Da conversa ao sentir: o assombro do imigrante latino-americano diante do novo

Felix Elias Cardoso Quintus¹

“Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganha ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença.” (Hall, 2006, p. 21)

Ele me disse, com o olhar distante, que tudo aqui parecia maior. As ruas, as casas, as palavras. “Parece que até o silêncio tem outro tamanho”, comentou, tentando sorrir. Naquele instante, percebi que o novo, antes de ser um lugar, é uma sensação. O novo desorganiza, desloca e impõe ao corpo a tarefa de reaprender a existir. O assombro não é apenas medo, é também o reconhecimento de que o familiar deixou de ser espelho.

O espelho aqui significa a metáfora do reconhecimento. É nele que o sujeito costuma se ver, confirmar sua imagem, reconhecer sua identidade, revela que aquilo que antes refletia segurança e pertencimento já não devolve mais o mesmo rosto. O espelho se torna opaco, porque o lugar de origem, os códigos culturais e até a própria língua perdem a nitidez diante do novo contexto. Nesse sentido, a experiência imigratória rompe o reflexo da identidade estável: o sujeito passa a se ver a partir de outras molduras, de outros olhares, de outras referências. O espelho, portanto, deixa de confirmar o que se é para anunciar o que ainda está se tornando.

Ouvir um imigrante latino-americano narrar suas perspectivas em outro país é testemunhar o instante em que o pertencimento se desfaz e precisa ser reinventado. Dou ênfase ao latino-americano porque, embora compartilhemos raízes históricas, traços culturais e marcas coloniais semelhantes, essa proximidade não garante uma igualdade de ser.

A experiência latino-americana é atravessada por desigualdades internas, por fronteiras simbólicas e por hierarquias silenciosas que se reproduzem mesmo entre povos vizinhos. O idioma, a aparência, o sotaque, a religião ou a forma de se vestir tornam-se marcadores que evidenciam o quanto a alteridade não depende apenas da distância geográfica, mas da maneira como olhamos o outro. Assim, o imigrante latino-americano nos confronta com um paradoxo: ele é familiar e, ao mesmo tempo, estrangeiro; carrega uma cultura que dialoga com a nossa, mas que é frequentemente colocada à margem, como se a semelhança não fosse suficiente para garantir reconhecimento. Essa tensão revela o quanto ainda precisamos descolonizar nossos olhares, compreender que o “próximo” também pode ser invisibilizado, e que a verdadeira hospitalidade exige mais do que acolher, exige rever as formas sutis de exclusão que habitam nossos gestos cotidianos.

Stuart Hall², na obra A identidade cultural na pós-modernidade (2006), compreendeu esse deslocamento não como ruptura, mas como condição contemporânea. Ao sair da Jamaica rumo a Londres, percebeu que a viagem não era apenas física, era simbólica e afetiva. Quando retornou, anos depois, encontrou uma terra que já não o reconhecia, e tampouco se reconhecia nela. O lar, então, revelou-se um lugar em trânsito. Essa experiência ecoa em cada imigrante latino-americano que atravessa fronteiras em busca de dignidade, trabalho ou refúgio, e que, ao chegar, descobre que a língua não é o único idioma a ser aprendido. É preciso aprender também o olhar do outro.

Nas conversas que tive com alguns deles, notei que o assombro não se limita ao que é visto, mas ao modo como se é visto. Há um estranhamento diante dos olhares que enquadram, das perguntas que insinuam diferença, das pequenas formas de exclusão que se travestem de curiosidade. É nesses gestos cotidianos que se manifesta a política da diferença de que fala Hall: o modo como as identidades são disputadas, nomeadas, reconhecidas ou negadas. O imigrante latino-americano carrega consigo a marca de um território simbólico que o antecede, uma história que o mundo insiste em reduzir à precariedade ou à alteridade exótica.

O novo, portanto, não assusta apenas porque é desconhecido. Ele assusta porque nos revela a distância que há entre o que somos e o que julgamos ser. A presença do imigrante desestabiliza, desmonta certezas e questiona fronteiras invisíveis. No espelho de sua diferença, reconhecemos também nossas limitações, o quanto ainda estamos presos à ideia de que o “outro” é sempre quem chega, e não também quem observa.

Mas o estranhamento não pertence apenas a quem atravessa fronteiras. Nós, que habitamos este lugar, também nos surpreendemos ao ver de perto rostos e sotaques que antes só víamos pela televisão ou nas redes sociais. O imigrante latino-americano, tão próximo de nós em geografia e história, de repente se torna presença viva no cotidiano: caminha pelas mesmas ruas, ocupa os mesmos espaços, compartilha o mesmo ar. E esse encontro, que poderia ser reconhecimento, muitas vezes começa como um choque, um espelho que revela o quanto ainda nos julgamos a partir de um olhar colonizado, que desvaloriza o próprio território e duvida de si mesmo. Pensamos: o que eles vieram fazer aqui? Esquecemos que, enquanto julgamos o nosso lugar, eles o reinventam.

Lembro-me de quando ele me disse, com simplicidade, que estava feliz. Que aprendeu a gostar do nosso modo de viver, mesmo achando nossa comida pouco temperada. Riu ao contar que tentou nos ensinar a preparar a dele, “muito apimentada”, disse sorrindo. Falou dos costumes, do cabelo, da maneira de se vestir, tudo isso como quem compartilha o que é, e não como quem tenta se encaixar. Na escuta, percebi que essa troca cotidiana é também um aprendizado sobre nós mesmos. O contato com o outro não nos retira identidade; pelo contrário, nos ajuda a reinventá-la. É nesse convívio, feito de gestos, sabores e risos, que vamos tecendo uma nova forma de pertencimento, sem perder de vista o que nos constitui culturalmente.

Talvez seja esse o verdadeiro sentido da travessia: compreender que o novo não é o oposto do familiar, mas a possibilidade de enxergá-lo com outros olhos. O assombro diante do novo, no fundo, é o convite a repensar o que chamamos de lar, não mais como lugar fixo, mas como espaço compartilhado de humanidade.

Referência bibliográfica
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2006.


¹ Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação-PPGEdu/IHCEC/UPF. Licenciado em Pedagogia – IHCEC/UPF. 178987@upf.br

² Stuart Hall (1932–2014) foi um dos principais teóricos dos Estudos Culturais britânicos, reconhecido por suas contribuições ao debate sobre identidade, cultura e poder nas sociedades contemporâneas. Sua obra A identidade cultural na pós-modernidade (2006) é citada neste texto por oferecer uma leitura crítica sobre a constituição das identidades na modernidade tardia, compreendendo-as como construções históricas e discursivas, sempre em movimento e sujeitas às relações de poder e representação que atravessam o campo cultural.

Fonte: Imagem criada por IA.

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