Luamanda: a construção do sujeito feminino negro no conto de Conceição Evaristo

Desde os primórdios da sociedade, a figura feminina negra luta por espaço e reafirmação da sua identidade no seio social. Mulata, pretinha, empregada doméstica, barraqueira, burra, fogosa… esses são alguns dos muitos estereótipos que estão atrelados à imagem da mulher negra. Assim, a autora Conceição Evaristo traz, por meio das suas obras, a representação de personagens femininas que se contrapõem a essa estereotipação. Neste trabalho, focalizamos o conto Luamanda, o qual permite ao leitor ter uma percepção de uma mulher negra que se constrói como sujeito feminino livre e agente do seu próprio corpo. Utilizamos como aparato teórico as reflexões de Mikhail Bakhtin, a fim de refletir sobre a relação entre o autor da obra e suas visões de mundo perpassadas através de suas escritas.
A partir disso, é de conhecimento geral que historicamente as mulheres negras sempre foram postas à margem da sociedade. Seus corpos eram vistos e resumidos, muitas vezes, como um objeto de prazer a homens brancos e concomitantemente frutos de violência sexual. Com isso, a fim de causar uma ruptura nos estereótipos existentes em relação à figura feminina negra, surge Conceição Evaristo. Conceição presenteia o público, principalmente a figura feminina, através da representatividade constante que constitui seus escritos. Uma representatividade que já lhe fez ganhar vários prêmios, mas que, sobretudo, evidencia a força e a identidade da mulher negra, aquela que subverte a hierarquia social imposta e ganha espaço quando se constitui como sujeito.
Partindo dessa premissa, segundo Mikhail Bakhtin (1997, p. 344) “as personagens falam como participantes da vida representada, falam, por assim dizer, a partir de posições privadas, e seus pontos de vista, de um modo ou de outro, são limitados (elas sabem menos do que o autor)”. Nesse viés, evidencia-se que através de suas escritas, Conceição busca trazer uma percepção individual, mas ao mesmo tempo coletiva histórico-social das memórias relacionadas à cultura afro-brasileira. Assim, suas personagens carregam histórias, muitas vezes, advindas das experiências subjetivas que a autora deseja transmitir ao leitor, na relação entre um eu que se dirige intimamente a um tu.
No conto intitulado Luamanda, a personagem principal, assim como a lua, é composta por suas diferentes fases, tais quais o seu nome já diz. Desse modo, seja “Lua, Luamanda, companheira, mulher” (EVARISTO, 2016, p. 37), a figura feminina representada pela personagem assume diferentes papéis, os quais permitem desmistificar a concepção de objetificação atribuída às mulheres negras, bem como as demais imagens que lhes são dadas. À vista disso, buscamos ressaltar o termo objetificação, uma vez que Luamanda durante o conto possui muitos parceiros, no entanto, ela se constrói como um sujeito independente das relações que teve, o que demonstra que seu corpo sempre era fruto do seu próprio prazer e nunca de submissão em relação a aqueles com quem se relacionava.
Embora grande parte do conto revele as relações amorosas de Luamanda e a forma autônoma como lidava com seus amores, a escrita de Conceição também evidencia um momento importante na vida da personagem: a maternidade. Desse modo, “Lua cúmplice das barrigas-luas de Luamanda. Vinha para demarcar o tempo grávido da mulher e expulsar, em lágrimas amnióticas e sangue, os filhos: cinco.” (EVARISTO, 2016, p. 38), logo nota-se que a construção da identidade de Luamanda se dá durante todo o conto, o que demonstra que a personagem não poderia se resumir a apenas uma face, mas há muitas: “Luamanda, avó, mãe, amiga, companheira, amante, alma-menina no tempo.” (EVARISTO, 2016, p. 39). E assim, a sua construção como sujeito feminino negro vai ao encontro a uma forma de fomentar a luta cultural e social de mulheres negras na sociedade.
Nesse sentido, podemos perceber que a autora do conto consegue reforçar a força identitária da figura feminina negra à medida que propicia ao leitor, aquele que intitulamos como outro, um possível entendimento das multifacetas que qualquer mulher, independente de sua cor da pele, pode assumir em uma instituição social. Desse modo, entende-se que “ver e compreender o autor de uma obra significa ver e compreender outra consciência: a consciência do outro e seu universo, isto é, outro sujeito (um tu)” BAKHTIN (1997, p. 338), assim é indubitável que a escritora, por meio do seu texto, atinge seu objetivo de fazer aquele que lê e conhece Luamanda refutar a ideia de que as mulheres negras devem estar à margem da sociedade, podendo ocupar qualquer espaço e assumir qualquer papel que desejar.
Sendo assim, é notória a importância de textos como os de Conceição Evaristo, mais especificamente, neste caso, de Luamanda, uma vez que a construção do sujeito feminino negro permite uma reflexão profunda acerca da necessidade de romper com os muitos estereótipos erroneamente atribuídos às mulheres negras. Ademais, entender como Mikhail Bakhtin revela a relação entre o autor e suas percepções acerca do mundo contribui significativamente para compreender e desvelar o que está por trás de obras literárias.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. O Problema do Texto. In: __. Estética da criação verbal. 2. ed. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. Revisão da tradução de Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 327–358.

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016.

Por Rhaíssa Hannecker Barbosa – Mestrado em Letras (PPGL – UPF)

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