Há mais de 40 anos, iniciou em Passo Fundo a Jornada Nacional de Literatura, organizada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura Municipal. Reconhecida como um dos maiores eventos do gênero na América Latina, a Jornada tornou-se ponto de encontro entre escritores, escolas, famílias, pesquisadores, educadores e leitores de todas as idades. Sob a icônica lona do Circo da Cultura, uma verdadeira comunidade se reunia em torno da literatura.
Ao longo de suas edições, a Jornada formou gerações de leitores e contribuiu para que Passo Fundo recebesse, em 2005, o título de Capital Nacional da Literatura. Depois de um período de suspensão motivado por dificuldades financeiras e pela pandemia, o evento volta a pulsar na cidade. A Jornada está novamente em movimento! O primeiro passo dessa retomada foi o Movimento Rejornalizar.
A história da Jornada sempre combinou debates literários com atrações culturais e artísticas: música, dança, teatro, folclore, circo e performances que aproximavam o público do universo das palavras. Nomes como Josué Guimarães, Ariano Suassuna, Marina Colasanti, Mia Couto, Elisa Lucinda, Luis Fernando Veríssimo, Lya Luft e Maurício de Sousa marcaram presença, construindo memória afetiva e intelectual na cidade.
Uma nova etapa!
A retomada foi anunciada oficialmente em 5 de novembro, durante a Feira do Livro de Passo Fundo, reunindo autoridades, instituições e público leitor. O “Jornada em Movimento” nasce ampliado: agora reúne a Prefeitura de Passo Fundo, a UPF, o Sesc, a 7ª Coordenadoria Regional de Educação, instituições públicas e privadas, livreiros e a Academia Passo-Fundense de Letras.
Em outubro, iniciaram-se os encontros do Movimento Rejornalizar, voltados às ações de formação de leitores para 2026. O primeiro deles foi o Círculo de Reflexões, reunindo coordenadores da Jornada e professores da rede pública e privada. Para a professora do curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF, Dra. Fabiane Verardi que também é uma das coordenadoras do Movimento, essa construção coletiva resgata a essência da Jornada, pois “cada participante traz repertórios diferentes, e é dessa multiplicidade que nasce uma Jornada mais representativa”.
À noite, o evento Leituras Boêmias uniu música, literatura e convivência. O público compartilhou poemas ao som de Arthur de Faria e dialogou com Patrícia Souza de Lima e Ricardo Maurício Gonzaga, vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2024 — atividade realizada em parceria com o projeto Cevadas Literárias. Segundo a professora Fabiane, a presença dos autores “reafirma o compromisso da Jornada com uma literatura plural, capaz de provocar reflexão e sensibilidade”.
Piquenique Literário: o encontro entre universidade e escolas
No dia 12 de novembro, o Piquenique da Jornada antecipou um dos eixos que sempre marcaram a história do evento: a aproximação entre a Jornada e os estudantes da rede pública de ensino. Coordenadores e monitores do Programa Tempo Integral, que atuam na UPF, organizaram uma programação voltada à literatura clássica, envolvendo oficinas, brincadeiras e experiências de leitura. Para Fabiane Verardi, esse encontro sinaliza o espírito da nova Jornada, já que “as oficinas mostraram como a leitura pode dialogar com música, corpo, sustentabilidade, filosofia e cidadania global, sempre colocando as crianças como protagonistas”.
Ela ressalta, ainda, que essa integração não é apenas simbólica, mas estruturante: “Mais do que uma atividade pontual, o piquenique reforça a Jornada como movimento coletivo, participativo e em expansão”.


O Círculo de Reflexões, formado por grupos focais que fazem parte do projeto Jornada em Movimento, reúne professores de escolas públicas e privadas de Passo Fundo com a finalidade de pensar e construir coletivamente os novos caminhos da Jornada. Para a professora do curso de Letras, essa diversidade é essencial, porque “ter um grupo heterogêneo evita visões únicas e garante ações mais inclusivas e conectadas à realidade”.
A presença de autores contemporâneos também amplia esse horizonte. Segundo a coordenadora, as obras de Patrícia Souza de Lima e Ricardo Maurício Gonzaga — convidados da primeira ação pública do projeto — conversam diretamente com a proposta da Jornada, já que exploram temas sociais, emocionais e éticos de forma sensível.
Por isso, a Jornada em Movimento é, sobretudo, um convite, na medida em que a comunidade é convidada a participar das atividades abertas, visitar bibliotecas e livrarias e ler com uma criança, como ressalta Fabiane que relembra ainda o título de Capital Nacional da Literatura, o qual só tem sentido quando a cultura leitora faz parte da vida cotidiana, faz a cidade pulsar.
O que vem por aí…
A edição de 2026 celebrará os 45 anos da Jornada Nacional de Literatura, com um calendário que se estenderá ao longo de todo o ano. Entre as ações já confirmadas, Fabiane destaca o retorno do curso “A leitura multiplicada”, a partir de fevereiro de 2026, voltado à formação de agentes de leitura, as Estações de Leitura, que estarão em diferentes espaços da cidade, e a Jornada pela Feira, integrada à Feira do Livro de Passo Fundo, ampliando ainda mais as atividades com autores, leitores e mediadores.
O objetivo é claro e um só: “recolocar a literatura em circulação, aproximar gerações e reafirmar Passo Fundo como a Capital Nacional da Literatura”.
A Jornada de Literatura é símbolo em movimento da força transformadora que a palavra exerce na formação de leitores. No contato com a literatura, a cidade reencontra sua própria voz — aquela que cresce nas escolas, ecoa nas praças, pulsa nas bibliotecas e ressurge em cada criança que descobre o encanto de um livro. A retomada desse movimento não é apenas o retorno de um evento, mas a reabertura de um caminho que Passo Fundo conhece bem: o da imaginação que reúne, do conhecimento que inquieta e da leitura que nos move.
Em cada encontro, oficina, conversa ou história partilhada, reacende-se a certeza de que a Jornada vive porque está nos leitores que a constroem. E, ao seguir em movimento, ela continua lembrando à comunidade que a literatura é sempre convite, sempre encontro, sempre futuro. Ainda que, aos olhos da sociedade, pareça algo desprezível e desnecessário, é um acalento para todos os profissionais da Letras, que vislumbram um mundo melhor, mesmo que, muitas vezes, seja como os gigantes observados por Dom Quixote (uma referência que só um bom leitor, influenciado pelas Jornadas, poderá compreender).
Por
Evelyn Bichof Nascimento
Francismar Furlanetto