O carro do sorvete

Sei que não estamos preparados para lidar com a perda, mas acho que não poderia me sentir menos preparado para viver com isso pelo resto da minha vida do que me sinto agora. É um conjunto de sensações diferentes, que conversam entre si no mais absoluto silêncio. É o olfato ao sentir o perfume dela no quarto e torcer para ele não ir embora tão cedo. É olhar a urna, coberta pela camurça azul cuidadosa e tentar assimilar que o corpo dela está ali.

É ouvir o estalar estrondoso da porta de ferro que dá acesso à cozinha, que tem uma parte descolada que nunca foi devidamente soldada. É também o peso da lágrima escorrendo lentamente pelo rosto quando lembro que esse som não significa mais que ela acordou. Pelo contrário, é como um som de alerta para nos lembrar de que, independente de como estamos nos sentindo, é impossível encontrar ela ali dentro. Impossível.

Perder minha vó ressignificou minha vida, mas não tenho ideia de qual seja o novo significado. Só sei que as coisas não são mais as mesmas. A saudade me diz já fazer muito tempo, mas o trauma e as imagens dolorosas parecem extremamente recentes na minha memória. Eu só não sei o que fazer.

Como eu poderei viver com isso? Como é possível um mundo em que não saberei onde colocar o meu amor? Como eu vou achar onde colocar as memórias se eu não a terei para me lembrar delas? Como posso aceitar o fato de que não vou poder abraçá-la, me abaixando cada vez mais à medida em que cresço, enquanto meu amor continua o mesmo? 

Minhas perguntas ultrapassam parágrafos. Elas me atravessam por inteiro, cortando cada centímetro de pele pela incerteza. O sofrimento maior é saber que o “não sei” é o mesmo para cada uma delas. A ansiedade é a mesma, o choro é o mesmo e o desespero também é o mesmo. Porém, mesmo que existam essas respostas — e mesmo que elas sejam minimamente aceitáveis —, a dor permaneceria. E eu continuaria sem saber onde guardá-la em mim. 

Mas eu continuo vindo aqui. Deitando no sofá verde escuro que sempre senti como um abraço caloroso, talvez porque era onde passávamos boa parte do tempo juntos. É o sorvete de flocos que ela sempre lembrava de pegar do carro do sorvete “que está passando na sua rua”. Ela desdobrava o dinheiro guardado na bolsinha de moedas amarela, fazia sinal pro carro parar e dizia pra eu escolher o sorvete. E a gente tomava aquele sorvete juntos, assistindo qualquer filme da sessão da tarde. E eu era inexplicavelmente feliz.

Minha vó cuidou de mim quando eu era bebê. Cuidou de mim quando moramos juntos na minha adolescência. Cuidou da minha vida como parte dela desde que chorei pela primeira vez, como uma semente que precisa de atenção para crescer. Por minha vez, não sei como cuidar dela agora, dentro de mim. Não sei como (ou se devo) nutrir cada segundo de lembranças dela que tenho a todo momento, até distraído. Não sei se talvez deva lutar para esquecer, desviar o olhar da casa dela… Não sei se estou fazendo certo. Sequer sei se “fazer certo” vai tornar mais fácil.

O que eu sei é que eu daria tudo pra ter mais um minuto na companhia da minha vó. Um minuto e o resto da vida em minha lembrança.

Por Gabriel Maia, acadêmico do 4° semestre do curso de Letras

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