Aquela casa cinza sempre foi um problema. Desde a época em que ela era verde, e um verde tão claro que não dava pra diferenciar da grama seca. Mas aí é que tá: o pátio da casa no inverno alagava, pois o terreno era muito plano e mais baixo do que a rua. No verão, por outro lado, era um calor infernal, como não havia uma mísera árvore plantada na frente dela – costume que era adotado por todos os outros vizinhos desse lado da rua – a casa era bombardeada de raios solares o dia todo, virava um mini forno, o que era meio irônico, pois além da cor acinzentada, a casa era retangular. Mas o pior de tudo nessa casa, nem era a casa em si, mas sim os inquilinos, um mais maluco que o outro.
Os primeiros vieram em um verão, dos mais quentes já registrados. Era um casal trabalhador, o homem acordava cedo para caminhar, a mulher acordava logo depois e iam juntos para o serviço, não se assustaram com o calor da casa, mas deixavam todas as portas e janelas escancaradas para a rua. Pareciam bem normais, exceto pelo filho da mulher.
Ele era adulto, com quase trinta anos, mas era sustentado pela mulher, às vezes passava semanas sem voltar para casa, diziam que ia passar um tempo com o pai que morava em outra cidade, mas quando voltava, durante as tardes, importunava os cachorros da rua, sorria estranhamente para qualquer um que passasse na rua, atordoava os vizinhos. Certa vez enviou uma carta ameaçando de morte a filha de uma vizinha. Foi aí que descobriram: tinha esquizofrenia diagnosticada. Mudaram-se logo depois.
O próximo foi o velho, quando o velho chegou, a casa já estava inabitada havia anos. O velho era muito espalhafatoso, gritava para os sete mares, perturbava todos os vizinhos, principalmente as vizinhas idosas, forçando amizade, além de importunador, diziam as más (boas) línguas que aquele velho era tarado.
O velho viu aquele lugar com um objetivo: construir um negócio ali mesmo. Reformou todo o galpão, do próprio bolso, é claro, colocou piso novo, fechou uma parte, pintou as portas desbotadas, investiu em placas, tudo que lhe era direito, e até contratou um funcionário para o que ele chamara de fruteira, mas o velho não sabia de um dos males da casa, e quando o inverno chegou dessa vez trazendo águas mais fortes que as anteriores, os tijolos colocados ao lado para evitar que a água entrasse, nem piscaram, eles boiaram.
Era cômico, de certa forma, o velho saiu da casa meses depois, seguindo seu sonho da fruteira em outras localidades da cidade, deixando para trás um galpão reformado, com um gosto meio excêntrico na escolha das cores, o que causou um contraste horrendo com o resto.
E foi aí que em algum momento da história, os donos vieram, plantaram pés de frutas vermelhas do lado da casa, pintaram-na de cinza – a cor mais popular para casas quadradas e não-quadradas da década, e: pronto! Botaram-na para alugar novamente.
E em um dia ensolarado de primavera, o caminhão de mudanças bateu à porta. O outro inquilino era um homem mal-encarado, sisudo, e com um estilo, particularmente, ultrapassado para sua idade. Moravam ele e uma menina na casa, uma menina de 15 anos, que se alguém os visse na rua, pensaria que eram pai e filha, mas, na realidade, eram namorados.
A menina entrava e saía daquela casa como se fosse um relacionamento normal, andavam pelas ruas de mãos dadas, e o pior de tudo é que em cidades pequenas, tal qual essa, era uma prática normal, até incentivada, mulher se casar cedo para sair de casa. Mas o custo era grande, visto que a coitada foi premiada com o tal homem e a tal da casa.
Para piorar o que já era ruim, o homem tinha um filhotinho de cachorro, manchadinho, fofinho e carente, muito carente. O coitadinho ficava atado atrás da casa e chorava, chorava, dia e noite. O remédio que o homem achou para o cachorro era meter-lhe umas pauladas na pobre criaturinha, que logo depois do acanhamento, voltava a chorar. E o homem era mal encarado, gente ruim, quem iria falar um ‘a’ para ele? O pobrezinho do cachorro e, pior ainda, a menina, eram reféns naquela casa tenebrosa.
Nos fins de semana, o homem pegava a saveiro e colocava música no talo, por sorte, ou azar do destino, não pagava o aluguel, a poluição sonora durou pouco tempo.
A casa só atraía gente ruim, ou será que gente ruim era atraída por ela?
Mas os proprietários pareciam ter achado a solução para o problema: alugar para a mãe de um deles. A senhorinha era tranquila, tinha o costume de varrer a mini varanda, assistia à TV nas tardes livres e vivia a vida sossegada, obviamente não durou, a senhora não se acostumou com a vida na cidade, era bicho do mato, do interior, de suas plantinhas e suas amizades, os pássaros não cantavam da mesma forma, as frutas não eram apetitosas. Mudou-se no mesmo mês, e lá se vão anúncios e anúncios de casa para alugar.
Ninguém queria, e os proprietários moravam longe, não tinham tempo de ficar cobrando devedores toda vez que atrasavam o aluguel, foi aí que decidiram: venderam-na. A nova dona mandou demolir a casa e aterrar o terreno. A casa virou prédio, daqueles com apartamentos, ou melhor, “apertamentos”, e os inquilinos… bem, aí já é outra história.
Por Lia Camélia