Editorial – A palavra como sopro de vida

Coincidência ou não, no mesmo mês em que celebramos o Dia da Consciência Negra ecoa também o anúncio da retomada das Jornadas Literárias de Passo Fundo, agora nominadas “Jornada em Movimento”.

O Dia da Consciência Negra nos chama a lembrar, a denunciar apagamentos e a afirmar resistências. A retomada das Jornadas, por sua vez, reacende o fogo da literatura como espaço de encontro, de deleite e de luta. Entre ambos, há uma linha invisível que costura passado e futuro, dor e potência, silêncio e voz. A palavra, nesse cenário, não é apenas arte: é gesto político e sopro de vida. Ela ilumina existências historicamente invisibilizadas, devolve voz aos silenciados e transforma feridas em força criadora. É nesse entrelaçamento que este editorial se inscreve: como celebração, como denúncia, como resistência.

Lembremos de obras como Olhos d’água, de Conceição Evaristo, e A vida que ninguém vê, de Eliane Brum: ao mesmo tempo em que encantam pela potência estética de sua escrita, também denunciam e afetam profundamente os sujeitos que as leem. Evaristo, com sua “escrevivência”, transforma experiências de dor, exclusão e resistência em narrativas que iluminam vidas historicamente silenciadas. Brum, por sua vez, volta o olhar para o cotidiano invisível, revelando histórias que passam despercebidas, mas que carregam densidade humana e social.

O impacto desses textos reside justamente na forma literária: aquilo que, dito em linguagem direta ou jornalística, poderia soar como denúncia fria, na literatura se converte em experiência sensível, capaz de tocar o leitor, de comovê-lo. A linguagem literária mobiliza afetos, convoca à reflexão e abre espaço para que memórias e vozes marginalizadas encontrem ressonância. Literatura e denúncia se entrelaçam: não se trata de escolher entre beleza e crítica, mas de reconhecer que o gesto literário pode ser simultaneamente encantamento e resistência, estética e política.

É nesse contexto que a Jornada em Movimento ganha ainda mais sentido. Ao reunir escritores, leitores e estudantes, criando espaços de encontro, de reflexão e de resistência, a Jornada reafirma e celebra o poder da palavra, seja como deleite ou denúncia, como abrigo ou arma, dando mostras de seu potencial de transformação. Que a palavra literária pulse aqui e reverbere em outros rincões, iluminando existências e fazendo enxergar além da superfície. E que das narrativas lidas e ouvidas brotem novas escrevivências, capazes de transformar não apenas a nossa cidade, mas também o mundo.

Na certeza de que cada página pode abrir caminhos e acender esperanças, agradecemos aos autores desta edição e desejamos a todos uma excelente leitura.

Por Luciana Crestani, em nome da equipe Letrilhando. 

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