Cheiro de inverno 

Quando eu tinha 14 anos, tudo era intenso. Tomar um banho de chuva era azar e tropeçar na rua era vergonha. Acordar às cinco horas da manhã para ir à escola em pleno inverno, um verdadeiro caos. Esse foi o motivo que me levou, em 2018, a ir morar alguns dias da semana com meus avós, Mário e Else. 

Mário era um homem de cabelos grisalhos, na casa dos 60, com altura de mais ou menos 1m e 70cm, usava muleta e dentadura. Else era uma mulher de cabelos loiros curtos, altura mais ou menos de 1m e 65cm, usava óculos e, claro, a tal da dentadura. 

Mário era agricultor e, desde novo, seguiu os passos do pai, que seguiu os do pai dele. Adorava olhar as lavouras e, mesmo depois de ir morar para a cidade, visitava-as. Aos 54 anos, teve um AVC que o fez perder os movimentos do lado direito. Mesmo assim, ainda visitava as terras, que agora, seu filho e neto seguiam cuidando. 

Else era uma mulher que cozinhava, limpava e ia à missa todas as semanas e, quando não podia, o rádio estava sintonizado nela. Participava de rodas de chimarrão com as amigas e adorava passear nas casas delas. Era prestativa e depois que seu marido ficou doente, passou a cuidá-lo dia e noite. 

A casa era o típico lar de avós. O fogão a lenha mantinha o frio do lado de fora e a chaleira em cima impedia que a água para o mate ficasse gelada. O bule, ainda em cima do fogão, guardava o melhor café para si, mas mesmo o mantendo dentro, o cheiro se espalhava pela casa e permanecia resguardado na cozinha. O calor gerado pelo fogão não chegava aos quartos, tornando-os gelados, mas nada que cobertas de 20 anos coloridas não pudessem resolver. Quando os dois faleceram, ainda em 2018, o fogão a lenha e os cafés no bule não existiam mais. Me restava o cheiro das lenhas queimando e do café esquentando. Me restava só o cheiro daquele inverno. O para sempre, cheiro de inverno.

Por Luiza J. Wagner, acadêmica do curso de Jornalismo da UPF.

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