Oito em ponto eu já estava na casa do meu pai-orientador esperando a van com minha mochila nas costas. Alegria demais de um jeito bastante eufórico e a ânsia de ver de perto os fragmentos de um cotidiano que eu estudo faz dois anos. Muitos anos seriam precisos e ainda imprecisos para descrever a imensidão do que fui à procura naquela quinta-feira chuvosa: Josué Guimarães.
A viagem ia bem, entre piadas, especulações e uma irmandade carinhosa entre pesquisadores. Acolhiam-se as curiosidades pelo que viria, o interesse que só crescia ao passo que a cidade se aproximava. Canela! Cidade bonita e colorida, com cara de Josué. Em cada rua, sem esforço, eu podia vê-lo andando, cumprimentando um conhecido, fazendo mercado. As ruas tinham ar de literatura e de amor, e uma delas eterniza tudo isso: Rua Josué Guimarães. E então já estamos perto do tesouro!
Primeira parada, casa da filha, Adriana Guimarães. Da cordialidade só posso tecer elogios, fomos recebidos com café e afeto. Uma casa cheia de personalidade, cheia de memória pelo pai. Fomos nos entrosando ligeiros. E, quando Adriana disse – de mim – “esse rosto eu já conheço, das redes”, o mundo se encheu de faíscas. Meu amor é falar do pai dela e, uau, ela escuta! Enquanto isso, sobe e desce de caixas com revistas, cartas, livros… Recolhemos tudo e guardamos na van para levar ao acervo, o que nos levou até lá.
A casa de Josué, não muito longe, me deixou sem ar algumas vezes, uma delas foi quando descobri que foi ele mesmo que a arquitetou. Casinha charmosa, foi só o que pensei, mas Adriana, que viveu lá, disse que não era muito cômoda, pouco funcional. Josué não era arquiteto, só era metido! Mesmo assim os detalhes me encantaram muito, a portinha para a entrada e saída de animais (que a filha disse que eram frequentadores assíduos), as janelas tão largas com cortinas longas, os tijolos visíveis e uma bela escada para o andar de cima.
Mas lá em cima a gente se situa melhor. Toda essa magia se confronta com um bocado de realidade. Depois das escadas, à esquerda, Josué arquitetou um bunker secreto para se esconder lá caso o fascismo de seu tempo batesse em sua casa. Duas portas, lugar apertado e envolto por tanta aflição pela memória do que teve de ser calado. As ruas, tão belas quanto descrevi, não são só coloridas. Também guardam, no passado, a vigia do que um dia foi chamado de liberdade, a injustiça. Com quanto medo também Josué não teve de andar por aqueles caminhos? Meus olhos encheram d’água quando pude enxergar a dor de quem esconde uma vida, a mulher e filhos, de quem esconde a alma. Me revolto quando olho ao redor e percebo a fragilidade da democracia, ainda nos dias de hoje. Josué se imortalizou na resistência.
Levamos caixas e mais caixas de livros empoeirados. Esbarramos com teias e também aranhas vivas, livros sem capa, livros muito antigos, livros da esposa, livros autografados por seus colegas de alma. Muitos livros que o fizeram um autor deleite e encantador. As caixas começaram a ser tantas que mal cabiam na van, e Adriana se enchia de prazer resgatando as memórias agarradas àquelas antiguidades. E seu filho enturmava conosco, era uma graça. Foi como se, naquela casa, fizéssemos parte da mesma família.
Fim de tarde em Canela, a van partia rumo a uma pousada aconchegante onde passamos a noite. Lugarzinho supimpa e original, ouvi que é a mais antiga do município – original mesmo. Pousada essa, já foi posse da família Guimarães, dá para acreditar? Os caminhos trilhados sempre nos levavam ao nosso escritor. Ajeitamo-nos bem e o rumo foi o jantar. Encontramos Adriana e seu marido no Empório Canela, coisa mais linda! Restaurante com livraria, quase um sonho. Passei um tempinho olhando os livros e levei de recordação o “Diário da Queda”, de Michel Laub. A moça que me vendeu o livro se surpreendeu com a escolha, disse que foi colega do autor na escola. A ambientação parecia mesmo meio mística, que dia cheio de coincidências!
Chegaram as refeições, o papo chegava também. Adriana contou do seu almanaque sobre a história de Canela, como ela é fascinada! Tantas memórias do pai, dos seus amigos. Darcy Ribeiro, Jango, Brizola… Em cada história, a imagem de Josué se tornava mais vívida. Josué jantou conosco, um quadro de seu retrato pintado por seu primo ocupou uma cadeira na nossa mesa redonda, foi como se ele estivesse lá. As histórias me amarravam a essa pesquisa que nunca acaba e nunca vai, e os relatos me enchiam de lágrimas. O conheci melhor. Sim, ele foi intensamente humano.
Adriana nos deixou em casa. Nos levou à pousada, sim, mas também nos colocou imersos naquela casa cheia de afeto. Voltamos ao acervo com uma van lotada: de livros, cartas, revistas, roupas e curiosidade, desejo. Voltamos com a mente cheia de ideias, trouxemos para casa informações que não tínhamos. Porque, afinal, toda essa magia foi sobre casa: o lugar onde se criam os filhos, a atmosfera onde nasce a pesquisa e se descobre essa vida cheia de nuances. Estudando Josué, somos atravessados por muito amor.
“Entrelaçaram as mãos enrijecidas pelo sol, pelo vento, pela chuva; e por todos os gestos de carinho para com os filhos e os netos, e sentiram que a noite chegava célere.” – Josué Guimarães, “Enquanto a Noite Não Chega”.

Isabella Giacomini De Carli, Letras, nível I.
Bolsista Pibic Jr no projeto “Acervos Literários: Modos Políticos de (o)usar”, sob orientação de Miguel Rettenmaier