linguístico, mas como um gesto de mediação crítica.

A equipe da Letrilhando entrevistou os professores, buscando saber um pouco mais sobre os desafios que enfrentaram no processo de tradução. 

Letrilhando:  Como e onde vocês descobriram este manuscrito? 

Santos Filho: Entrei em contato com esse texto no início de 2022, nos últimos tempos na pandemia quando, a propósito de duas e teses e de uma dissertação de mestrado que estavam em fase inicial, estava estudando as relações de Foucault com a psicanálise que, como sabemos, é controvertida e conflituada. Fiquei sabendo de sua existência e coloquei uma nota no Grupo de Pesquisa em Psicanálise e Interfaces do Projeto – Associação Científica de Psicanálise de Passo Fundo. Dividi o fato de haver encontrado o texto e, de imediato, meu estimado amigo e colega Francisco Fianco lançou o desafio de realizar uma tradução comentada do mesmo, acompanhada de notas e apontamentos sempre que elas se fizessem necessárias. 

Letrilhando:  O manuscrito revela nuances do pensamento de Foucault que talvez não estejam tão evidentes em seus textos publicados? Há alguma descoberta ou interpretação nova que a tradução ajudou a esclarecer? 

Fianco Dias e Santos Filho: A obra de Foucault é bastante vasta, de modo que seria temerário afirmar peremptoriamente que este tema nunca foi abordado em seus inúmeros escritos. Mas mesmo assim, embora ele tenha dedicado obras inteiras aos processos de saúde em geral, como em O Nascimento da Clínica, e da saúde mental em especial, como em História da Loucura no Ocidente, este pequeno texto trazido à luz e traduzido por nós parece concentrar a discussão sobre a psicanálise e a psiquiatria em uma dimensão que é ao mesmo tempo resultado de um contexto histórico e cultural e sobretudo influenciado em certa medida por uma perspectiva evolucionista ou exclusivamente biomédica. Essa perspectiva nos parece ser bastante pontual e relativamente inédita dentro do pensamento de Foucault.

Letrilhando:  Em relação aos procedimentos burocráticos para traduzir e publicar esse texto, foi necessário obter autorização de alguma instituição ou detentor dos direitos? Após a tradução, houve algum processo de validação ou envio a especialistas antes da publicação?

Fianco Dias e Santos Filho: Mais difíceis do que a tradução em si (risos). Na verdade,  demoramos mais tempo para conseguir os aceites de tradução do que para realizar a tradução propriamente dita. Depois do texto pronto, revisado e a nosso contento, quando surgiu a ideia de trazê-lo a público, o primeiro procedimento foi entrar em contato com a Professora Elisabetta Basso, pesquisadora italiana de Foucault atualmente na Universidade de Lyon, depois, por indicação dela, conseguir autorização da Revista Astérion, da mesma cidade francesa, que é onde o manuscrito foi publicado no original pela primeira vez. Ambos foram super receptivos e nos responderam de forma cordial e célere, indicando a possibilidade de tradução e publicação. Depois disso começamos a buscar revistas acadêmicas brasileiras de bons estratos que aceitassem publicar traduções, e aí se seguiu o fluxo normal de editoração. 

Letrilhando: Quais foram os principais desafios ao traduzir este manuscrito? Havia termos específicos ou construções de linguagem que exigiram adaptações especiais, ou algum conceito que vocês tiveram que interpretar profundamente para garantir que a tradução transmitisse o pensamento de Foucault com precisão?

Fianco Dias e Santos Filho: Traduzir é uma atividade bastante complexa, bastante mesmo, e, neste caso particular, dada a relevância do texto e a notabilidade do autor, a responsabilidade é bastante pesada. Por isso sempre é bom reiterar que não se trata de uma tradução definitiva, e sim de um esforço inicial. Uma das complexidades maiores no processo puro de tradução é escolher entre manter o texto o mais próximo possível do original, arriscando construções frasais que por vezes ficam estranhas, ou concentrar-se no sentido da frase e terminar criando uma nova versão do texto, ao invés de uma tradução fiel. Se é que uma tradução fiel é possível e não são todos os tradutores na verdade traidores, como diz o ditado italiano. Mas quando se lida com textos teóricos é necessário também observar que não basta verter as palavras, é necessário conhecer o assunto suficientemente a ponto de saber quais são as traduções consagradas de termos específicos da área, sob pena de terminar criando uma nova possibilidade de mais confundir o leitor do que auxiliá-lo.

Letrilhando: Vocês utilizaram outras traduções ou referências para apoiar suas escolhas linguísticas? 

Fianco Dias e Santos Filho: Nesse caso não foi possível, pois como o texto era inédito e havia sido publicado recentemente, não havia outras versões em português, ou mesmo em outras línguas que nós tivéssemos acesso, com as quais pudéssemos fazer uma comparação. Teria ajudado muito, mas tivemos que progredir às cegas mesmo neste quesito. 

Muito além de um exercício técnico, o trabalho dos professores é uma demonstração do poder transformador da tradução. No contexto da licenciatura em Letras, traduzir é também interpretar, problematizar, difundir. Neste caso, o gesto tradutório aproximou os leitores brasileiros de uma faceta pouco explorada do pensamento de Foucault, ampliando horizontes e abrindo novas perspectivas para as pesquisas.

A Revista Letrilhando agradece aos professores pela generosidade em compartilhar sua experiência.


Por Edemilson Brambilla e  Anderson Potrick,
membros da equipe editorial da Revista Letrilhando

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