A literatura de Machado de Assis continua ecoando nas formas artísticas contemporâneas, revelando sua atualidade e complexidade estética. Entre suas obras, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) permanece como um marco de ruptura na narrativa brasileira. O defunto autor, que escreve suas memórias depois da morte, inaugura uma forma de narrar que desafia o realismo convencional e antecipa o romance moderno. Em vez de contar uma vida exemplar, Brás Cubas expõe seus fracassos e vaidades com ironia e desencanto, desmascarando a hipocrisia da elite oitocentista. Sua morte, paradoxalmente, é o ponto de partida para a escrita, característica que anuncia a inversão de valores e perspectivas que define o romance.
Segundo Antonio Candido, o valor da obra de Machado está em transformar o social em elemento estrutural: “sabemos que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura da obra” (Candido, 1972, p. 16). A crítica social, portanto, não é mero pano de fundo, mas o próprio mecanismo que sustenta a ironia machadiana. Ao narrar a vida de um homem medíocre, o autor desmonta as ilusões de grandeza e virtude que sustentavam a literatura romântica. O fracasso de Brás Cubas é, ao mesmo tempo, individual e coletivo, reflexo de uma sociedade fundada na desigualdade, no paternalismo e na ociosidade.
Entre os episódios mais emblemáticos está a relação com Marcela, a cortesã que “amou-me durante quinze meses e onze contos de réis” (Assis, 2016, p. 89). A quantificação do amor em moeda revela a lógica de troca que estrutura todas as relações no romance — amorosas, familiares ou políticas. Brás parte para Portugal não em busca de formar-se como sujeito, mas para perpetuar a imagem de respeitabilidade burguesa. Sua ociosidade e seu desinteresse por qualquer projeto concreto evidenciam a falta de moral do protagonista e de seu tempo. Mais tarde, o adultério com Virgília repete esse padrão de superficialidade e conveniência, visto que prazer e status se entrelaçam num jogo de aparências em que nada é profundo nem verdadeiro.
Nesse contexto, personagens como Dona Plácida ganham importância simbólica. Intermediária dos encontros secretos entre Brás e Virgília, ela representa a mulher pobre cuja sobrevivência depende da cumplicidade silenciosa com o sistema que a oprime. Sua ausência na adaptação cinematográfica Memórias Póstumas (2001), de André Klotzel, constitui um dos silêncios mais significativos do filme. Ao eliminar essa figura, o diretor suprime uma camada essencial da crítica machadiana, que é a denúncia das desigualdades de gênero e classe que estruturam a sociedade retratada por Machado. A transposição para o cinema, porém, cria suas próprias estratégias de ironia e distanciamento.
O filme de Klotzel adota um recurso visual e sonoro que, à primeira vista, causa estranhamento: a sensação de dublagem, produzida pela utilização de voz over em estúdio. Longe de ser uma falha técnica, essa escolha reforça o distanciamento entre personagem e espectador, ecoando a frieza analítica do narrador defunto. Assim como Machado rompe com a ilusão de realismo na literatura, o filme rompe com a naturalidade cinematográfica, convidando o público a olhar criticamente para o espetáculo da vida burguesa. Essa estratégia aproxima-se do “efeito de distanciamento” proposto por Bertolt Brecht, que visava “ajudar o espectador a adquirir uma atitude crítica diante do que lhe é apresentado” (Brecht, 2005, p. 87).
Ainda que preserve a ironia e o tom metafísico do original, o filme opera condensações inevitáveis. Suprime episódios que revelam o vazio das relações familiares, como o conflito entre Brás e sua irmã Sabina pela herança paterna. No romance, essa cena concentra o desencanto e a perda de vínculos afetivos, como, por exemplo: “custou-me muito a brigar com Sabina […] dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmãmente […] mas estávamos brigados” (Assis, 2016, p. 130). A ausência dessa passagem no filme atenua o sentido de dissolução moral e afetiva que perpassa o texto de Machado. A narrativa fílmica privilegia o grotesco e o humor visual, enquanto o livro mergulha na ambiguidade psicológica e no vazio existencial.
A crítica às adaptações cinematográficas muitas vezes recai sobre a ideia de “fidelidade”, conceito que Linda Hutcheon (2011) problematiza ao afirmar que toda adaptação é uma recriação. Para a autora, as histórias são constantemente recontadas e reinterpretadas, e o valor de uma obra não depende de sua precedência temporal. Assim, o filme de Klotzel não deve ser avaliado pela quantidade de elementos mantidos, mas pela capacidade de reinventar, com os recursos próprios do cinema, o espírito provocativo de Machado. A voz over, a quebra da quarta parede e a ambientação teatralizada são formas visuais de traduzir o estilo fragmentado e irônico da narrativa original.
Portanto, o diálogo entre literatura e cinema ultrapassa a comparação de conteúdos, pois se trata de um encontro entre linguagens, cada uma com suas potências e limitações. Enquanto o texto de Machado oferece uma experiência introspectiva e ambígua, o filme aposta na expressividade da imagem e na musicalidade da fala. O olhar morto de Brás Cubas, narrando suas memórias com serenidade e sarcasmo, encontra na tela a dimensão do humor visual e o ritmo cinematográfico, substituindo o fluxo de consciência verbal. O defunto autor ganha corpo, mas continua sendo, paradoxalmente, uma presença espectral, símbolo de um Brasil que insiste em rir da própria miséria moral.
Se, na literatura, o emplasto de Brás Cubas é uma metáfora do desejo de eternizar-se, no cinema ele torna-se imagem, um gesto cômico que revela a mesma inutilidade. O fracasso do projeto, tanto o emplasto quanto a vida do protagonista, permanece intacto. A morte, que inaugura o romance, também encerra o filme, reforçando o caráter circular e vazio da existência do personagem. A ironia final — “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” — ressoa em ambos os meios como a constatação amarga de uma vida sem sentido e de uma sociedade sem redenção.
A força de Memórias Póstumas de Brás Cubas reside justamente nessa ironia, que transforma o fracasso em matéria estética e o desencanto em lucidez. O filme de Klotzel, ao dialogar com essa tradição, confirma que o texto machadiano continua vivo, mesmo quando reinventado. Cada adaptação é, como diria Hutcheon, uma nova vida para a obra, e cada silêncio, como o de Dona Plácida ou o de Sabina, é também uma leitura do que se considera essencial. Entre ecos e ausências, literatura e cinema convergem no mesmo gesto crítico: rir para não sucumbir diante da miséria humana.
Referências
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2016.
BRECHT, Bertolt. Textos escolhidos. Trad. Flora Sussekind. São Paulo: Editora 34, 2005.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Nacional, 2006.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Trad. André Telles. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
KLÓTZEL, André (dir.). Memórias Póstumas. [Filme]. São Paulo: Regina Filmes, 2001.
Por Isabela Morette, Letras nível VIII.
