Erro de concordância ou iminente evolução?

Como é comum em todas as línguas, no Português brasileiro (que daqui em diante será designado como PB) não é diferente: a língua falada de um idioma possui a característica intrínseca de ser mobilizada de diferentes formas, em outras palavras, possui muitas variedades. Assim, o foco desta produção será uma delas, que consiste na supressão das marcas redundantes de plural nas frases. Tal variante é classificada como gradual, ou seja, falantes dos meios rural, rurbano e urbano a empregam, tem-se, aí, uma variedade da língua falada que é bem-aceita, não é estigmatizada, uma vez que se faz presente na fala até mesmo de figuras instruídas e pertencentes às classes mais prestigiadas. Desse modo, não é difícil perceber a força que ela (a variante em questão) tem. Sendo assim, poderia ela tornar-se algo além de uma variante do PB falado? 

Em primeiro lugar, faz-se interessante abordar aqui trechos de entrevistas que foram realizadas pela autora do presente trabalho. Visou-se entrevistar indivíduos de diferentes faixas etárias e de diferentes níveis de escolaridade para assim avaliar as discrepâncias entre os falares de cada um, para observar as incidências de marcação ou não de plural em todos os elementos das frases. É importante frisar que as entrevistas possuem até oito minutos, mas para o fim desta análise, apenas alguns excertos serão aqui transcritos. Questionado sobre se alguma vez correu risco de morte, o entrevistado número um (mais jovem e com maior nível de escolaridade) respondeu o seguinte: – Eu acho que eu já senti algum susto algumas vezes… como… acidentes que quase aconteceram, sabe? E dá tipo aquele choque… Quando questionado sobre se o que se vive na infância interfere em quem se é hoje, o entrevistado número um disse: – Com toda certeza. Nossa… nossa personalidade hoje é moldada por como nos desenvolvemos desde criança. Respondendo se considera seu estilo de vida saudável, o mesmo entrevistado relatou: – Hm… na verdade, não… e acho que tô com os pé na cova já (risos). O entrevistado número dois (mais experiente e com menor nível de escolaridade), respondendo se considera importante ter fé, disse: – A fé é o que dá sentido à vida… muitos acha que… que não adianta, daí então não acredita em Deus. Ao dar sua resposta, quando indagado sobre já ter deparado com situações que ofereceram risco de morte e sobre o que passou pela sua mente (em caso afirmativo), o entrevistado número dois disse: – Não dá tempo… ã… quantas vez quase levei choque. Vários choque podia ter dado. Nos trechos, as marcas redundantes de plural foram destacadas em itálico e as supressões de marca de plural foram sublinhadas. Observando os excertos das entrevistas, é possível notar que o entrevistado número um utiliza em maior quantidade as marcas de plural em sua fala em comparação com o entrevistado número dois, ao passo que o entrevistado número dois suprime as marcas de plural mais frequentemente. Logo, conclui-se que essas incidências de supressão de plural redundante e marcação de plural em vários elementos do sintagma podem ser atribuídas ao nível de escolaridade: quanto maior o nível, espera-se maior ocorrência de marcas redundantes de plural na fala e quanto menor o nível, é esperado que elas (as marcas) ocorram com pouca frequência. 

Em segundo lugar,  em geral, quando são suprimidos os plurais redundantes, a marca de plural se encontra à esquerda do núcleo da frase e em grande parte das vezes, no primeiro elemento da frase. Nesse sentido, no Inglês, essa é a realidade da língua padrão/culta, basta observar a seguinte frase: I have beautiful little cats.  Analisando a frase, é possível perceber que a marca de plural só se faz presente no substantivo cats e veja bem, caro leitor, é possível entender perfeitamente que se trata de mais de um gato. No Francês, por outro lado, as frases até são escritas com marcações redundantes de plural, mas ao pronunciá-las, várias marcas de plural são omitidas. Seria uma questão de tempo para que o Francês, assim como o Inglês, tenha economia de plural até mesmo na escrita? Com esses exemplos, espera-se que essa variante (a economia de marcas de plural) seja vista com lentes menos preconceituosas pelos falantes de PB, uma vez que as línguas citadas acima têm considerável prestígio. 

Em terceiro lugar, é válido e necessário resgatar o que anteriormente foi dito acerca da classificação dessa variante que está sendo o centro desse estudo: trata-se de uma variante gradual, e assim, convém citar que “[…] não existe ninguém que realize a concordância em todas as circunstâncias previstas pela gramática normativa […]” (Bagno, 2011 apud Medeiros, 2013). Ou seja, até mesmo falantes com maior grau de instrução suprimem marcas de plural. Língua para ser língua precisa estar em constante evolução, dá para arriscar dizer que a evolução é o oxigênio das línguas; com isso, é possível refletir sobre o fato de que há variantes que uma vez foram descontínuas e hoje são tidas como graduais. Assim, por que uma variante gradual não pode vir a tornar-se parte do que é tido como gramaticalmente correto? Pois como bem coloca Faraco (2005) “[…] toda mudança pressupõe variação”. As mudanças em uma língua visam melhor servir os falantes; elas vêm para que melhor seja a experiência de mobilizá-la (a língua) para significar o mundo, para expressar o mundo interior que cada um carrega. Nesse sentido, há uma abordagem interessantíssima, chama-se economia linguística, e ela prega justamente essa ideia de melhora da experiência de utilização da língua. Não uniu as pontas agora, caro leitor? Bem, se é possível obter uma perfeita compreensão a partir de frases com apenas uma marcação de plural, não é bem possível que essa variante torne-se padrão no PB daqui a alguns anos? É plausível que as próximas gerações de brasileiros tenham como norma culta (e aqui se fala até mesmo da escrita) construções como essa: As casa branca é bonita. 

Logo, com base no que foi exposto de antemão, conclui-se que a supressão de marcas redundantes de plural é mais presente na fala de indivíduos que tiveram menos acesso à escola, mas ela também se dá na fala de falantes mais instruídos. Ficou claro que quando se utiliza apenas uma marca de plural na frase, o sentido não é prejudicado e, ainda, foi possível obter uma certa segurança de que é uma questão de tempo para que no PB (tanto falado quanto escrito) seja gramaticalmente correto se utilizar de expressões como Eu comprei umas meia quente, estilosa e confortável! E por mais que haja os resmungões (geralmente integrantes de classes prestigiadas), os quais costumam ver as mudanças na língua como um retrocesso – como traz a abordagem funcionalista –, quem tem maior força é o falante, e não a gramática; esta é submissa àquele. Ou seja, se a grande maioria esmagadora dos falantes – e há de se chegar a um acordo sobre o fato de que as classes mais altas não constituem a grande maioria –  empregarem com peso essa variante, incontestavelmente, ela tornar-se-á padrão. Por fim, de acordo com Bagno (2011), “É no vernáculo que se manifestam as tendências da língua na direção da mudança […]”, e ainda, um conselho a quem for sofrer com essa mudança: aceite, pois a língua é viva.

REFERÊNCIAS:

BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2011. 

FARACO, Carlos Alberto. Linguística histórica: uma introdução ao estudo da história das línguas. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. 

MEDEIROS, Andreia Dias de. Um estudo sobre a variação linguística no Português do Brasil. 2013, 34 p. 

Por Cyntia de Miranda Paludo, acadêmica do 8º nível de Letras UPF.

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