Durante uma aula da disciplina de Multiletramentos e Práticas Sociais, ministrada pela Profa. Dra. Patrícia da Silva Valério, fomos instigados a escrever sobre uma pessoa importante em nossas vidas. Foi uma escrita inspirada na leitura do texto “O guarda-chuva preto (ou como uma filha escreve o obituário de um pai?”, da jornalista Eliane Brum. A partir disso, escrevi o texto que segue:
O lar da Dona Marina
Dona Marina vive há 50 anos na cidade em que o esposo, meu saudoso avô, seu Pompílio, escolheu para fincar os cepos da casa de madeira que nunca foi pintada, mas que, para mim, tem um brilho radiante e é a mais linda do mundo.
Essa casa tem tamanha beleza porque lá mora a melhor avó que qualquer ser humano poderia ter; na verdade, aquela é a avó que todo mundo deveria ter.
A vó Marina é a mulher mais forte e paciente que conheci até hoje. Criou com amor e capricho seus cinco filhos, doze netos e três bisnetos. Quis o destino que eu fosse agraciada com o privilégio de ser a neta mais velha, a que mais a ama e quem sempre soube aproveitar cada instante do prazer de ter uma avó maravilhosa por perto.
Desde pequena, meu refúgio sempre foi sua casa: sua cozinha, seu tanque, a sombra do seu guarda-chuva, que me protegia do sol cada vez que eu a acompanhava até a casa de alguma vizinha distante. Lembro que o calor de janeiro e a poeira da estrada de chão não eram nenhum problema, pois caminhar de braço dado com a minha avó era um evento ilustre.
Outro gosto em comum sempre foi cozinhar com ela. Foi assim que aprendi a fazer bolacha, pão, ambrosia e pudim. Também me ensinou a socar canjica e fazer polvilho. Com ela, abati muitas galinhas, fiz muito salame, açúcar de cana e muito doce de leite.
Minha avó sempre teve o dom de acalmar as pessoas, porque é otimista. Sempre mostrou como tratar com zelo uma casa, porque, para ela, não é apenas uma casa, é um lar – o lugar onde temos amor e apoio, é nosso refúgio.
Todas as manhãs, desde que aprendi a caminhar até meus 18 anos, eu fazia as tarefas de casa o mais rápido possível para caminhar cerca de 2 km e tomar chimarrão com a dona Marina. Foi ela que me ensinou sobre as mudanças do corpo e sobre como ser mãe, ser esposa e mulher.
Hoje moramos longe e não consigo correr para o seu colo toda vez que sinto saudade. A vida adulta nos priva da convivência diária e do abraço mais caloroso e sincero. Não sei por quanto tempo Deus ainda permitirá que ela viva na sua linda casa de tábuas à vista, mas eu sei que lá está a definição de lar que tenho na mente, e que ela é a definição de mulher que tento seguir.
Te amarei para sempre, Dona Marina, e sou grata a Deus por permitir que viesse ao mundo na sua família.
Com amor, sua neta mais velha.
Infelizmente, esse texto teve uma adaptação na parte final. Apenas 3 semanas após escrever essa crônica, minha amada avó nos deixou para sempre. Levei meu textinho dobrado no bolso na sua despedida, peguei emprestada a caneta da ata do velório e adaptei a última homenagem que poderíamos fazer a ela. Mesmo em meio à tristeza daquela despedida dolorosa, me orgulhei de fazer um agradecimento digno a uma mulher que sempre se doou tanto a todos. Compartilho a adaptação feita num momento difícil, mas extremamente importante na vida de quem expressa, através da escrita, as batidas do coração:
Hoje, choramos sua partida e não conseguiremos mais correr para o seu colo toda vez que sentirmos saudade. A vida adulta nos priva da convivência diária e do abraço mais caloroso e sincero. Deus decidiu que era chegada a sua hora e cabe a nós respeitar sua decisão. Não teremos mais a senhora na sua linda casa de tábuas à vista, mas sei que lá era a definição de lar e que a senhora é a definição de mulher e ser humano que tentaremos seguir.
Nós a amaremos para sempre, Dona Marina, e somos gratos a Deus por permitir que viéssemos ao mundo em sua família.
Com amor, sua neta mais velha e sua família enlutada.
Por Andréia Farias Nogueira, Acadêmica do nível 4 do curso de Letras UPF

