Fonologia e metaplasmos da fala do colono

1. Introdução

Bagno (2007) afirma que acreditar na existência de uma homogeneidade linguística no português falado no Brasil implica no não reconhecimento da diversidade intrínseca no país e, desse modo, uma ideia de “língua comum a todos” é difundida. É fato que sem falantes não há língua. Assim, com falantes diversos, as variedades da língua também são diversas e, por conta disso, faz-se necessário encarar os estudos linguísticos não apenas voltados aos aspectos de língua e fala, mas também às características dos seus falantes (Silva; Sousa, 2017). Na região sul é possível encontrar “colonos”. De acordo com o dicionário Oxford, esse substantivo possui três definições:

1.
aquele que habita uma colônia; membro de uma colônia.
2.
aquele que emigra para povoar e/ou explorar uma terra estranha.
3.
lavrador que trabalha em terra de outrem por um salário.

Colono, no contexto do presente trabalho, carrega muito mais do que a simples definição de um substantivo — é uma identidade cultural pautada em quem imigrou para o Brasil, trabalha com agricultura e pecuária e reside em suas terras na área rural. Os descendentes de imigrantes continuaram a cultivar uma cultura que cada vez mais se distanciou da existente em grandes centros urbanos, uma vez que seus costumes estão diretamente ligados à vida rural.

2. Identificação e internet

Com o êxodo rural, muitos colonos partiram para áreas urbanas em busca de novas oportunidades de trabalho e estudo. Por conta disso, a identidade colona virou motivo de chacota para muitas pessoas, sendo tratada como inferior e vexatória até por quem fazia parte dela e que, por conta da discriminação, mudou seus costumes e seu modo de falar. Aos poucos, o estigma foi curado, tornando-se cada vez mais comum o sucesso de influenciadores digitais que buscam trazer ao público situações vivenciadas por quase todos os colonos, afinal, sendo uma identidade cultural, muitas características entre as pessoas são compartilhadas. É esse o caso do humorista “Badin – O colono” que, em vídeos como “Coisas que têm em toda casa de colono”, vai muito além de frases clássicas e mídia visual engraçada — ele também aborda diversos aspectos da fala, gerando um dos mais fortes componentes de identificação que alguém pode sentir.

3. Variações fonológicas

O sotaque colono deixa claro alguns aspectos que podem (e devem) ser analisados por aqueles que estudam os aspectos fonológicos da língua. Para fins de estudo, foram gravados áudios autorizados, principalmente de 3 gerações (avós, pais e filhos) de duas famílias distintas, pronunciando uma mesma sequência de palavras, visando analisar os fenômenos ocorridos no momento da fala. A pequena lista de palavras é formada por: “dia”, “tinha”, “gente” e “sal”.

3.1. Aspectos da fala das avós

Primeiramente, foram analisadas as avós — colonas que possuem de 70 a 80 anos, sendo uma natural de Protásio Alves – RS e outra de Nova Bassano – RS. A pronúncia de ambas foi: [‘dia],[‘tiɲa],[‘ʒẽte],[‘sal], conforme a tabela de transcrição fonética presente na obra Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios (Silva, 2003).
Em momentos de descontração com a família (estes não presentes nos áudios analisados), também foi possível notar três dos metaplasmos mais característicos que acontecem na faixa etária avaliada (Alves, 2024). São eles:

  • A degeneração, tipo de metaplasmo por transformação em que ocorre a substituição de um fonema por outro, é vista na troca do fonema /v/ pelo fonema /b/ e vice-versa. Ele ocorre em palavras como “vassoura” que é, muitas vezes, pronunciada [ba’soɾa], enquanto “guabiju” é pronunciado [guavi’ʒu];
  • O metaplasmo por transposição denominado metátese, que consiste no deslocamento de fonemas dentro da palavra, também está presente na fala e pode ser percebida em palavras como “perguntar” que é pronunciada [preɡũˈtaɾ];
  • A prótese, metaplasmo por aumento, que acrescenta um fonema no início da palavra, é vista em “lembrar” e “baixar”. Assim, a frase “eu não me lembro” é pronunciada [eo ˈnõ me aˈlẽbɾo] e “Fulano baixou hospital” é pronunciada [fuˈlɐ̃no abaˈʃo ospiˈtal].

3.2. Aspectos da fala dos pais

Também foram analisadas as falas dos pais dessas famílias: homens e mulheres de 50 a 60 anos, também colonos e que residem no interior das cidades de Nova Bassano – RS e Paraí – RS. A pronúncia de ambos foi igual à das matriarcas da família: [‘dia],[‘tiɲa],[‘ʒẽte],[‘sal].
Dentre os 3 grupos analisados, esse é o que possui maior heterogeneidade na fala, fator percebido principalmente na conjugação verbal, em que, por alguns falantes, os verbos são conjugados na terceira pessoa do singular mesmo que o sujeito seja a primeira pessoa do singular. É imaginável que isso ocorra, principalmente, pela diferença de escolarização entre os falantes: os que possuíram maior nível de escolaridade e/ou incentivo aos estudos conjugam verbos mais adequados à forma culta, enquanto, no outro grupo, combinações como “Eu fez” e “Eu entendeu” são comuns.
Neste grupo, os metaplasmos citados anteriormente geralmente não ocorrem, mas é possível encontrar duas categorias de metaplasmo por supressão:

● Na palavra “estamos”, pronunciada [ˈtamo] ocorre a aférese, assim o /es/ desaparece, e também a apócope, que resulta na perda do /s/ no final da palavra;

● Na palavra “também”, pronunciada [tɐ̃ˈmẽ], é possível observar a síncope que resulta no desaparecimento do fonema /b/.

Na fala de um homem que possui pais colonos e é residente de Nova Bassano – RS, morando no perímetro urbano, com 45 anos, as falas foram: [‘ʤia] [‘ʧiɲa] [‘ʒẽʧe] [sal]. Além disso, nessa seção, a fala de mulheres não colonas de 40 anos que passaram a maior parte da vida fora da Serra Gaúcha e que atualmente moram em Nova Bassano – RS há mais de 10 anos foi analisada. O primeiro caso analisado foi de uma mulher porto-alegrense de 47 anos. A pronúncia foi: [‘ʤia] [‘ʧiɲa] [‘ʒẽʧi] [‘saw]. A outra mulher, de 42 anos, natural de Sobradinho – RS, onde a principal atividade parental era a agricultura, pronunciou as palavras da seguinte forma: [‘ʤia] [‘ʧiɲa] [‘ʒẽʧe] [‘saw].

3.3. Aspectos da fala dos filhos

Esse grupo inclui os filhos dessas famílias: um homem que mora no interior, trabalha na agricultura e na pecuária e atualmente cursa o ensino superior, e 3 mulheres (duas graduadas e uma estudante), que moraram no interior por toda a infância e adolescência e atualmente residem na cidade. O grupo possui mais contato com a cidade do que os anteriores, principalmente por conta das escolas e dos estabelecimentos situados em perímetro urbano. Nesse grupo, os participantes pronunciam as palavras da seguinte forma: [‘ʤia] [‘ʧiɲa] [‘ʒẽʧe] [‘saw]. Os metaplasmos encontrados nesse grupo são comuns entre a maioria dos falantes de português, não apresentando particularidades específicas por se tratar de colonos.

4. Considerações finais

Para concluir, com a síntese das características presentes no sotaque colono, é interessante ressaltar que a análise revela que boa parte dos traços marcantes da fala de colonos vem, de geração em geração, sendo perdida. Desse modo, reafirma-se a importância de valorizar toda a diversidade linguística presente no Brasil, uma vez que, como citado na introdução, o conceito de “língua comum a todos” é, para a sociolinguística, falacioso, pois, se as pessoas são diversas, o modo de falar também é.

Referências:

ALVES, Leonardo Marcondes. Os metaplamos. Ensaios e Notas, 6 dez. 2024. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2024/12/06/os-metaplasmos/. Acesso em: 14 de julho de 2025.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 49. ed. São Paulo: Edições
Loyola, 2007.

SILVA, Paulo Garré; SOUSA, Antonio Paulino de. Língua e Sociedade: influências mútuas
no processo de construção sociocultural. Revista Educação e Emancipação, n. 1, p. 260–285, 9 Out 2017. Disponível em: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/reducacaoemancipacao/article/view/7726. Acesso em: 4 de outubro de 2024.

SILVA, Thaïs Cristófaro. Introdução. In: SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e fonologia do
português
: roteiro de estudos e guia de exercícios. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2003.

Por Jaqueline Minosso, acadêmica do curso de Letras

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